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quinta-feira, 20 de maio de 2010

Vinhos e Relativismo: Uma Apreciação Crítica Kantiana

“O melhor vinho do mundo é aquele de que você gosta”. Muito familiar de apreciadores de vinho, frequentemente citada pelos grandes conhecedores, a meu ver, menos como louvor ao relativismo que como um tipo de modesta atenuação do peso de sua expertise, através da concessão à experiência do principiante, essa frase, que nos círculos enófilos já ganhou ares de provérbio sapiencial, pode ser lida de várias maneiras, algumas das quais certamente escapariam a qualquer acusação de subjetivismo. Mas estou aqui interessado numa das suas leituras, exatamente a que acentua sua faceta relativista. Nesse viés, a frase significaria que pouco importam a tradição, a fama ou a classificação do vinho, porque, no fim das contas, o que realmente importaria para que ele fosse bom seria o quanto ele agradaria ao paladar de cada experimentador individual. Quero deixar claro que para mim essa não é a interpretação mais adequada da frase, é apenas a conotação com que quero lidar para fins de discussão nessa postagem. Com esse sentido, a frase implicaria a total negação de toda expertise enológica, exatamente na medida em que tornaria todos os experimentadores individuais, mesmo os dotados dos paladares mais inexperientes, grosseiros ou exóticos, expertos irrefutáveis em matéria de bons vinhos. Os vinhos que mais os agradassem seriam automaticamente os melhores vinhos, e eles não poderiam se enganar a esse respeito. Todo tipo de vinho, não importa o quão barato, vagabundo, desencorpado e desestruturado fosse, seria candidato a melhor vinho do mundo, bastando que houvesse um único experimentador insano a quem ele agradasse mais que todos os outros. Seria a chance do São Braz contra o Brunello di Montalcino, do Château du Valieur contra o Château Margaux, do Santa Helena contra o Barolo Riserva. Seria a confirmação última da suspeita daqueles que dizem que vinho é tudo igual e que os enófilos se deixam levar ingenuamente por essas “frescuras” de rótulo, tipologia, origem e classificação. Seria, enfim, a morte da enofilia. Por isso mesmo, a frase nesse sentido é inaceitável. Seu erro é confundir gosto com preferência, prazer com deleite. Invoco Kant (Crítica da Faculdade do Juízo) para sanar o problema, embora aqui eu faça uma adaptação (talvez levemente humeana) das palavras de Kant, para tornar suas ideias menos complexas. Gosto é apreciação da qualidade objetiva da coisa, algo próximo do conhecimento, enquanto preferência é configuração individual da agradabilidade dos sentidos, algo próximo do acidente e do acaso. A coincidência entre preferência e gosto é o bom gosto, que é meta da boa educação dos sentidos. Prazer é a experiência positiva que se alcança mediante a apreciação desinteressada do que é belo, enquanto deleite é a sensação positiva que se experimenta quando algo agrada aos sentidos. Dizer “o melhor vinho do mundo” se refere a gosto e prazer, enquanto dizer “o vinho de que você mais gosta” se refere a preferência e deleite. Quem prefere vinhos piores, porque estes lhe causam mais deleite, tem mau gosto, um gosto não educado, e está excluído da experiência do prazer, ficando no mero deleite. E isso é muito triste e lamentável, seja em matéria de vinhos, seja quanto às artes plásticas, à música, ao cinema, à literatura ou à poesia. Em todos esses campos, nenhum conhecedor experiente é relativista, porque o relativismo, ao igualar tudo, nega a riqueza que só uma duradoura educação do gosto proporciona. E essa é, na minha opinião, a refutação mais decisiva do relativismo em matéria de estética.

P.S. Recomendo fortemente a leitura dos comentários a essa postagem, onde a discussão se aprofunda e se refina bastante a partir das críticas.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Um Pouco Mais sobre Arte

Devido ao (suposto) regime de superexploração a que submeto a Fernanda na monitoria, devidamente denunciado pela Marina no comentário a outra postagem minha (no qual ela parecia aspirar à mesma condição severiniana), não estou em posição para negar um pedido feito por ela, de modo que me sinto na responsabilidade de falar um pouco mais sobre Arte aqui no Blog, ainda que esse assunto fuja um pouco aos propósitos para os quais o Blog geralmente se presta. Não sou assim tão versado em Estética, nem em Filosofia da Arte, muito menos em Teoria da Arte, mas vou tratar aqui de alguns conceitos básicos na medida em que estiver ao meu alcance.

Primeiro de tudo: O que é Arte? Essa pergunta pode remeter a duas coisas diferentes: 1) A um conceito de Arte; 2) A um critério com que distinguir Arte de não-Arte. Quanto ao conceito de Arte, poderíamos dizer que se trata de qualquer criação humana, total ou parcialmente desvinculada de seu valor de uso, que realize um ideal estético e se volte à contemplação desinteressada de um público leigo ou especializado. Quanto ao critério de demarcação, depende de em relação a que se quer distingui-la: Em contraposição à natureza, a Arte se marca por ser intencional e humana, e não acidental e não-humana; em relação à indústria, por visar ao valor de contemplação, e não ao de uso; em relação ao entretenimento, por realizar um ideal estético superior e visar a um público seleto, e não simplesmente proporcionar prazer ao maior público possível; em relação à filosofia, por ser intuitiva, e não conceitual; em relação à religião, por ser mundana e imanente etc.

Em segundo lugar: Em que consiste o valor estético? Não é fácil responder a isso. A resposta mais cautelosa seria considerar que se trata de uma integração entre uma forma dotada de apelo sensual e um conteúdo dotado de apelo intelectual. Trata-se do chamado duplo prazer que a Arte proporciona: o prazer imediato dos sentidos, devido à beleza da obra, e o prazer mediato do intelecto, devido ao seu sentido. Essa não é, contudo, uma descrição consensual nem neutra, pois responde à chamada concepção clássica de Arte, que herdamos dos gregos. Mas ela pode se adaptar mais ou menos facilmente inclusive às concepções mais modernas, como o formalismo, o abstracionismo e a “arte pela arte”.

E a Beleza, em que consiste? Outra pergunta difícil. A Beleza certamente tem a ver com apelo sensual, quer dizer, com a aptidão para produzir sensações agradáveis, sobretudo à visão e à audição (embora a aptidão de produzir alguns prazeres tácteis, olfativos e gustativos seja também, no mínimo, assemelhada à beleza). Esse prazer pode ser o prazer lânguido, semelhante ao transe (aquele que Nietzsche chama de Apolíneo e que se relaciona ao sono e ao sonho), ou o prazer febril, semelhante ao êxtase (aquele que Nietzsche chama de Dionisíaco e que se relaciona com o sexo e a embriaguez). O prazer apolíneo é obtido através do equilíbrio e da harmonia entre formas ou entre sons. O prazer dionisíaco é obtido através da excitação e do excesso.

Mas a Beleza não se esgota nisso. Além de ser uma aptidão para produzir prazer sensual, a Beleza é também uma aptidão a produzir certo estado de ansiedade ou nostalgia. Ela é ao mesmo tempo uma satisfação e uma carência, causa saciedade e nova privação. Nisso ela se assemelha ao Amor, motivo por que os gregos os associaram tantas vezes entre si: Desde a crença mitológica de que Afrodite era deusa da beleza e seu filho, Eros, era o amor, até a doutrina platônica de que a Alma ama o que é belo.

A Beleza não é, como às vezes se diz, dependente dos olhos de quem vê. Embora juízos do tipo “X é belo” não possa ser qualificado adequadamente como um juízo objetivo, também não pode ser qualificado como subjetivo. Os juízos estéticos repousam sobre certos padrões de valor compartilhados pelos membros de certa cultura e podem ser defendidos racionalmente com base em tais padrões. Uma afirmação como “As Mulheres Taitianas é a melhor pintura de Gauguin” pode ser defendida com razões, enquanto “Baunilha é o melhor sabor de sorvete” não pode. O primeiro é um juízo estético que se apóia em padrões valorativos compartilhados, enquanto o segundo é a expressão de um gosto subjetivo meramente privado.

Quanto ao gosto, aliás, vale a pena distinguir entre dois sentidos desse termo: 1) Gosto subjetivo, que é certo padrão ou conjunto de preferências privadas, próprias de um indivíduo, que determinam o que lhe agrada ou desagrada; e 2) Gosto objetivo, que é a capacidade, produto da integração entre sensibilidade natural e educação estética, de distinguir entre o belo e o feio, entre obras de maior e menor valor estético. Quem consegue ter gosto objetivo e fazer coincidir com ele seu gosto subjetivo, ou seja, quem reconhece o que é belo e cultiva o amor pelo belo, tem “bom gosto” em sentido estético.