quarta-feira, 1 de abril de 2009

Tragédia e História

Dedicado a Fernanda

Seguindo com os temas correlatos de minhas atuais aulas de História do Direito e do Pensamento Jurídico, que por ora se ocupam do mundo grego, abordarei hoje o tema da Tragédia ática. Bem, como se sabe, tragédia é aquele gênero literário e teatral em que se conta a história de um herói ou de uma heroína de grande destaque social e de grande virtude que, após cometer um erro fatal, voluntário ou involuntário, desencadeia uma série de infortúnios terríveis contra si e contra aqueles que ama, tendo como desfecho a loucura ou a morte desse herói ou dessa heroína. São exemplos paradigmáticos de tragédia o Édipo-Rei e a Antígona, de Sófocles, a Orestéia, de Ésquilo, a Electra e a Medéia, de Eurípides, o Rei Lear e o Júlio César, de Shakespeare etc. Segundo a abordagem clássica, o propósito da tragédia seria despertar intensos sentimentos de medo e piedade, para em seguida proporcionar uma catarse de tais sentimentos, acompanhada do maravilhamento diante das personagens e do enredo. Uma boa tragédia deve apresentar seu herói ou sua heroína de modo tal que o público possa identificar-se com ele, pois é isso que garantirá que o público acompanhe a peripécia, isto é, a sequência terrível e incontrolável de infortúnios, compadecendo-se dele ou dela pelo que já aconteceu (piedade) e temendo por ele ou por ela quanto ao que virá em seguida (medo). Na tragédia, o momento final, em que ocorre o último e mais grave e irreversível dos eventos da peripécia, é o momento em que medo e piedade se fundem e atingem um nível tal de intensidade que causa o arrebatamento emocional da platéia, mas é também o momento em que, assumindo o herói a responsabilidade por seus infortúnios, libera-se a piedade, que é substituída por certo alívio e reconforto (afinal, não se trata de uma perseguição irracional do destino contra o herói, mas de uma cadeia de consequências de suas próprias escolhas) e por certa sensação de força e potência (afinal, pela confissão de sua culpa, o herói se torna de vítima em causador dos eventos e retoma sua posição de domínio e responsabilidade pelo próprio destino) e, chegando a cadeia trágica ao seu desfecho fatal (em que nada de mais terrível ainda poderá vir a ainda ocorrer e, portanto, não se tem mais nada a temer, como se o destino, ao desferir seu golpe mais duro e fatal, se tornasse inofensivo, porque, esgotado seu arsenal, restou incapaz de produzir a expectativa de fazer algo ainda mais terrível), libera-se o medo. A tragédia, especialmente a tragédia grega, se apresenta, assim, como cenário propício para a discussão acerca da virtude e do excesso (afinal, o herói trágico ou a heroína trágica só experimenta a grande desgraça porque possui grande virtude, sendo, nesse caso, a grande desgraça uma consequência aparentemente natural e uma recompensa aparentemente injusta de sua grande virtude, ao mesmo tempo que é testemunho dela, porque ninguém medíocre e desimportante seria objeto de uma peseguição tão violenta e impiedosa do destino) e acerca do poder da liberdade e da impotência perante o destino (afinal, o herói trágico cai em desgraça contra a sua vontade, mas ao mesmo tempo por causa de suas ações, de modo que, se experimenta, por um lado, toda a peripécia com o horror e o desespero de quem não consegue controlar nem deter um ciclo de desgraças uma vez desencadeado, tendo, assim, a mais profunda experiência de impotência, experimenta, por outro lado, o momento de reconhecimento de sua culpa com o horror e ao mesmo o conforto de quem finalmente compreendeu por que tudo aquilo era de fato inevitável e com o orgulho de quem encontrou em si a força propulsora de seu próprio destino trágico, tendo, assim, a mais profunda experiência de potência novamente, uma potência extrema nascida e tornada possível na impotência extrema e por causa dela). A tragédia, mais até do que opor destino inevitável e liberdade absoluta, converte o destino inevitável e a liberdade absoluta numa só e única coisa, esmagando e exaltando o homem ao mesmo tempo e através do mesmo enredo.

3 comentários:

Arthur disse...

Querido André,

A clareza do texto lhe é peculiar. Sem dúvida, as tragédias se reproduzem, em sentido mais restrito, no nosso cotidiano, de diversas maneiras: a) seja na perspectiva pessoal de cada um, quando se passa por momentos de crise existencial nos quais o "fundo do poço" parece possuir uma mola que reconduz à superfície (a potência trazida pelo desespero); b) seja na perspectiva social, na qual uma sociedade parece viver em constante tragégia, num movimento de gangôrra entre opostos (fundo e superfície) constante.

Às vezes, sem o glamur pertinente aos heróis trágicos, me sinto inserido numa tragédia pessoal da vida e, sempre, numa tragégia social.

Abraços,

Arthur Laércio

Arthur Laércio Homci disse...

Caro André,

Criei um blog, para discutir Direito, Educação e Política (principalmente os dois primeiros).

Facarei honrado com a sua presença virtual no espaço:

http://constituindojus.blogspot.com/

Abraços,

Arthur

Nadie disse...

Outros apartes seriam necessários, mas, apenas um: toda a trilogia tebana se desenrola em torno da anagnorisis de Édipo; esta sim, o mote trágico da obra de Sófocles.