sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Uma questão de interpretação

Preocupa-me que se diga tanto: "É uma questão de interpretação", com o mesmo sentido de "É uma questão de escolha". Acusa a quantas barbaridades subjetivistas se tem prestado o conceito de interpretação. Só se tem uma "questão de interpretação" quando certa coisa X, passível, em princípio, de ser compreendida no sentido A ou no sentido B, pode passar por um critério Y, capaz de mostrar que o sentido A é, na verdade, correto (ou o mais correto), enquanto o sentido B é, na verdade, incorreto (ou menos correto). Se tal critério Y não está disponível, ou seja, se é impossível decidir qual, dentre os sentidos A e B atribuídos a X, é o correto (ou o mais correto), então compreender X como A ou como B não é uma questão de intepretação, e sim uma questão de escolha. Uma coisa só é uma questão de interpretação se é decidível saber qual o sentido correto (ou mais correto) a ser atribuído a ela. Se não, é uma questão de escolha. Convém não confudi-los.

7 comentários:

Anônimo disse...

Concordo plenamente! Todavia, imagino que seja uma questão mais de fé que a comunidade jurídica seja capaz de realizar esta distinção.

Arthur disse...

Caro Professor,

Do exposto no texto, posso concluir que para poder desenvolver uma interpretação devo, necessária e anteriormente, definir um critério?

Sem um critério predefinido não há interpretação?

André Coelho disse...

Caro anônimo, por ora, continuo acreditando e tentando dar minha contribuição como posso.

Caro Arthur, nem toda interpretação pressupõe um critério, mas a escolha entre interpretações concorrentes, sim. Assim, toda vez que a coisa a ser interpretada for passível de mais que uma interpretação, o critéio será necessária para decidir qual delas é a correta ou a mais correta.

Anônimo disse...

E como saber se se o critério foi usado por escolha ou interpretação (por acreditar que aquele critério é o mais apropriado)??

André Coelho disse...

Anônimo, a pergunta é boa. Creio que a única resposta é a seguinte: como não estão mais disponíveis critérios metafísicos e absolutos dignos de crédito, os critérios que temos só podem ser absolutos "por convenção", quer dizer, porque fundamentais e indispensáveis no tipo de discurso em que a interpretação está ocorrendo. Neste caso, decidir, dentro de certo gênero de discurso (discurso religioso, discurso cinetífico, discurso jurídico etc.) que certa coisa X deve ser interpretada pelo critério Y não será uma questão de escolha, mas sim de ajustamento ao gênero de discurso em questão, para o qual Y é um critério decisivo.

Anônimo disse...

Hum... O critério Y sempre vai ser aplicado por se acreditar que ele é o ideal (ou mais próximo do ideal) para uma determinada interpretação ou então na ausência dele para se configurar a escolha. Logo o critério está sendo valorado, certo? Jah que, como vc mesmo disse:

"não estão mais disponíveis critérios metafísicos e absolutos dignos de crédito, os critérios que temos só podem ser absolutos 'por convenção'"

Então nunca se poderá ter uma certeza se o que se fez foi interpretação ou escolha.

Por outro lado vc afirmou ao Arthur que:

"nem toda interpretação pressupõe um critério, mas a escolha entre interpretações concorrentes, sim." --> Exemplifique isso e relacione com minhas observações.

André Coelho disse...

1. O critério "está sendo valorado", sim, se isso quiser dizer que ele está sendo considerado melhor (ou mais adequado) para aquele gênero de discurso em que está sendo aplicado.

2. Digamos a frase, ouvida na gravação da secretária eletrônica: "Marcos, venha à minha casa, trazendo o Pedro e sua irmã". Em principalmente, o "sua irmã" pode se aplicar à irmã de Marcos ou à irmã de Pedro. Para chegar a essas duas possibilidades (a essas duas interpretações), não foi necessário um critério. Mas, para escolher entre elas, sim. Se, digamos, Pedro não tem uma irmã, enquanto Marcos tem, esse é um critério possível para selecionar entre as duas interpretações, nesse caso, em favor da interpretação de que se tratava da irmã de Marcos, e não de Pedro. Se, contudo, entre o falante que deixou o recado e Marcos havia o costume, a modo de brincadeira e provocação entre amigos, de referir-se a Milton, irmão de Marcos, como "sua irmã", sendo que Milton faz parte da mesma turma que todos os referidos, enquanto a irmã de Mário, Milene, não os acompanha para coisa alguma e mal os suporta como companhia, então esse último poderia ser um critério melhor para definir o significado de sua irmã do que o critério anterior. É nesse sentido que falo de precisar de um critério para decidir entre interpretações, quando existir mais do que uma possível, e de buscar o critério que pareça, à luz das circunstâncias da situação, o melhor entre os disponíveis.