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quinta-feira, 6 de maio de 2010

Uma Teoria da Má Compreensão (A Theory of Misunderstanding)

No terreno das teorias filosóficas, a má compreensão sempre me intrigou. Vou explicar em que esse fenômeno consiste. Um filósofo F defende uma teoria T. De início, T é nova e precisa se confrontar com um ambiente teórico de partida, que pode lhe ser favorável ou desfavorável. Se for favorável, T provavelmente será acolhida e, se for desfavorável, criticada. Até aí tudo normal. Ocorre que, quer seja acolhida, quer seja criticada, aquilo que é acolhido ou criticado nunca é exatamente T, mas sim certa versão V do que T realmente disse. V não é simplesmente uma interpretação possível do que T disse, mas é uma versão simplificada de T, que normalmente compreende mal suas teses, não atenta bem para suas premissas e não capta corretamente as consequências que se pode extrair de T. V é uma espécie de adaptação de T para o consumo em larga escala. E não é que V seja obra do senso comum popular, ela é obra, isso sim, do senso comum acadêmico. O grau em que V se distancia de T pode variar muito de acordo com o caso, mas uma constante se mantém: os especialistas em T passam todos os seus dias e todas as suas noites combatendo V, até o dia em que, cansados disso, convencidos de que V está destinada a prevalecer como compreensão dominante de T, os especialistas desistem de lutar e se reúnem apenas entre si, para discutir T seriamente, longe das influências de V. Isso torna tudo muito pior. Sem a fiscalização e a críticas dos especialistas em T, V não apenas se torna dominante, mas começa a ter vida própria e sofrer uma série de mutações, adaptar-se às críticas, às modas, às discussões paralelas, aos fatos históricos, de modo que V toma uma rota tão divergente de T que apenas uma cuidadosa reconstrução histórica é capaz de mostrar que ambas tiveram origem na obra do mesmo filósofo F. Exemplos disso há diversos. Vou dar alguns em Filosofia Moral e Filosofia Política, porque são ramos com que sou mais familiarizado. Em Maquiavel, V é a má compreensão segundo a qual ele era um inimigo da liberdade, defensor de um regime tirânico e de medidas políticas imorais para conseguir e manter o poder a qualquer preço; em Kant, V é a má compreensão segundo a qual ele defendeu um formalismo vazio, um universalismo homogeneizante, uma tirania da razão sobre os sentimentos e um regime político contratualista e liberal; em Hegel, V é a má compreensão segundo a qual ele defendeu uma causalidade histórica determinista, um regime moral e político conservador e uma absorção do indivíduo no Estado que endossa o totalitarismo; em Marx, V é a má compreensão segundo a qual ele defendeu um determinismo econômico, considerou todo o universo simbólico e cultural como ideológico e mero reflexo do estado das forças produtivas, disse que o direito era sempre um instrumento de manutenção dos privilégios de classe e defendeu um regime ditatorial no terreno político e dirigista no terreno econômico; em Nietzsche, V é a má compreensão segundo a qual ele defendeu que não existem nem podem existir valores morais válidos, rejeitou qualquer papel para a racionalidade e para a religião, abriu mão do conceito de verdade e convidou cada um a elaborar sua própria moral individual. E por aí vai. Para praticamente cada um dos filósofos relevantes, pode-se elencar uma ou mais T's (as distintas interpretações da teoria que os especialistas propõem com bases sólidas, com bom suporte textual e biográfico e a partir de uma exegese e reflexão cuidadosa sobre a obra do filósofo) e uma ou mais V's (as versões que o senso comum acadêmico cria e reproduz do que aqueles filósofos disseram e que costumam ir em direções distintas, e às vezes até opostas, às pretensões e às afirmações textuais das teorias em questão). E, como eu disse lá em cima, isso não ocorre só com as teorias que enfrentam rejeição (embora com elas ocorra muito mais frequente e intensamente), mas também com as que encontram acolhimento na comunidade acadêmica. Geralmente, o que é largamente criticado ou largamente acolhido nunca é T, e sim V; T permanece sempre o patrimônio de um pequeno grupo de estudiosos que têm tempo, paciência e dedicação bastantes para compreender a teoria de modo mais fiel e rigoroso.

P.S. Recomendo fortemente a leitura dos comentários a essa postagem, onde a discussão se aprofunda e se refina bastante a partir das críticas.