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domingo, 5 de janeiro de 2014

Teoria Crítica e Arte: Seria Nosso Ideal Artístico Utópico, em vez de Emancipatório?

(Especialmente dedicado aos amigos José Rodrigo Rodrigues e Ivan Rodrigues, com quem tive recentemente um debate sobre cinema que desembocou nesta questão. A postagem deve ainda a várias discussões que tive com o Davi Silva a este respeito.)

Confesso que ainda tenho dúvida sobre como a teoria crítica deve se posicionar perante a situação das artes (incluindo literatura, teatro e cinema) em sociedades contemporâneas. Claro que, nas artes em que sou mais iniciado (literatura, cinema e música - minha ignorância nas artes plásticas é atroz, mas estou tentando melhorar, prometo), percebo uma nítida diferença entre, de um lado, obras produzidas com o propósito de desafiar convenções formais, levar o estado da arte adiante e produzir prazer estético e, de outro, obras produzidas com o propósito de manipular habilmente as convenções existentes para proporcionar um prazer de entretenimento. É claro que deploro o fato de que a “arte” que é produzida com vista ao mercado e às massas é predominantemente do segundo tipo, embora não coloque toda a arte-entretenimento no mesmo nível vazio de qualidade estética e reconheça que mesmo nela existem níveis mais e menos elevados de composição, complexidade, profundidade e competência. É claro que preferia que as pessoas passassem mais tempo ouvindo Schumann, Liszt, Stravinsky ou Penderecki do que ouvindo funk carioca, sertanejo universitário, tecnobrega ou calypso; que passassem mais tempo lendo Cervantes, Dante, Joyce e Kafka do que Stephanie Meyer, E. L. James, G. R. R. Martin ou J. K. Rowling; que passassem mais tempo assistindo Bergman, Godard, Kubrick ou Buñuel do que os filmes que se tornam blockbusters em todo verão americano. Não há dúvida sobre nada disso, e partilho de todas estas aspirações, embora minha aspiração desse tipo não tome a forma de um desejo do resultado, quer dizer, um desejo de que o grande público admirasse, cultivasse e recompensasse apenas a arte erudita, que é um gosto elitista e com acento totalitário, e sim um desejo do processo, no caso, relativo ao processo de formação do gosto estético, porque o que queria era que o gosto estético do grande público fosse formado num ambiente de maior diversidade, oportunidade e informação, de modo que sua escolha pelo artisticamente pobre, caso viesse a ser feita, fosse verdadeiramente uma escolha, e não um determinismo de circunstância e de mercado. Trata-se menos de um desejo de que fosse amplamente distribuída a erudição estética, e sim a liberdade de formação do gosto. Feita esta advertência, pode me contar na fileira dos que alimentam este tipo de sonho.



Mas, de novo, minha dúvida começa quando se fala do papel da teoria crítica na apreciação da situação da arte. Digo isso pelo seguinte motivo. Sim, uma vez que a arte se libertou simbolicamente da religião e economicamente do mecenato, ela se tornou livre e autônoma, mas apenas no mesmo sentido em que Marx ironizava que o trabalhador sem suas ferramentas e local de trabalho também se torna livre e autônomo, isto é, apenas no sentido de tornar-se mais facilmente presa das relações capitalistas, às quais precisa servir se não quiser desaparecer. Quando a arte se converte de atividade eminentemente estética para uma atividade estética que precisa render os dividendos com que sustentar-se a si mesma no mercado, competindo pela atenção e pelo consumo de um público que está mais interessado em entretenimento e excitação do que em profundidade e originalidade, ela tende, é claro, a derivar numa manipulação repetitiva de clichês da profissão com vista à produção sazonal de espécimes do mesmo gênero de diversão, com a novidade inclusive sendo apenas uma forma a mais de repetição. Isso não é ruim apenas para os artistas e suas obras, que têm que se submeter ao gosto desqualificado e desinformado do grande publico, mas é ruim também para o próprio público, que já é formado novamente a cada geração na condição de consumidores dos clichês de cada forma artística, mantido prisioneiro numa caverna estética em que as obras que lhe chegam são apenas sombras das verdadeiras obras artísticas que passam por trás das suas costas do lado de fora desta prisão cultural. Logo, a mercantilização da arte é um estado deplorável de coisas, especialmente quando comparado com a situação ideal de formação livre e informada do gosto, de que falei acima. Até aí nenhum problema, exceto este: Quando fazemos este diagnóstico da situação atual da arte, o fazemos em contraste com uma situação ideal de formação estética, situação esta que, enquanto fenômeno social coletivo, unindo todas as classes na contemplação dos objetos com verdadeiro valor estético, jamais existiu em lugar algum em tempo algum; daí me pergunto se, ao usarmos este ideal como referencial de contraste não estamos trabalhando com uma utopia e, se estivermos, se isso ainda é condizente com as tarefas de uma teoria crítica da sociedade. Pretendo deixar isso ainda mais claro em seguida.


Se usarmos como referencial as situações concretas pelas quais a arte já passou de fato ao longo da história da civilização ocidental, o que agora alimentamos como ideal a ser vivenciado pela público como um todo não foi jamais um fato na história, tendo sido, quando muito, a realidade temporária de uma elite intelectual seleta, durante alguns anos de efervescência cultural aqui e ali na história. A aristocracia das monarquias absolutistas tinha de si mesma uma imagem de elite culturalmente informada que admirava as obras de arte distinguindo seu verdadeiro valor estético, mas conceder que seja assim é aceitar ingenuamente esta autoimagem enganadora em detrimento da situação que a pesquisa história de fato nos revela, que era de que a classe nobre daquela época se encontrava perdida na concentração em clichês (embora clichês eruditos), na repetição da tradição já afirmada, na prática de favoritismos a artistas, obras e gêneros que tinham a ver com as preferências dos nobres de maior prestígio, num ambiente de intensa competição entre artistas que frustram ou se apropriam das obras uns dos outros e que trabalham nos bastidores para se tornarem os favoritos do próximo modismo cultural etc. Então, a situação do gosto estético livre e informado, a situação ideal de contemplação artística, pode nunca ter existido sequer como fenômeno isolado de uma classe privilegiada; se é assim, que dizer, então, da esperança de que se torne um fenômeno coletivo abarcando o público como um todo? É claro que todos que se dedicam ao cultivo de seu gosto artístico o fazem sob o pressuposto de que a arte de qualidade responde a necessidades e aspirações humanas fundamentais e de que qualquer um, não importa o gênero, a raça ou a classe em que nasceu ou a filiação nacional, religiosa ou política que tenha, é capaz de apreciar a superioridade da boa arte se for adequadamente formado para tanto com as oportunidades necessárias de contemplação estética e com a inspiração de alguns mentores que lhe apresentem da forma apropriada as angústias e encantos desta atividade humana em especial. Mas, de que esta seja a pressuposição com que trabalhamos, se segue que pode ser convertida em ideal normativo com vista à crítica da situação existente e com vista à realização concreta? Esse ideal é mesmo sustentável, ou é utópico, uma simples extrapolação generalizante das pretensões estéticas abstratas inscritas nas práticas artísticas da modernidade? Ou pior: Um simples desejo elitista e totalitário das classes cultas de ver o público mais amplo formado à sua imagem e semelhança?



Como se sabe, a teoria crítica rejeita identificar a emancipação humana com algum ideal abstrato e utópico que não esteja inscrito como possibilidade concreta dentro do quadro de realidade social que se esteja apreciando. Esse tipo de ideal abstrato e utópico é associado com o normativismo, que é um tipo de teoria tradicional, e não de teoria crítica, e que erra não apenas porque concebe o ideal de maneira desligada dos processos históricos e sociais concretos que lhe poderiam dar plausibilidade teórica, mas também porque favorece uma atitude prática conformista na medida em que exige da realidade uma transformação pela qual esta não pode passar verdadeiramente – não é conformista por aceitar o real passivamente, e sim por opor a ele um ideal que não é alcançável. Para escapar da tentação do normativismo, é preciso divisar uma possibilidade de emancipação que esteja inscrita como possibilidade concreta no quadro social real. Para Marx, por exemplo, o comunismo estava inscrito desta forma no quadro do capitalismo não apenas porque representava a realização das promessas de liberdade e igualdade feitas pelo Esclarecimento e mantidas, mesmo que de forma distorcida, como cerne ideológico de convencimento da democracia liberal capitalista, mas também porque as forças históricas reais existentes na sociedade, isto é, o desenvolvimento das forças produtivas e a superexploração seguida de progressiva exclusão da classe trabalhadora dos bens da vida capitalista, de fato criariam as condições para a transição para uma sociedade pós-capitalista para além do trabalho físico e da escassez. Esse não era um ideal abstrato, e sim um ideal inscrito no processo de desenvolvimento (e de superação dialética) do próprio capitalismo. Se esta análise de Marx pecou ou não pelo ceticismo em relação à capacidade de reinvenção e de adaptação do capitalismo e pelo otimismo em relação às condições da revolução proletária, este é outro ponto. O que estou enfatizando é que, do modo como foi proposto por Marx, não era um ideal abstrato, e sim uma possibilidade de emancipação inscrita de modo concreto no processo em curso na história. Agora, pergunto: De que forma a situação ideal de formação e contemplação estética com que sonhamos seria também reconhecível como uma possibilidade emancipatória concreta inscrita no real? Que real está sendo avaliado? Quando foi que o real histórico apontou jamais para esta possibilidade? Quais forças dentro do real nos autorizam a ver aquela situação estética ideal como mais do que um sonho talvez caridoso, talvez narcisista, das classes artisticamente cultas?



A história da arte e de suas grandes criações e contribuições para a humanidade não parece se dar de forma tal que permita visualizar o ideal da comunidade estética erudita como termo final de nenhum processo concreto. Ao contrário, esta história parece ser a de uma atividade que é perpetuamente capaz de transcender suas limitações concretas e criar beleza imortal não a partir da liberdade e do reconhecimento, mas a despeito da falta de liberdade e do reconhecimento, e até muitas vezes precisamente por causa da falta de liberdade e do reconhecimento. Em todos casos, seja quando atada à tradição das primeiras civilizações (que não impediu que houvesse um Ésquilo, um Virgílio ou um Marcial), seja quando limitada à religião e vista como instrumento pedagógico-litúrgico (que não impediu que houvesse um Bach ou Haydn), seja quando dependente do mecenato de uma classe aristocrática fútil (que não impediu que houvesse um Mozart, ou Velásquez) ou mesmo quando tornada servil aos fins dos tiranos e ditadores, a arte sempre parece capaz de fazer o oposto do que dela se esperaria: em vez de ficar confinada aos limites que a restringem, tomar neles impulso e saltar por cima deles para alcançar o inefável precisamente ali onde o mundano tudo fazia para que ele fosse impossível. Com isso não quero dizer que não há problemas em a arte sofrer constrangimento externo, que não devêssemos aspirar e lutar por uma situação de maior liberdade e originalidade. O que quero dizer é que não se divisa na arte um processo de criação progressiva da situação ideal por meio das circunstâncias históricas concretas, e sim uma luta da voz artística para ser ouvida para além dos muros que a procuram conter. Novamente: Nada parece nos autorizar a falar da situação ideal de contemplação estética pelo grande público como mais que um ideal abstrato e utópico nascido do desejo de que fosse universalizada a experiência individual da liberdade do gosto. É por essa razão que entre, de um lado, o ideal normativo que alimento como sonho em relação à arte e, de outro, o procedimento crítico-emancipatório da teoria crítica vejo imensas dificuldades de conciliação.


(Antes que alguém pergunte na caixa de comentários da postagem, digo que sim, estou levando em conta tudo que Adorno, Marcuse e Benjamin disseram sobre o assunto, mas ainda não consigo, assim mesmo, ver como aquele ideal normativo da comunidade esteticamente erudita pode ser mais do que uma utopia abstrata. Se alguém que se dedica ao estudo destes autores tiver uma demonstração convincente de como aquele ideal se inscreve como possibilidade concreta no real, por favor, fique à vontade para fornecê-la e dividi-la conosco nos comentários.)

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Um Pouco Mais sobre Arte

Devido ao (suposto) regime de superexploração a que submeto a Fernanda na monitoria, devidamente denunciado pela Marina no comentário a outra postagem minha (no qual ela parecia aspirar à mesma condição severiniana), não estou em posição para negar um pedido feito por ela, de modo que me sinto na responsabilidade de falar um pouco mais sobre Arte aqui no Blog, ainda que esse assunto fuja um pouco aos propósitos para os quais o Blog geralmente se presta. Não sou assim tão versado em Estética, nem em Filosofia da Arte, muito menos em Teoria da Arte, mas vou tratar aqui de alguns conceitos básicos na medida em que estiver ao meu alcance.

Primeiro de tudo: O que é Arte? Essa pergunta pode remeter a duas coisas diferentes: 1) A um conceito de Arte; 2) A um critério com que distinguir Arte de não-Arte. Quanto ao conceito de Arte, poderíamos dizer que se trata de qualquer criação humana, total ou parcialmente desvinculada de seu valor de uso, que realize um ideal estético e se volte à contemplação desinteressada de um público leigo ou especializado. Quanto ao critério de demarcação, depende de em relação a que se quer distingui-la: Em contraposição à natureza, a Arte se marca por ser intencional e humana, e não acidental e não-humana; em relação à indústria, por visar ao valor de contemplação, e não ao de uso; em relação ao entretenimento, por realizar um ideal estético superior e visar a um público seleto, e não simplesmente proporcionar prazer ao maior público possível; em relação à filosofia, por ser intuitiva, e não conceitual; em relação à religião, por ser mundana e imanente etc.

Em segundo lugar: Em que consiste o valor estético? Não é fácil responder a isso. A resposta mais cautelosa seria considerar que se trata de uma integração entre uma forma dotada de apelo sensual e um conteúdo dotado de apelo intelectual. Trata-se do chamado duplo prazer que a Arte proporciona: o prazer imediato dos sentidos, devido à beleza da obra, e o prazer mediato do intelecto, devido ao seu sentido. Essa não é, contudo, uma descrição consensual nem neutra, pois responde à chamada concepção clássica de Arte, que herdamos dos gregos. Mas ela pode se adaptar mais ou menos facilmente inclusive às concepções mais modernas, como o formalismo, o abstracionismo e a “arte pela arte”.

E a Beleza, em que consiste? Outra pergunta difícil. A Beleza certamente tem a ver com apelo sensual, quer dizer, com a aptidão para produzir sensações agradáveis, sobretudo à visão e à audição (embora a aptidão de produzir alguns prazeres tácteis, olfativos e gustativos seja também, no mínimo, assemelhada à beleza). Esse prazer pode ser o prazer lânguido, semelhante ao transe (aquele que Nietzsche chama de Apolíneo e que se relaciona ao sono e ao sonho), ou o prazer febril, semelhante ao êxtase (aquele que Nietzsche chama de Dionisíaco e que se relaciona com o sexo e a embriaguez). O prazer apolíneo é obtido através do equilíbrio e da harmonia entre formas ou entre sons. O prazer dionisíaco é obtido através da excitação e do excesso.

Mas a Beleza não se esgota nisso. Além de ser uma aptidão para produzir prazer sensual, a Beleza é também uma aptidão a produzir certo estado de ansiedade ou nostalgia. Ela é ao mesmo tempo uma satisfação e uma carência, causa saciedade e nova privação. Nisso ela se assemelha ao Amor, motivo por que os gregos os associaram tantas vezes entre si: Desde a crença mitológica de que Afrodite era deusa da beleza e seu filho, Eros, era o amor, até a doutrina platônica de que a Alma ama o que é belo.

A Beleza não é, como às vezes se diz, dependente dos olhos de quem vê. Embora juízos do tipo “X é belo” não possa ser qualificado adequadamente como um juízo objetivo, também não pode ser qualificado como subjetivo. Os juízos estéticos repousam sobre certos padrões de valor compartilhados pelos membros de certa cultura e podem ser defendidos racionalmente com base em tais padrões. Uma afirmação como “As Mulheres Taitianas é a melhor pintura de Gauguin” pode ser defendida com razões, enquanto “Baunilha é o melhor sabor de sorvete” não pode. O primeiro é um juízo estético que se apóia em padrões valorativos compartilhados, enquanto o segundo é a expressão de um gosto subjetivo meramente privado.

Quanto ao gosto, aliás, vale a pena distinguir entre dois sentidos desse termo: 1) Gosto subjetivo, que é certo padrão ou conjunto de preferências privadas, próprias de um indivíduo, que determinam o que lhe agrada ou desagrada; e 2) Gosto objetivo, que é a capacidade, produto da integração entre sensibilidade natural e educação estética, de distinguir entre o belo e o feio, entre obras de maior e menor valor estético. Quem consegue ter gosto objetivo e fazer coincidir com ele seu gosto subjetivo, ou seja, quem reconhece o que é belo e cultiva o amor pelo belo, tem “bom gosto” em sentido estético.