Filosofia Contemporânea, especialmente Filosofia do Direito, Filosofia Moral e Filosofia Política.
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
Legal Process: Discourse, Institution and Power
segunda-feira, 19 de abril de 2010
Sobre a profundidade II
O comentário da Débora à minha postagem anterior mostrou que eu tinha que ter deixado mais claro com que tipo de intenção analítica me acercava do tema. Corrijo agora essa falta: Minha intenção é fazer, ao mesmo tempo, uma analítica do profundo (uma análise do que queremos dizer quando qualificamos algo como profundo) e uma fenomenologia do profundo (uma descrição, do ponto de vista do sujeito, da experiência da profundidade). Se notaram nisso certa hesitação entre filosofia analítica e filosofia continental, notaram certo. O que me recuso a fazer é uma análise objetivista, que tentasse dizer o que é o assim chamado profundo, independentemente de nossa experiência subjetiva, e se ele merece ou não o estatus que lhe atribuímos. Isso não quer dizer, Débora, que sua sugestão a respeito da "possibilidade de criação de sentido" não seja bem relevante. Espero que o parágrafo seguinte mostre que ela é, de fato, bem relevante.
Chamei de perplexidade aquela perturbação inicial do espírito diante daquilo que, porque foge do óbvio, lhe causa espanto e hesitação. Nisso reside a característica do profundo de ser não-trivial. Disse também que o profundo reunia coisas que estavam à primeira vista muito distantes, mas que, uma vez reunidas, se tornavam indissociáveis. O profundo fornece sínteses improváveis de serem feitas e impossíveis de serem desfeitas. Isso devo precisar melhor. O profundo não é analítico, mas é sempre sintético, quer dizer, reúne coisas que não estão já contidas ou já implícitas uma na outra. Mais ainda, o profundo realiza sínteses improváveis, pois reúne o que o senso comum separa. Na outra postagem dei esse exemplo: "Não há recompensa maior que ser virtuoso". Ora, virtude e recompensa são normalmente separados. O moralista diz: Onde há recompensa, não há virtude (no sentido de que a virtude tem que ser desinteressada). O pragmático diz: Onde há virtude, não há recompensa (no sentido de que os que agem virtuosamente costumam sempre levar a pior). A profundidade do dito "Não há recompensa maior que a virtude" está em, no tempo de uma frase, reunir as duas noções que o senso comum divorcia. De repente, recompensa e virtude podem ser pensadas não apenas como conciliáveis, mas como idênticas. A virtude é, em si, sua própria recompensa. É dessa forma que a sugestão da Débora, nos comentários da postagem anterior, deve ser acatada. O profundo fornece, sem dúvida, a possibilidade de criação de novos sentidos, ou, para ser mais preciso, a possibilidade de experimentar sentido no que antes não tinha sentido. Isso reforça minha tese anterior do casamento entre perplexidade e adesão. A adesão vem da forte experiência de sentido, enquanto a perplexidade vem do fato de que aquilo que agora se experimenta como fazendo todo o sentido, até há pouco não fazia sentido algum.
Agora, seguindo a sugestão da Fernanda, preciso examinar melhor as relações do profundo com o verdadeiro, o belo e o bom. Parece-me que a experiência de perplexidade é o que aproxima o profundo do belo (para ser mais exato, do originalmente belo, do genial), enquanto a experiência de adesão do espírito é o que o aproxima do verdadeiro (para ser mais exato, do aparentemente verdadeiro, do verossímil). Mas, para captar a diferença, basta comparar um dito profundo como "Não há recompensa maior que a virtude" como um dito belo como "Amor é fogo que arde sem se ver". Os dois fazem sínteses improváveis. Mas, enquanto o primeiro parece revelar algo de suma relevância que até então nos escapava, o segundo parece apenas expressar de modo prazeiroso um paradoxo conceitual. "Amor é fogo que arde sem se ver" não é nenhuma revelação sobre o amor, mas apenas uma extraporação poética da metáfora, já apropriada pelo senso comum e tantas vezes repetida, de que o amor arde como fogo. Quando o poeta percebe que o fogo gera uma chama invisível, enquanto o amor, sendo sentimento, é naturalmente invisível, encontra a chave para a composição de "Amor é fogo que arde sem se ver". Mas "Não há recompensa maior que a virtude" não é poesia. Pode soar belo, emprestando-lhe, assim, algum valor poético. Mas não é na beleza, como possibilidade universal de prazer, que reside seu valor. Ela parece revelar algo que escapa ao saber cotidiano. Nisso ela se assemelha à verdade, transcendendo o belo.
Se compararmos, agora, o dito "A moral não nos garante felicidade, mas nos torna dignos de felicidade" com o dito "Os homens não evitam o crime pela virtude, mas antes pelo medo", ambos também têm algo em comum, na medida em que parecem revelar verdades dignas de serem notadas. Mas, enquanto o primeiro desafia o senso comum, o segundo apenas o confirma. O segundo não desperta perplexidade, mas apenas adesão. O primeiro é que desperta ambas as coisas. Se isso não basta para distinguir entre o profundo e o verdadeiro, então vejamos mais uma coisa. Se dois enunciados se negam reciprocamente, então é impossível que sejam verdadeiros ao mesmo tempo. Por isso, o verdadeiro não admite que os contraditórios sejam ambos aceitos. Mas o profundo, pelo contrário, o admite. Ditos como "A virtude nos coloca acima da natureza e é a prova de nossa imortalidade" e "A única imortalidade concedida ao homem é a lembrança dos seus grandes feitos" são ambos profundos, embora contraditórios entre si. Se o primeiro for verdadeiro, o segundo é falso, e vice-versa. No que diz respeito à verdade, só um deles a pode ter. No que diz respeito à profundidade, os dois a têm na mesma medida. Se são ambos profundos, mas pelo menos um deles tem que ser falso, então a profundidade é definitivamente distinta da verdade.
Sobre a relação entre o profundo e o bom, ainda tenho que pensar melhor. Se chegar a alguma conclusão relevante, volto a escrever aqui.
sábado, 17 de abril de 2010
Sobre a Profundidade
A profundidade é mais fácil de perceber que de definir. Claro que não falo da profundidade espacial, profundidade dos corpos. Falo da profundidade espiritual, profundidade das ideias e das obras humanas. O que torna profunda uma frase, uma fala, uma obra não é muito claro. Um dito como: "A guerra é má porque faz mais homens maus do que os elimina" é, sem dúvida, profundo. Mas sua profundidade não reside na sua verdade. Com dizer que é profundo não se aponta que é simplesmente verdadeiro, e sim algo mais que isso. Talvez seja inclusive possível que um dito seja profundo sem ser verdadeiro. "A virtude não requer recompensa, porque não há recompensa maior que ser virtuoso" é inegavelmente profundo, mas, confrontado com o pouco valor que a maioria dos homens dá a tal recompensa, não parece muito verdadeiro. Não me importa tanto provar que é falso, e sim mostrar que seguiria sendo profundo, mesmo que fosse falso. Isso pareceria aproximar o profundo do belo, que também não depende de ser verdadeiro. Mas aqui também se erra, porque se pode ser profundo sem ser belo. "Quem considera o homem bom e tranca sua casa desmente com seus atos o que afirma com suas palavras" não tem nada de belo (ao contrário, é de uma crueza atroz), mas é profundo, com certeza. Tem, se se quiser assim, a beleza das coisas profundas, mas isso não é beleza, e sim certo prazer respeitoso que se sente ante o que é profundo, semelhante ao que se sente ante o que é belo. Um palpite que parece estar na pista certa seria que o profundo está numa espécie de sentido percebido tardiamente, uma espécie de constatação à segunda vista, uma verdade aparente ao segundo olhar. Seria, assim, o oposto do que é óbvio: este, tão logo se enuncia, todo mundo confirma sem hesitação. Já o profundo, logo que se enuncia, parece falso, porque nega o óbvio; mas, depois que se examina melhor o enunciado, as peças que antes estavam separadas agora parecem tão encaixadas que nada mais pode separá-las. Essa é, pelo menos por ora, a minha noção de profundidade: É profunda a ideia que num primeiro momento perturba, porque se choca com o óbvio, mas, depois de reflexão, ganha a adesão do espírito. Ou ainda: profundidade é o poder que certas ideias têm de primeiro perturbar nosso espírito, chocando-se com o que é óbvio, e depois ganhar sua adesão, mediante certa reflexão.
terça-feira, 3 de novembro de 2009
Verdade: Quatro Concepções
Verdade como coerência: Concepção do idealismo. Um enunciado é verdadeiro se está em conformidade (coerência) com outros enunciados já aceitos como verdadeiros. Já uma teoria é verdadeira se seus enunciados são coerentes entre si e coerentes com outros enunciados previamente aceitos.
Verdade como conformidade a uma regra: Concepção do kantismo. Um enunciado é verdadeiro se existe uma regra ou um conjunto de regras (método, procedimento) capaz de validá-lo como verdadeiro.
Verdade como eficiência prática: Concepção do pragmatismo. Um enunciado é verdadeiro se, tomando-o como referência em certa atividade, se alcançam resultados mais satisfatórios que os que alcança tomando como referência seus concorrentes.
sábado, 24 de outubro de 2009
As Provas no Processo Judicial
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
Mea Culpa
A questão foi suscitada há poucos dias numa discussão de que participávamos eu e o Prof. Klelton Mamed, do CESUPA. Foi ele que saiu com a afirmação: "De uma falsidade é possível extrair uma verdade; o que não é possível é de uma verdade extrair uma falsidade". Na hora, a afirmação me soou estranha e reagi dizendo: "Não, de premissas falsas não se pode extrair uma conclusão verdadeira", e ele me disse: "Sim, claro que pode", e me deu exemplo de um argumento do tipo "Todos os A são B; logo, este A é B", em que ocorresse de nem todos os A serem B (o que levaria à falsidade da premissa), mas, contingentemente, aquele A ser mesmo B (o que levaria à verdade da conclusão). Inconformado, respondi: "Não, mas neste caso a conclusão não é realmente extraída da premissa, trata-se apenas de um caso particular do que a premissa enuncia universalmente". É claro que, à luz da lógica clássica, não se fala mais de "extrair" conclusões de premissas, mas se usa falar, menos metafórica e mais exatamente, "a conclusão C pode ser justificada pela premissa P por meio da regra de dedução R". De qualquer modo, vale ilustrar o que o Prof. Klelton me disse:
Todos os homens são gregos (premissa falsa);
Sócrates é homem (premissa verdadeira);
Logo, Sócrates é grego (conclusão verdadeira).
Dado que:
(x) Ax -> Bx (= Para todo x, se x é A, então x é B)
Aa (= a é A)
:. B (= Logo, a é B)
É uma regra de dedução válida, então, no primeiro argumento, "Sócrates é grego" pode realmente ser deduzido de "Todos os homens são gregos", desde que com a pequena ajuda da premissa menor "Sócrates é homem". O que prova que o Prof. Klelton estava certo e eu estava errado.
Pensando, depois, sobre o motivo de meu equívoco, vi que me deixei influenciar pela conhecida definição de um argumento dedutivo como aquele argumento em que se as premissas forem verdadeiras, é impossível que a conclusão seja falsa. Não percebi que tal definição não exige que as premissas sejam verdadeiras, mas apenas que, se forem, a conclusão não possa ser falsa.
Reconheço meu equívoco e peço desculpas ao Prof. Klelton.