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domingo, 5 de agosto de 2012

ENTREVISTAS COM OS ATLETAS LOGO APÓS SUAS DERROTAS OU DECEPÇÕES NAS OLIMPÍADAS


Ontem publiquei a seguinte nota no Facebook:

"A entrevista do tipo 'Como você explica este resultado?' logo depois de uma derrota e decepção do atleta nas Olimpíadas deveria ser proibida pela Convenção de Genebra"

E várias pessoas concordaram comigo. Contudo, como esta nota pode dar a entender que considero que a imprensa não tem o direito de perguntar e o atleta não tem o dever de responder - o que seria uma posição bem distante da minha -, resolvi hoje publicar uma nota mais desenvolvida com as razões por trás da declaração de ontem. Faço isso em nome da clareza, mesmo sabendo que desta forma, provavelmente, algumas pessoas que ontem concordaram com a versão mais curta que continha apenas a afirmação da ideia principal talvez hoje não concordem com esta versão mais longa que traz também as minhas razões. De qualquer maneira, acredito que seja uma contribuição para a reflexão sobre a questão.

Deixem-me tornar a minha posição mais clara, então. Em primeiro lugar, sou favorável ao maior regime possível de liberdade de imprensa: A menos que exista dano ou ameaça de dano a pessoas específicas ou perigo ou ameaça de perigo à segurança nacional, a imprensa deve ser livre para fazer o seu trabalho, tanto no que se refere à investigação e revelação dos fatos de interesse do público como no que se refere à emissão e discussão de opiniões para influenciação do público. Em segundo lugar, considero que dois fatores, a saber, o investimento nacional nos atletas (por menor e mais precário que seja) e a cobertura esportiva da imprensa sobre suas competições (por menor e mais incompetente que seja), ou seja, o dinheiro público e o interesse do público, têm um papel tão decisivo para que o atleta esteja ali competindo nas Olimpíadas que o deixa, sim, na condição de alguém que tem que responder a este mesmo público pelos seus resultados, especialmente quando estes são abaixo ou bem abaixo do esperado. Combinados, estes dois primeiros argumentos levam à conclusão de que sim, até certo ponto a imprensa tem o direito de perguntar e, sim, até certo ponto, o atleta tem o dever de responder.

Contudo, o exercício deste direito de perguntar e a cobrança daquele dever de responder devem ter sensibilidade para o tipo de situação que uma disputa olímpica, especialmente quando mal sucedida, representa para o atleta. Nós, o público, ouvimos falar destes atletas somente algumas vezes e por alguns minutos durante os quatro anos entre uma Olímpiada e outra. Nosso interesse por eles, nossa torcida pelo seu resultado, nossa decepção com seu fracasso, durarão apenas alguns dias, enquanto o evento estiver registrado em nossa memória de curto prazo de espectadores de TV e leitores de jornais e sites, memória esta que tão rápida e facilmente é reocupada pelos assuntos, manchetes e escândalos do dia seguinte.

Já para eles, os atletas, aqueles breves momentos da disputa olímpica foram o sonho e o projeto dos últimos quatro anos e serão a lembrança e - em caso de derrota - a frustração dos próximos quatro. Para o público, uma Olimpíada é um evento entre outros, um espetáculo para assistir comendo pipoca, torcer enquanto se usa o Facebook ou Twitter, formar lealdades superficiais de alguns dias, criar ídolos artificiais de algumas semanas, simular um envolvimento com os esportes que a maioria de nós nem tem de verdade, ocupar de expectativas, alegrias e tristezas plásticas e passageiras estas curtas semanas de transmissão e cobertura dos Jogos. Já para eles, os atletas, trata-se de sua vida inteira, de centenas de dias de sono limitado, de alimentação controlada, de exercícios repetitivos, de luta contra o corpo, contra o cansaço, contra o limite, contra o relógio. É um tempo investido que implica sacrifício, dedicação, alienação dos amigos e da família, transformação constante do sonho e da expectativa em motivação para os momentos em que a paciência e a vontade estão prestes a fraquejar e estourar num ato desesperado de desistência.

Em resumo: Tanto a expectativa que a disputa olímpica representa quanto a decepção que uma eventual derrota produz têm medidas e implicações incomparavelmente maiores para os atletas que para o público. Nós, o público, somos visitantes eventuais, turistas entusiasmados, daqueles com trajes típicos comprados em aeroporto, de dicionário de conversação e máquina fotográfica na mão, que estamos apenas de passagem rapidissíma por um universo esportivo e olímpico que é a casa e o dia-a-dia destes homens e mulheres.

Por isso, em razão da gigantesca diferença pessoal e emocional do envolvimento do atleta e do público com aquela competição e com aquele momento de frustração da derrota, deveríamos, em nome da humanização do tratamento, ter um respeito especial pela ocasião de derrota ou decepção do esportista, em vez de massacrar e tripudiar de sua dor de maneira que se assemelha à indiferença impiedosa da tortura e da crueldade. Nós, o público, acabamos de sofrer uma pequena e passageira decepção que nos faz querer perguntar, mas ele acaba de sofrer uma duradoura e enorme decepção que o faz querer não ter que responder. É dever dele, como atleta financiado e acompanhado pelo público, responder ao público e prestar contas de sua derrota em algum momento. Mas é dever nosso, como seres humanos sensíveis à dor do outro, exercer nosso direito de perguntar com bom-senso e responsabilidade, escolhendo o melhor momento e a melhor maneira de perguntar.

Alguns dias depois, passada a dor dilacerante da derrota imediata, sarada a ferida mais superficial da expectativa e da autoimagem do atleta, podemos fazer nossas perguntas e obter dele suas respostas. Até porque também é mais provável que a esta altura ele já tenha uma avaliação mais clara, mais fria e mais informada do que realmente aconteceu, dos motivos reais de sua baixa performance.

Mas, é sempre bom perguntar, o que é que faz a imprensa querer extrair logo depois da derrota ou da decepção do atleta uma declaração prestando contas de seu rendimento? São três motivos, os três igualmente sórdidos e desumanos: (1) prolongar a tensão do momento em que o público assiste à competição, convertendo a expectativa do resultado em expectativa de justificação do resultado, convertendo a torcida pelo atleta em cobrança sobre o atleta, mantendo, assim, o público interessado pela transmissão, menos prediposto a mudar de canal ou desligar a TV; (2) colocar o atleta na posição mais desconfortável possível num momento que já é de sofrimento e tristeza bastantes, aumentando a possibilidade de uma explosão de raiva ou de lágrimas, que possa converter o interesse do público em indignação com o mau perdedor ou em compaixão pelo perdedor arrependido, em ambos os casos aumentando o potencial de audiência da transmissão; e, finalmente, (3) explorar um ato final de explicação da performance ainda durante o curto espaço de tempo em que dura o interesse superficial e artificial do público que ela mesma, a imprensa, produziu e sabe ser instável e passageiro, pois de nada adiantaria extrair do atleta uma declaração sobre sua derrota quando ele já tiver caído de novo no mesmo anonimato de que a transmissão das Olimpíadas o havia tirado por curtos instantes. E pensar que é em nome deste frágil, insignificante, passageiro e artificial interesse do público que nos julgamos no direito de profanar o sofrimento alheio em seu momento mais vulnerável para obter nossas respostas que por alguma razão parecem não poder esperar. Na verdade, elas não podem mesmo esperar, mas não porque o interesse é grande demais, e sim porque é pequeno demais para esperar.

Perguntar na hora, enfiar o microfone intruso por dentro da carne ainda aberta da derrota, é exercício da liberdade de imprensa, sim, mas de algum ser insensível e despido de qualquer empatia, respeito e solidariedade, apenas de avidez de audiência, de sede por manter o espetáculo por mais alguns instantes. Se quisermos ser seres humanos razoáveis, devemos saber o momento e a forma razoáveis de exercitar nossos direitos também.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Justiça e Solidariedade

Essa é uma postagem curta, dedicada a uma distinção conceitual bem específica, embora bastante relevante. Trata-se, como indica o título, da distinção entre justiça e solidariedade. Podemos dizer que tanto justiça quanto solidariedade são formas de consideração pelo outro, mas de duas maneiras e por duas razões bem distintas. Enquanto na justiça a consideração pelo outro se dá na forma de respeito pela pessoa em geral, na solidariedade ela se mostra na forma de cuidado com certo indivíduo em particular. A justiça coloca a questão geral sobre como devemos tratar qualquer um que se encaixe como pessoa, quais são os seus direitos e os nossos deveres em relação a ele. Já a solidariedade coloca a questão sobre como devo me relacionar com certo indivíduo em especial, com sua biografia e seus traços particulares, com suas necessidades e vulnerabilidades próprias e dentro de uma relação concreta que ele tem comigo. Se ambas as formas de consideração pelo outro são, de certa maneira, complementares entre si, a relação em que, segundo autores como Kant e Derrida, ambas se encontram em perfeita harmonia é a amizade. Na amizade, eu ao mesmo tempo respeito o outro como pessoa em geral e cuido dele como um indivíduo único e especial.