sábado, 12 de julho de 2008

Sobre "Atire a primeira pedra"

Meu convicto ateísmo nunca me impediu de apreciar ensinamentos bíblicos, especialmente alguns provérbios e parábolas. Quanto ao Cristo, em que pese não considerá-lo nem Deus nem coisa que o valha, admiro-o francamente como belo exemplo de ser humano e como um grande sábio da historia universal. Hoje vou comentar uma passagem famosa, constante em João 8:7: "Que atire a pedra aquele que estiver isento de pecado".

Em primeiro lugar, considero essa uma das melhores frases da história da humanidade. Sempre admirei a sagacidade do Cristo. Como naquela vez em que os fariseus queriam jogar o povo contra ele e lhe perguntaram se deviam pagar o imposto a Roma, ao que ele respondeu, depois de ouvir que a imagem gravada nas moedas romanas era de César: "Então dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus". Resposta seca, metafórica e brilhante.

Na passagem citada, também ocorre isso. Agora os fariseus lhe trazem uma mulher apanhada em adultério e lhe pedem que a julgue conforme a lei mosaica, que exigia como pena a morte por dilapidação. Depois de abaixar-se e fazer alguns círculos com o dedo na areia, ele levanta e diz: "Pois então que atire a primeira pedra aquele que estiver isento de pecado". Nova tirada de gênio. Todos pecam, ninguém atiraria pedra alguma. Nem autorizou dilapidação, nem quebrou a lei antiga.

Pessoalmente, não estou nem aí para quem acha que esses supostos feitos do Cristo foram na verdade invenções posteriores de monges medievais espertalhões, ou ainda versões transformadas de velhas histórias de fundo moral que circulavam há séculos por toda a Ásia. Pouco importa. São frases e histórias belas, inspiradoras e ricas de sabedoria. Quem as criou e quando é o menos importante. Poderia até nem ter existido Cristo algum nem episódio algum da dilapidação. Poderia ser tudo uma lenda. Não diminuiria um centímetro do valor moral da história.

Afinal, fora o significado mais direto, a história é uma versão metafórica do "Não julgues para não seres julgado". A dilapidação é uma metáfora do julgamento, da crítica, da maledicência, da reprovação aos que erram. "Atire a primeira pedra" não é apenas uma forma de dissuasão do reprovador, mas é antes uma forma de redirigir seu juízo de reprovação contra si mesmo. "Examina-te, vê se não pecaste também", é o que ela convida a fazer. Antes de julgar ao outro, julga-te a ti mesmo.

Mas isso ainda não é tudo. Quem, numa situação assim, atiraria a primeira pedra? Podemos imaginar que, se cada um dos que lá estavam estivesse sozinho, e não numa multidão, talvez fosse hipócrita o bastante para pensar "Quem? Eu? Eu sou santo, vou mais é atirar essa pedra em cheio na adúltera". Mas não em público! Quem atirasse a primeira pedra estaria se pondo na delicada posição de não-pecador e se expondo ao escrutínio crítico de todos os demais. Estaria candidatando-se a vítima da próxima dilapidação. Como ninguém quer essa inspeção sobre seus atos, melhor não atirar pedra alguma, o que, de quebra, relembra como é incômoda a posição de ser julgado e ajuda a pecadora de uma nova maneira. É como se o Cristo dissesse: "Querem ser julgadores? Ok, desde que se disponham a ser julgados em seguida". Nada feito.

O caráter bilateral de todo julgamento e a prudência de abster-se de julgar para não ser julgado em seguida são lições inestimáveis dessa passagem singular dos Evangelhos.

3 comentários:

Frederico Guerreiro disse...

Faz muito tempo que assumi meu ateísmo para quem quer que fosse. Depois que fui coroinha em um colégio católico na Gávea (RJ)e em Belém, fui atirado quase que definitivamente no mundo das trevas ideológicas. Naquela época, impregnaram minha sugestiónável consciência, aproveitaram-se de um vazio para me preencher de dogmas e sublimações disfarçadas de cultura, que, com o tempo, se bastaram em criar em mim um sentimento de frustração. Passaram-se os anos e percebi que começava a me causar certo desconforto manter uma relação de submissão a uma divindade que me sugestionaram a vida inteira, que me dificultava o livre arbítrio e suprimia a vontade de me expressar segundo minhas próprias concepções sobre as causas e conseqüências das coisas da vida. Daí em diante, desci a uma fase curta de condescendência com a metafísica, para depois ganhar minha convicção e me convencer de que Deus não passa de uma criação humana para justificar as relações de poder; no modo de produção capitalista ele está sempre do lado errado, tudo idéia de João Calvino. Nunca mais fui o mesmo e me tornei uma pessoa livre e feliz. Mas se eu disser que acredito mais em Boitatá, Mula-Sem-Cabeça, Iara, Saci-Pererê, Cobra Grande, lendas da minha terra, sou discriminado pelos adeptos de um sujeito que dizem ter nascido no Oriente Médio e veio ao mundo para me salvar, sem levar em consideração se eu queria ser salvo de alguma coisa.
Foi com base na força bruta que vilipendiaram a cultura dos homens que habitavam essa terra, na base do porrete e da chibata. "Sigai meus dogmas, abraçai a minha causa, aceitai a minha fé, e vos darei o reino dos céus". Para mim foi demais. Fico com a minha Mula-Sem-Cabeça. Pelo menos ela fala a minha língua.
Todavia, para não parecer com aqueles outros, adotei o discurso do respeito às religiões. Tanto é que concordo com as tiradas de gênio esculpidas no Livro Sagrado, receita de bolo para exercer o controle das mentalidades. Quem quiser que se habilite. Mas eu não. Não mais. Nunca mais.

André Coelho disse...

Fred, reduzir toda a gama de expressões filosóficas, artísticas e morais da religião a uma simples justificação das relações de poder me parece extremamente limitado. Para ficar apenas no cristianismo, podemos identificar na história dessa religião, sim, algumas das maiores atrocidades, injustiças e explorações conhecidas pela história da humanidade, um regime de opressão, alienação, medo e culpa. Tudo isso é verdade. Mas também é verdade que essa religião ensinou a humildade, o perdão, a caridade e o amor. Também é verdade que sem os valores morais do cristianismo jamais teria existido a moralidade laica moderna que nos levou à democracia e aos direitos humanos. Também é verdade que algumas das maiores criações do gênio humano, no terreno filosófico, teológico, musical, artístico, literário, arquitetônico e jurídico simplesmente não teriam existido sem o impulso da fé religiosa. Também é verdade que essa religião ensinou a cultura popular a pensar em termos de superficial e profundo, de passageiro e duradouro, de aparente e de real, de atraente e de valioso, de jurídico e de justo. Também é verdade que a Bíblia contém o acúmulo da sabedoria judaica, egípcia e mesopotâmica sobre o mundo, a vida, o homem e os valores. O argumento do "ópio do povo", famoso e popular nas fileiras marxistas, ignora também que, não fosse pelos valores do cristianismo, muitos governos despóticos e injustos jamais teriam sido criticados, questionados, combatidos e derrubados. E ignora que os argumentos pelos quais questionamos a ética das instituições e dos sacerdotes do cristianismo é, quase por inteiro, determinada pelos valores desse mesmo cristianismo. Os gregos e romanos nunca viram todos os seres humanos como iguais, nunca consideraram a vida humana sacrada, nunca deram muito valor ao indivíduo e ao seu livre-arbítrio, nunca consideraram a extrema desigualdade e exploração como injutas e nunca ensinaram nem a misericórdia nem a abnegação incondicional à eliminação do sofrimento dos outros. Tudo isso nós devemos ao cristianismo. Só é possível hoje para mim, como ateu, ter uma forte moralidade laica porque ela é tomada de empréstimo à moral cristã e só é possível para mim me dedicar ao magistério como sacerdócio porque os sacerdotes cristãos me forneceram o exemplo de ascetismo que inspira todos os grandes atos de devoção na modernidade.

Frederico Guerreiro disse...

Não tenho do que discordar. É de uma visão extremamente limitada pensar o cristianismo como justificativa das relações de poder. Tão limitada quanto eu que tenho por apenas útil a moral cristã quando ela justifica a guerra útil para os norte-americanos, que o respeito ao líder é útil na China e que a flora e a fauna são úteis para os índios. Isso ainda que eu esteja aqui me utilizando de uma inovação tecnológica que só foi possível pela liberdade de acumulação e apropriação fundada na moral cristã.
Sou um utilitarista. Sou um limitado. Não me incomoda se um monge budista compreende a bolsa de valores ou se isso é bom ou mal. Alguém decidiu por ele ao longo de sua vida.
Absorvo o que de bom me é servido à mesa segundo um direito inerente à própria natureza humana e quando acredito que é melhor comer nela do que no chão da submissão. As elites africanas, os aiatolás, os talebans do mundo devem ter inveja de mim. Sou um homem-bomba disfarçado de cristão. rsss...