domingo, 11 de novembro de 2007

Ética: Coragem

Noutra postagem, disse que a ética se relaciona com o bem, os valores, a felicidade e as virtudes. Nessa postagem gostaria de falar de uma virtude em especial: a virtude da coragem. Advirto de antemão que não farei aqui uma exortação à coragem, nem darei nenhum aconselhamento sobre enfrentar os riscos e medos que assolam o cotidiano. Não é esse o papel do filósofo. Num texto filosófico, mesmo que seja um de um blog de filosofia, uma virtude só deve ser proposta como tema de análise, para compreender melhor do que se trata e de que elementos se compõe. São essas as questões que levantarei a propósito do tema da coragem.

Do que se trata?


O termo português "coragem" descende do francês medieval "courage", que queria dizer grandeza de coração (coeur), no sentido de grandeza de espírito. Designa normalmente o destemor diante de situações arriscadas, perigosas ou dolorosas, aquelas em que as pessoas comuns procurariam evitar, fugir, esconder-se.

Toda virtude é distinção de caráter, quer dizer, é posse de certa qualidade, disposição e motivação específica que falta aos demais (às "pessoas comuns") e por isso dota a pessoa virtuosa de um brilho próprio, que a torna merecedora ora da admiração, ora da inveja dos demais (aqui ambos, admiração e inveja, poderiam ser considerados dois pólos do mesmo padrão de reação diante do que lhe é superior).

Com a coragem também é assim. O corajoso se destaca dos demais e se torna digno da admiração/inveja de todos porque consegue enfrentar perigos e dores muito maiores, com muito mais freqüência e muito menos hesitação que os demais. A situação que a pessoa comum evitaria, o corajoso enfrenta; na situação em que a pessoa comum fugiria ou se esconderia, o corajoso permanece e luta.

De que elementos se compõe?

As virtudes são normalmente definidas a partir de várias componentes. A componente situacional (S) é o tipo de situação que normalmente requer o exercício daquela virtude. Por exemplo, a componente situacional da modéstia é a situação de vitória, superioridade ou reconhecimento. Não faz sentido falar de exercício da modéstia fora desse tipo de situação. A componente emocional (E) é o tipo de coisa que a virtude requer que se sinta. Por exemplo, na generosidade o ato de dar precisa ser acompanhado de um sentimento de prazer e desprendimento. Se não for, será uma dádiva mesquinha e não meritória. A componente acional (A) é o tipo de ação que a virtude requer que se tenha. Por exemplo, a perseverança requer que se continue fazendo ou tentado conseguir algo mesmo com todos os fracassos e adversidades. Sem essa ação, a simples componente emocional da continuidade de própósito não bastaria para caracterizar a atitude de alguém como perseverante. Finalmente, a componente final (F) é o tipo de propósito que a virtude requer que se tenha em vista na ação. Por exemplo, a paciência não será uma virtude se a espera confiante antes de agir for exercida por um ladrão com relação ao melhor momento de assaltar a sua vítima. Nesse caso o propósito descaracterizaria a virtude.

A componente situacional (S) da coragem é o perigo. A situação deve ser tal que a expectativa de fracasso, perda, dor ou mesmo morte seja mais intensa e pronunciada que o normal. Claro, atravessar a rua implica o risco de ser atropelado, mas não é um ato de coragem se existe uma expectativa razoável de, salvo surpresas, chegar ao outro lado sem sofrer nenhum mal. Tomar a iniciativa de falar com alguém implica o risco de ser ignorado, rejeitado, destratado ou mesmo agredido, mas não é um ato de coragem se, no contexto em questão, não se tiver boas razões para esperar esse tipo de reação do outro. Temer esse tipo de situação a ponto de não atravessar a rua ou não arriscar uma conversa indica um nível quase patológico de covardia.

A situação paradigmática de exercício da coragem é a do enfrentamento do risco de morte. Nas sociedades primitivas de guerreiros e caçadores, essa deve ter sido a situação em que os mais destemidos sobreviviam e se destacavam, ganhando status junto aos demais. Mas as modernas sociedades urbanas, embora continuem a oferecer situações de risco mortal desse tipo (entrar no prédio em chamas para salvar a pessoa que está presa, socorrer a vítima que está prestes a ser estuprada, correr para tirar a criança do caminho do ônibus em alta velocidade etc.), oferecem muitas outras situações de exercício da coragem: dizer a verdade, mesmo quando se espera por isso perda, dor, punição, ressentimento; deixar uma carreira segura e bem sucedida para correr atrás do sonho de uma vida; assumir a liderança e a responsabilidade mesmo quando o sucesso é uma perspectiva muito remota; criticar, reclamar, denunciar os males e vícios de uma atividade ou de uma instituição mesmo com o risco de ser hostilizado, perseguido, morto até etc.

A componente emocional (E) da coragem é uma soma de medo e resolução diante do medo. Sem medo o corajoso não teria mérito, porque não teria nenhum tipo de superação diante do medo. O ameaçado que resiste altivo diante de uma arma apenas porque pensa que ela é de plástico, não é corajoso, e sim conseqüente. O domador que transita calmamente entre os leões não é corajoso, e sim habituado. Não sente nenhum medo, motivo por que sua resistência não implica nenhuma coragem. Por isso é indispensável que o ato de coragem seja antecedido pela consciência do risco e pelo medo que ela desperta. A coragem requer o medo como um obstáculo a ser superado (por isso o gosto pelo perigo também não caracteriza o ato de coragem, mas sim um ato de risco pelo prazer que ele proporciona). Mas exige também, claro, a resolução de superar o medo, a decisão firme de não ceder ao medo, que faz a diferença entre o corajoso e covarde.

A componente acional (A) da coragem é o enfrentamento do perigo. Se alguém já estava decidido a salvar uma pessoa em meio a um incêndio quando, de repente, alguém lhe toma a frente e a salva, seu ato de coragem não se concluiu. Da mesma maneira, se um esposo está decidido a pedir o divórcio à esposa mas, quando a situação para isso se apresenta, seu ato acaba sendo impedido por algum outro acontecimento, não se pode falar de exercício da coragem. A coragem há que materializar-se em atos concretos, atos que desafiam o risco e fazem o que é preciso fazer.

Finalmente, a componente final (F) da coragem é a produção do bem ou o evitamento do mal. Não há que falar em coragem para matar um desafeto, para inventar um boato, para fazer uma denúncia falsa ou para trair uma amizade. A produção do bem ou o evitamento do mal de que se fala não pode ser um dever de ofício ou condição. O bombeiro que entra nas chamas para salvar a vítima ou o pai que se atira à água para evitar o afogamento do filho cumprem apenas com seu dever. Não o fazerem implicaria covardia, mas o fazerem não implica coragem. A coragem se apresenta naquela situação em que se poderia fugir ou esconder-se, seria desculpável e compreensível para os demais, mas apesar disso se enfrenta o risco, se arrosta o perigo que não se tinha a obrigação de desafiar, em nome do bem maior ou do mal menor. Também por isso há que se falar em "coragem própria" quando se produz um bem ou se evita um mal para outrem e "coragem imprópria" quando se produz um bem ou se evita um mal para si.

Por ora é isso. Espero por perguntas, comentários, críticas e sugestões.

9 comentários:

Linda disse...

Oi, querido, vim ler e comentar sua postagem nova. É impressão minha, ou sua concepção das quatro componentes da virtude deve muito à doutrina aristotélica das quatro causas? Pareceu que a componente situacional era a causa material, a acional a formal, a emocional a eficiente e a final a final, estou errada? Outra coisa: a visão de virtude aqui foi bem mais aristotélica que kantiana. A que se deve isso? Por que faltou referência à justa medida entre covardia e leviandade? Uma última coisa: se a componente final fala de bem e mal, é que tais noções, embora éticas, não são definidas pela própria virtude, e sim previamente e por outra via. Qual seria ela? Eudemonista, utilitária, perfeccionista? Beijos.

André Coelho disse...

Na verdade não tinha reparado, mas de fato se encaixa direitinho na doutrina das quatro causas. A preferência pela abordagem aristotélica, em vez da kantiana, sobre as virtudes se deve à minha opinião de que Kant submete a virtude ao dever de um modo que elimina o seu valor ético de distinção do caráter. A omissão da questão da justa medida foi intencional, porque nunca me convenci de que essa doutrina aristotélica tivesse qualquer valor real para definir uma virtude. Sobre a questão do bem, prévia à da virtude, me inclino para uma posição eudemonista, ao estilo aristotélico, mas ainda com certo espaço para "bens absolutos" como vida, saúde, liberdade etc., para não dar espaço para ponderações situacionais sobre o bem das outras pessoas. Obrigado por ter feito comentário. Beijos!

Débora disse...

Oi. Achei suas explicações sobre a coragem muito interessantes, no entanto observei que dentre os elementos necessários para sua realização havia algo implícito: a razão.

Digo isto porque parece-me que aquele que quer agir conforme esta virtude, deve estar apto a reconhecer qual a situação apropriada, qual a emoção correta que corresponde a ela, etc.

Deste modo, estaria a razão, apesar de implicita, fortemente implicada nas ações éticas?

André Coelho disse...

A razão está sempre presente e não vejo por que seria diferente. Na moral ou na ética, a razão segue soberana. A exclusão da razão tornaria o comportamento meramente reativo, e não livre, de modo que não haveria que falar em filosofia prática. Não poderia haver uma pessoa corajosa "por natureza", "por tendência" ou "por temperamento". Se essas coisas a levarem a enfrentar o risco, será porque ela cede, já não ao medo, mas a outros motores igualmente irracionais e irrefletidos.

Danilo disse...

Oi professor André,

Estava por acaso pesquisando algo sobre ética para um trabalho quando lembrei que você tinha esse blog que eu, até então, não tinha lido.
Outro dia assistí pela primeira vez "O Poderoso Chefão", e cheguei à constatação de que existem algumas obras que eu considero singulares e mesmo assim ainda não consultei por puro desleixo. talvez não ter lido o seu blog seja mais um desses meus desleixos.
Achei curiosa a coincidência de justamente me deparar com um texto seu sobre ética, que eu lembrava apenas como " o juízo do correto/incorreto" das suas aulas. Pensava mesmo em pesquisar algo por aqui.
Bom, agora um comentário sobre o texto, e vou logo pedindo licensa por não ter o mesmo padrão técnico das minhas antecessoras, achei muito esclarecedor, daquela forma elucidativa e simplificada que é característica das suas aulas.
Como sempre, do ponto de vista prático, vai acabar me ajudando de alguma forma. Há muito, não consegui convencer um amigo do óbvio: que nem toda modéstia é falsa. Segundo o seu prisma de apresentação sobre a virtude coragem, diria que a modéstia deixaria de sê-la, portanto tornar-se-ía falsa, quando na componente "final" o agente, na realidade, não pretendesse acolher-se diante de seu triunfo, e sim exaltar-se, por um meio menos convencional.

Um abraço, e até o próximo texto.

André Coelho disse...

Olá, Danilo, que bom receber a sua visita, ainda mais seguida e marcada de um comentário. Obrigado! Queria chamar a atenção para a necessidade de que a leitura dessa postagem sobre coragem seja associada à da postagem sobre ética e moral, que a antecede. A questão de que você comentou sobre a modéstia é interessante. Pelo que entendi, seu amigo acredita que toda modéstia é falsa. Acho até que tem um argumento mais básico contra essa posição tão radical. "A existência da moeda falsa prova o valor que tem a verdadeira". Quer dizer, se a modéstia não existisse e não tivesse valor, por que diabos as pessoas fingiriam ser modestas? Mas, atendo-me ao ponto que você sugeriu, a modéstia também possui as quatro componentes: S, E, A e F. A componente S é a vitória, a exaltação, o reconehcimento, o elogio, mas é também a verdade da grandeza que os demais exaltam na pessoa (se o sujeito recusa a exaltação porque realmente não a merece, não é modesto, mas honesto). A componente E é o sentido da própria grandeza (se o sujeito simplesmente não percebe o quanto ele é bom, não é modesto, e sim ingênuo), acompanhado do sentido de relatividade e pequenez dessa grandeza (essa é a parte do componente E que costuma ser mais fingida que realmente sentida). A componente A é que, por atos e palavras, a pessoa exaltada recuse (com elegância, sem hostilidade) a exaltação, faça parecer menor a sua grandeza e a sua superioridade em relação aos demais e mantenha a disposição de tratar os demais como iguais e de reconhecer suas próprias falhas. A componente F, como você assinalou, não pode ser a intenção de alimentar ainda mais a exaltação em torno de si. Ela deve ser um propósito sincero de não permitir que sua grandeza o afaste das pessoas e de colocar suas qualidades destacadas a serviço delas de uma maneira sincera e gentil, e não agressiva. Abraços!

O Cultivador de Saberes disse...

Caro amigo,
gostei bastante de suas colocações. Concordo especialmente com o final, pois hoje em dia a mída, com seus sensacionalismos banais, acaba querendo fazer-nos crer que muitas coisas que deveriam ser consideradas normais, sejam vistas como heróicas, como ser honesto, por exemplo.

André Coelho disse...

É fato, meu caro. Mas isso se deve à espetacularização da virtude, em parte porque ela de fato se tornou rara, e em parte porque, como esse tipo de notícia desperta no inconsciente o esquema imagético do louvor dos bons, do discurso epidítico etc., ela costuma render bons índices de audiência.

Beatriz Ferroli disse...

Gostei bastante do texto.
Obrigada.