Mundo da vida é um dos conceitos mais famosos de Habermas.
Criado por Husserl como parte de seu argumento sobre o afastamento das ciências
modernas em relação ao horizonte de experiência e de sentido dos indivíduos
comuns (tal horizonte cotidiano de experiência e de sentido era o significado
original do conceito), o termo “mundo da vida” (Lebenswelt) foi depois incorporado por Heidegger ao projeto de Ser e Tempo, usado ocasionalmente por
Sartre e Gadamer e tornado uma categoria central da sociologia fenomenológica
de Schultz. Em Habermas, o termo ganha novas conotações e marcada relevância
tanto em sua pragmática universal quanto em seu diagnóstico da modernidade.
Vamos agora esboçar de modo sumário o que o conceito significa na Teoria da Ação Comunicativa, de 1981.
Para tanto, devemos distinguir entre dois sentidos de “mundo da vida” em
Habermas: o sentido pragmático-linguístico e o sentido sociológico.
1) Mundo da vida em
sentido pragmático-linguístico
Num primeiro sentido, “mundo da vida” é um estoque de
sentidos (de crenças, critérios, valores, definições etc.) compartilhados entre
falantes (e não problematizados por eles) que serve de pano de fundo para sua
comunicação. Toda vez que os falantes problematizam algo no mundo, é preciso
que algo outro esteja não problematizado, mais ou menos como, para caminhar sem
cair, o pé que se coloca em movimento precisa do pé que está fixo no chão. Este
algo outro, não problematizado, implícito na comunicação, pode ou já ter sido
objeto de problematização anterior, caso em que agora se tornou não
problemático porque os falantes já previamente formaram um consenso reflexivo a
seu respeito, ou pode jamais ter sido problematizado, caso em que pertence ao
conjunto daquelas coisas em que os falantes acreditam de modo pré-reflexivo,
sem sequer se darem conta nem de que se trata de uma crença mantida em comum
nem de que aquilo que tal crença enuncia não é nem óbvio nem necessariamente
verdadeiro, podendo, portanto, ser objeto de uma problematização.
Por exemplo, se dois falantes discutem, cada um defendendo
uma posição contrária à do outro, sobre se o Estado deveria ou não punir
indivíduos que usam os meios de comunicação para fazer piadas ou comentários
racistas, o fato de que discutam tal coisa (isto é, de que a tornem
problemática em sua fala) já mostra que consideram muitas outras coisas como
não problemáticas. Creem que há Estados, indivíduos, meios de comunicação,
piadas, comentários e racismo; que o Estado pode punir certas coisas, que piadas
e comentários podem falar sobre certas coisas e que o racismo é uma coisa
errada; creem que certos conteúdos de piadas e comentários feitos nos meios de
comunicação poderiam ser justificativa para uma ação punitiva do Estado (apenas
divergem sobre se racismo, mesmo sendo errado, é um destes conteúdos) etc.
Todas estas últimas coisas estão implícitas na fala, não serão problematizadas
por eles, e é exatamente o fato de que tais coisas permanecem no pano de fundo
da fala, não problematizadas, que torna possível que outro elemento (o objeto
da discussão) venha para o primeiro plano e seja problematizado na discussão.
Assim, a prova de que existe o mundo da vida em sentido
pragmático-linguístico é um tipo de prova transcendental. Uma prova
transcendental é uma que parte do fato de que uma primeira coisa ou atividade
existe, mostra que, para que ela exista, é necessário que exista também uma
segunda coisa ou atividade que lhe serve de condição de possibilidade e, desta
forma, conclui pela existência da segunda coisa ou atividade pelo simples fato
de que, sem ela, a primeira não existiria. Por exemplo (para fugirmos aqui de
exemplos estritamente kantianos e conectados com o projeto criticista), do fato
de que o olho humano é capaz de perceber as cores podemos concluir que o olho
humano é capaz de distinguir frequências de raio de luz (na verdade,
frequências de pacotes de onda que as moléculas deste corpo refletem),
simplesmente porque a distinção de frequências de raio de luz é condição de
possibilidade para a percepção das cores. Assim, um argumento na forma: “se o
olho humano não fosse capaz de distinguir frequências de raio de luz, não seria
capaz de perceber cores; ora, mas é um fato que o olho humano é capaz de
distinguir cores; logo, tem que ser um fato também que o olho humano é capaz de
distinguir frequências de raio de luz” é um argumento transcendental.
Como se vê, o argumento transcendental é uma modalidade de
prova indireta, um caso em que provamos a existência de alguma coisa a partir
da existência de outra coisa para a qual aquela primeira é condição de
possibilidade. No caso do mundo da vida, que se refere a algo que está por trás
do horizonte de nossa experiência e de que não estamos, pois, inteiramente
cientes, é necessário formular o mesmo tipo de prova indireta de sua
existência, por via de um argumento transcendental. Neste caso, o argumento
toma a forma: “se não tivéssemos pontos comuns compartilhados em que nos
apoiamos numa discussão, não seria possível discutirmos um ponto em particular;
ora, mas é um fato que somos capazes de discutir pontos particulares; logo, tem
que ser um fato também que temos pontos comuns compartilhados em que nos
apoiamos numa discussão”. Estes pontos comuns compartilhados são – como veremos
adiante, a partir de um complemento deste argumento – os conteúdos do mundo da
vida em sentido pragmático-linguístico.
De certa forma, podemos dizer que o processo de
racionalização de uma cultura ocorre quando um grande número de temas sai do
horizonte não problematizado do mundo da vida e adentra o horizonte
problematizado da comunicação. Desta forma, os “pontos comuns compartilhados”
vão deixando de ser compartilhados apenas porque nunca os pusemos em questão e
vão passando a ser compartilhados porque já os pusemos em questão e já chegamos
a um consenso a seu respeito. Como o argumento transcendental exposto acima
prova apenas a necessidade da existência de pontos comuns compartilhados, mas
não faz distinção entre tais pontos serem pré-reflexivos ou reflexivos, o
argumento transcendental sozinho não prova a existência do mundo da vida. Seria
perfeitamente compatível com o argumento transcendental que mostramos a
existência exclusiva de pontos comuns compartilhados reflexivos, já
estabelecidos por consenso através da comunicação. Isso implicaria a
inexistência de qualquer mundo da vida, porque nenhum dos pontos comuns
compartilhados seria pré-reflexivo.
Por isso, a prova pelo argumento transcendental tem que ter
complemento num argumento pragmatista evolucionista. Trata-se de duas
suposições: a primeira é a suposição pragmatista de que é apenas diante de
desafios sociais práticos que os membros de uma comunidade problematizam pontos
até então compartilhados em comum; a segunda é a suposição evolucionista de
que, quanto menor é a complexidade de uma comunidade, menor é a quantidade de
desafios sociais práticos com que esta comunidade precisará se enfrentar. De
posse destas duas suposições, podemos agora dar forma final à prova da
existência do mundo da vida em sentido pragmático-linguístico. Se o argumento
transcendental provou a necessidade de pontos compartilhados em comum, podemos
agora dizer que, em sociedades pouco complexas, tais pontos terão sempre maior
probabilidade de serem pré-reflexivos, compondo, agora sim, um mundo da vida.
Conforme as sociedades se tornem mais complexas e aumente o número de desafios
sociais práticos que tornem problemáticos aqueles pontos até então mantidos em
comum de forma pré-reflexiva, é posto em movimento um processo de
racionalização do mundo da vida.
Desde já, devemos afastar uma possível conclusão
precipitada: A de que Habermas visualiza como desejável uma completa
racionalização do mundo da vida, isto é, uma completa problematização de todos
os conteúdos do mundo da vida e sua completa substituição por consensos
reflexivos. Isto é falso. Habermas não considera nem mesmo possível uma
completa racionalização deste tipo. É que, diferentemente dos iluministas
(Diderot, D’Alembert, Condorcet, Voltaire), Habermas sabe que o processo de
racionalização não acontece por ato de simples decisão racional, como, por
exemplo, a decisão de colocar em questão toda a tradição anterior, mas acontece
apenas na medida em que o mundo da vida de uma comunidade se vê concretamente
ameaçado por desafios sociais práticos a que ele não consegue responder.
Funciona, para o mundo da vida, uma espécie de princípio de inércia: ele
seguirá sempre vigente e dominante a menos que seja seriamente desafiado pela
experiência social prática. Portanto, é apenas com o crescimento da
complexidade social que se quebra a inércia do mundo da vida e se pode esperar
que este último sofra um processo de racionalização. Contudo, como não é
esperável que nenhuma situação sustentável de complexidade social torne
necessária a problematização de todos os conteúdos do mundo da vida, também não
é esperável que ocorra jamais um processo de completa racionalização. As
sociedades não são como os filósofos: Elas não problematizam as bases que lhes
têm dado sustentação a menos que sejam obrigadas a isso por verdadeiras
urgências práticas. Neste ponto, Habermas é um pragmatista evolucionista, e não
um iluminista.
Contudo, como ficou claro pelo argumento pragmatista
evolucionista, uma vez que as sociedades se tornem mais complexas, crescerão os
desafios sociais práticos que exigirão do mundo da vida um processo de
racionalização. Os pontos comuns antes compartilhados de modo pré-reflexivo
terão que ser gradualmente substituídos por pontos comuns obtidos mediante
acordo racional. Como a comunicação linguística é o principal meio através do
qual estes acordos racionais podem ser alcançados, fica claro que, quanto mais
complexas se tornem as sociedades, mais dependentes elas se tornam da
comunicação como meio de manter a integração social. É esta conclusão que faz a
ligação entre o conceito de mundo da vida em sentido pragmático-linguístico,
que abordamos até agora, e o conceito de mundo da vida em sentido sociológico,
que abordaremos em seguida.
2) Mundo da vida em
sentido sociológico
Retomemos a conclusão do argumento pragmatista
evolucionista: Quanto maior a complexidade da sociedade, maior a racionalização
a que se vê obrigado o seu mundo da vida. Para Habermas, a história das
sociedades modernas é a história do resultado do processo de intensa
racionalização do mundo da vida de sociedades tradicionais. Esta
racionalização, contudo, foi dupla: por um lado, os domínios sociais
responsáveis pela reprodução material da sociedade (economia e administração
pública) passaram por uma racionalização funcional; por outro lado, os domínios
sociais responsáveis pela reprodução simbólica da sociedade (família, arte,
ciência, religião, moral etc.) passaram por uma racionalização comunicativa.
Desta maneira, formaram-se dois domínios sociais distintos, cada um
racionalizado segundo uma lógica própria: o domínio dos sistemas (econômico e
político) e o domínio do mundo da vida – termo agora usado num segundo sentido,
o sentido sociológico.
Em sentido sociológico, o mundo da vida é um domínio social
contrastante com os sistemas funcionalizados, marcado por processos
comunicativos, cujo medium é a linguagem e cujo recurso é a solidariedade (em
Habermas, solidariedade é o sentido
comum de pertença a uma mesma comunidade experimentado pelos indivíduos, que se
veem como membros de um mesmo todo, parceiros de um mesmo projeto, dispostos a
ajustar seus planos de ação entre si e se socorrerem mutuamente). Nele
prevalece um tipo de ação que é a ação comunicativa, ou seja, o emprego da
linguagem com vista ao entendimento entre os falantes.
Do ponto de vista horizontal, o mundo da vida abarca uma
série de instituições e atividades envolvidas com a reprodução simbólica da
sociedade. Não seria possível listá-las todas, mas as principais instituições
incluem as famílias, as associações, as igrejas, os partidos etc., enquanto as
principais atividades incluem a arte, a educação, a religião, a ciência, a
técnica etc.
Do ponto de vista vertical, o mundo da vida abarca três
estruturas: cultura, sociedade e personalidade. A cultura é o nível das crenças,
valores e afetos partilhados em comum pelos membros de uma comunidade. A
sociedade é o nível das instituições de caráter mais ou menos coercitivo em que
se organizam e se realizam as atividades. Finalmente, a personalidade é o nível
das estruturas de identidade e de motivação que habilitam os indivíduos a
participarem ativamente das dinâmicas sociais.
As situações em que as dinâmicas do dinheiro (própria do
sistema econômico) e do poder (própria do sistema político) “invadem”
atividades e estruturas do mundo da vida são chamadas por Habermas de “colonizações
do mundo da vida” e são apontadas como as principais patologias a que estão
expostas as sociedades modernas. Aquilo que na Dialética do Esclarecimento (segundo, pelo menos, a interpretação
que Habermas dá a este texto) era um diagnóstico de que a razão, como um todo,
tinha uma estrutura inevitavelmente instrumental e só conseguia ser um meio de
emancipação das trevas da ignorância, da superstição e das pulsões primitivas
ao mesmo tempo em que era o meio de uma nova dominação, ainda mais cruel e
imperceptível, se converte na Teoria da
Ação Comunicativa no diagnóstico de que os domínios comunicativos da
sociedade estão constantemente expostos ao risco de serem “invadidos” ou “colonizados”
pelos domínios funcionais, patologia cujo evitamento exige uma estratégia
defensiva em que o mundo da vida ponha limites à ação dos sistemas.
Não há uma prova direta que Habermas forneça da existência
do mundo da vida sociológico. Aqui, novamente, Habermas se serve de uma prova
indireta, a qual se apresenta em duas versões, uma mais longa e outra mais
curta. A mais longa é positiva e de tipo regressivo, desta vez composta por
vários passos. A prova funciona assim: Primeiro, supõe-se que sistemas e mundo
da vida são as duas únicas configurações possíveis de domínios sociais modernos;
sendo assim, tudo que existe nas sociedades modernas e que não faça parte de um
deles, ou não seja produzido por um deles, ou não possa ser explicado a partir
de um deles, aponta para a existência e para a ação do outro. Em seguida,
coloca-se o fato da existência duradoura de sociedades no espaço e no tempo.
Deste fato, aponta-se a integração social (isto é, a coordenação dos planos de
ação e a convivência pacífica entre os indivíduos) como sua condição de
possibilidade. Logo, há um argumento transcendental que vai da existência
duradoura da sociedade para a existência da integração social. No passo
seguinte, Habermas usa um argumento causal para remontar do efeito para a sua
causa: Só poderia haver integração social numa comunidade que mantivesse
acordos de fundo de natureza simbólica. Logo, a existência da integração social
(provada pelo argumento transcendental) prova (por um argumento causal
regressivo) a existência de acordos simbólicos. Finalmente, no último elo da
cadeia, Habermas se serve de um novo argumento transcendental para mostrar que,
da existência de acordos simbólicos de fundo se deduz (como condição de
possibilidade destes acordos) a existência de um mundo simbólico em comum,
mundo simbólico este que coincide com o mundo da vida em sentido sociológico.
Uma forma mais abreviada deste argumento, que também se
encontra bastante no texto de Habermas, é regressiva e de tipo negativo, usando
apenas dois passos: da existência duradoura da sociedade se deduz
(transcendentalmente) a existência da integração social e, da existência de
apenas dois domínios sociais possíveis, os sistemas e o mundo da vida, e da impossibilidade
de que os sistemas (que não são linguísticos e são cegos para normas e valores)
sejam capazes de produzir integração social, se deduz (neste caso, por um
argumento causal regressivo por exclusão) que tal integração só pode ser
produzida pelo mundo da vida. Logo, existe o mundo da vida.
Mesmo que se aceite este argumento regressivo, seja na
versão mais longa e positiva, seja na versão mais curta e negativa, é bastante
evidente que o que o argumento prova não é a existência do mundo da vida
sociológico, mas sim apenas a existência de um mundo simbólico comum. Há uma
boa diferença entre as duas coisas. Um mundo simbólico em comum não precisaria
ser regido exclusivamente por uma lógica comunicativa, não precisaria ser
composto de cultura, sociedade e personalidade, não precisaria ser
exclusivamente linguístico nem precisaria estar associado com o recurso da
solidariedade. Todos estes elementos são atributos adicionais do conceito de
mundo da vida que não estão necessariamente presentes no conceito de mundo
simbólico em comum. Ora, como tudo que o argumento prova é a existência deste
último, pode-se dizer que não há um argumento explícito que prove que o mundo
simbólico em comum tem que ser também um mundo da vida em sentido sociológico.
Habermas se limita a descrever o mundo simbólico em comum de sociedades modernas
como tendo a forma do mundo da vida em sentido sociológico.
Parece-nos que, na Teoria
da Ação Comunicativa, Habermas acredita que o leitor possa se convencer de
que o mundo simbólico em comum é na verdade um mundo da vida em sentido
sociológico a partir do fato de que, quando descrito com os atributos deste
último, o mundo simbólico seria capaz de incorporar vários elementos da teoria
weberiana do racionalismo ocidental e da teoria marxista da reificação. Se
quisermos, poderemos considerar que aqui opera o seguinte argumento: Se devemos
considerar estas duas teorias como informativas de aspectos relevantes do
processo de racionalização, então, uma descrição do mundo simbólico que se
articule com os elementos apontados por estas teorias se torna preferível a uma
que não se articule; ora, a descrição do mundo simbólico em termos de mundo da
vida consegue articular-se com os elementos das duas teorias; logo, esta
descrição do mundo simbólico em termos de mundo da vida é preferível a outras.
Acreditamos que de fato este argumento esteja em jogo no texto de Habermas. Mas
é preciso, por amor ao rigor argumentativo, apontarmos que, mesmo que fosse
válido, este argumento provaria a preferibilidade teórica de descrever o mundo
simbólico em termos de mundo da vida, e não a existência real do mundo da vida.
Esta existência permanece não havendo argumento, nem direto nem indireto, capaz
de provar.