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quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Há um paradoxo entre generosidade e justiça?


Essa postagem pretende compartilhar com todos um paradoxo (pelo menos, aparente) a que cheguei pensando acerca da relação entre generosidade e justiça, do ponto de vista das relações individuais. Vou primeiro expor o paradoxo e depois fazer comentários a respeito. O referido paradoxo se estrutura sobre três considerações:

1) Se, numa relação entre os indivíduos A e B, A deve a B uma quantia x, então, caso A dê a B apenas x e nada mais, deu a ele apenas o que devia, e nesse caso diremos que A foi justo; mas, caso A dê a B x e alguma coisa a mais, digamos, (x + n) (sendo n > 0), deu a ele mais do que devia, e nesse caso diremos que A foi generoso. (Se A deu a B certa quantia sem que lhe devesse nada, aplica-se a isso a mesma lógica de (x + n), com a diferença de que, neste caso, x = 0).

2) Contudo, sempre que n > 0, será verdade que (x + n) > x, logo, será verdade que (x + n) é diferente de x, de modo que poderemos dizer que A deu a B algo diferente (visto que maior) do que lhe devia, ou ainda que A não deu a B o que lhe devia (e sim outra coisa, maior). Pois, na medida em que (x + n) é diferente de x, é verdade que (x + n) = não-x. E, na medida em que A deu a B um não-x, é verdade que A não deu x a B. Como A teria sido justo apenas se tivesse dado x a B, podemos dizer que, ao dar x + n a B, A não foi justo com B. Como, por outro lado, ter dado x + n a B é exatamente no que consiste A ter sido generoso com B, podemos dizer que, porque A foi generoso com B, A não foi justo com B.

3) Além disso, a justiça é bilateral. Logo, na medida em que A deve x a B e dá a B exatamente x, não apenas dá a B o que lhe deve, mas também não se priva a si mesmo de mais do que deve. Seja TA tudo que A possui e TB tudo o que B possui, podemos dizer que, se A deve x a B, então, B deve receber x e A deve ser privado de x, de modo que TB deve se converter em TB + x e TA deve se converter em TA - x. Ora, na medida em que A, que deve x a B, dá x + n a B, converteu TB não em TB + x, mas em TB + (x + n), o que equivale a dizer que deu a B mais do que devia (fato cujas consequências já examinamos na consideração 2). Da mesma forma, ao fazer aquilo, converteu TA não em TA - x, mas em TA - (x + n), o que equivale a dizer que se privou a si mesmo de mais do que devia. Sendo assim, quando A dá x + n a B, ele não apenas é, de acordo com o que se viu em 2, injusto com B, mas é, à luz do que agora vimos, também injusto com A, isto é, consigo mesmo.

Como seria possível escapar desse paradoxo?

Uma solução, bastante intuitiva, seria estipular especificações adicionais sobre o que significa ser injusto com alguém. Se A deve x a B, podemos estipular, contra a consideração 2, que A só será injusto com B se der a ele x - n, mas não será injusto com B tanto se lhe der apenas x quanto se lhe der x + n. Assim, se A deve x a B, para que A seja injusto com B, não basta que lhe dê um não-x, mas é preciso que lhe dê um não-x tal que não-x < x. Nesse caso, a consideração 2 estaria afastada.

Da mesma maneira, se A deve x a B, podemos estipular, contra a consideração 3, que A só será injusto consigo mesmo se se vir privado de x + n contra a sua vontade, mas não se ele mesmo o fizer de modo livre e deliberado. Nesse caso, a consideração 3 estaria afastada. Assim, seja (L) o símbolo para uma ação praticada de modo livre e deliberado e (não-L) para uma ação praticada de modo despercebido, irrefletido, enganado ou coagido, podemos dizer que, se A deve x a B, só será injusto consigo mesmo se se privar de x + n (não-L), mas não o será se se privar de x + n (L).

No entanto, tais estipulações adicionais, que são, à primeira vista, bastante conformes às nossas intuições cotidianas, terão, por outro lado, certas consequências bastante contraintuitivas. Por exemplo, se aceitarmos que, se A deve x a B, para que A seja injusto com B, não basta que lhe dê um não-x, mas é preciso que lhe dê um não-x tal que não-x < x, disso se seguirá que, ao dar a B um não-x tal que não-x > x, isto é, ao dar a B mais do que lhe devia (não só x, mas x + n), A foi justo com B. Se A foi justo com B ao lhe dar x + n, então, era justo que A desse x + n a B. Se era justo que A desse x + n a B, então, A, ao dar x + n a B, não fez a B mais do que o que era justo que fizesse, de modo que, ao fazer isso, que era apenas o justo, não foi de modo algum generoso. Para que A tenha sido generoso com B ao lhe dar x + n, é preciso que x seja o que era justo que A desse a B e que (x + n) > x. Do contrário, trata-se apenas de justiça, e se anula a generosidade envolvida no ato. Dessa forma, parece que é simplesmente impossível que A seja generoso com B sem que A seja, ao mesmo tempo, injusto com B.

Já se aceitarmos a segunda estipulação adicional, isto é, que, se A deve x a B, só será injusto consigo mesmo se se privar de x + n (não-L), mas não o será se se privar de x + n (L), seguir-se-á daí que A, ao converter TA não em TA - x, mas em TA - (x + n), desde que (L), não foi injusto. Se A, ao converter TA não em TA - x, mas em TA - (x + n), desde que (L), não foi injusto, então, era justo que A convertesse TA não em TA - x, mas em TA - (x + n), de modo que, ao fazer isso, absolutamente não foi generoso, mas apenas justo. Para assumirmos que A foi de fato generoso com B, é preciso que não fosse justo que ele convertesse TA em TA - (x + n). Dessa forma, para que A tenha sido de fato generoso com B, é preciso que, além de ter sido injusto com B, tenha sido também injusto com A, isto é, consigo próprio.

E então? O paradoxo é mesmo insolúvel (ou seja, só é possível para A ser generoso com B na medida em que A seja injusto tanto com B quanto com A) ou vocês teriam novas sugestões de solução?