domingo, 12 de julho de 2009

Hayden White e Meta-História (1)

Resolvi escrever uma postagem resumindo as principais idéias da "Introdução: A Poética da História" do livro "Meta-história: A Imaginação Histórica do Século XIX", de Hayden White. Vamos aos pontos principais, na ordem em que ele os expõe:

CONTRIBUIÇÃO AO DEBATE SOBRE O CONHECIMENTO HISTÓRICO A PARTIR DE UM MÉTODO FORMALISTA DE DETERMINAÇÃO DOS MODOS DE FAZER HISTÓRIA

White anuncia que quer contribuir para o debate sobre o objeto e o método específicos do fazer historiográfico, mas que, em vez de supor que existe uma única forma de conceber e realizar o conhecimento histórico, com exclusão de todas as outras, suporá, ao contrário, que existem muitas formas de concebê-lo e realizá-lo, dedicando-se, especialmente, à caracterização de quatro modos de saber histórico, ilustrados pelos quatro grandes historiadores (Michelet, Ranke, Tocqueville e Burkhardt) e pelos quatro grandes filósofos da história (Hegel, Marx, Nietzsche e Croce) do Séc. XIX.

A TEORIA DA OBRA HISTÓRICA

White distingue cinco níveis de conceitualização na obra histórica: 1) Crônica; 2) Estória; 3) Modo de elaboração de enredo; 4) Modo de argumentação; 5) Modo de implicação ideológica.

1) Crônica: é o registro histórico ainda não processado. É o conjunto de fontes e dados que o historiador tem à sua disposição no princípio de seu trabalho, mas que ainda não foram selecionados, organizados, interpretados e conectados entre si de modo a contarem uma "estória" sobre alguma coisa. São apenas registros de que em tal data tal pessoa fez tal coisa, ou tal coisa ocorreu em tal lugar, sem que se saiba ainda que relevância o evento em questão teve como início, meio ou fim de uma estória que valha a pena ser contada. A primeira tarefa do historiador será, portanto, a transformação da crônica em estória.

2) Estória: é uma narrativa coerente, dotada de início, meio e fim. Seria equívoco dizer que o historiador "encontra" as estórias que as crônicas já contêm (em oposição ao ficcionista, que "inventa" as suas estórias), pois na verdade as crônicas ainda não contêm estórias, mas apenas registros de eventos, e é o historiador que "inventa" histórias que podem ser contadas a partir de uma interconexão interessante, coerente, verossímil dos dados que as crônicas lhe fornecem. A depender da estória que o historiador queira contar, certo evento (por exemplo, a morte do rei) pode ser motivo inicial (por exemplo, de uma estória sobre as lutas pela sucesão do trono), motivo de transição (por exemplo, de uma estória sobre os rumos de uma guerra antes e depois da morte do rei) ou motivo final (por exemplo, de uma estória sobre a relação do rei com as classes em luta em seu reino) de uma narrativa histórica.

Contudo, a estória apenas informa sobre o que se está narrando e que eventos, nessa narrativa, devem ser considerados motivos iniciais, motivos de transição e motivos finais, mas ainda não informa que tipo de estória é essa, que tipo de enredo ela conta, que tipo de conexão estabelece entre suas partes para desenvolver sua intriga e chegar a um desfecho. Isso está ligado ao próximo item.

EXPLICAÇÃO POR MODO DE ELABORAÇÃO DO ENREDO

3) Modo de elaboração do enredo: Procura responder a questões do tipo "Por que tal coisa ocorreu depois de tal outra?", "De que modo tal coisa serviu de causa para tal outra?", "Que conexão tal coisa e tal outra possuem no interior da estória?". Pode ser um dos quatro seguintes modos póssíveis.

a) Estória romanesca: é um drama sobre um herói e sua aptidão para transcender o mundo da experiência, vencê-lo e libertar-se dele no final, ou seja, é uma estória de triunfo do bem sobre o mal, da luz sobre as trevas, da virtude sobre o vício. Segundo White, a historiografia de Michelet ilustra um conjunto de estórias vertidas no modo romanesco. (Por exemplo, uma história da Revolução Francesa que veja "o povo" como o herói, no início oprimido pelos vilões, digamos, o Rei, a nobreza e o clero, depois levado a um estado tal de exploração e sofrimento que uma reação era inevitável, depois reagindo durante a Assembléia dos Estados Gerais e finalmente triunfando, mediante a derrubada da Bastilha e a tomada do poder, para daí em diante ser um povo livre e implantar um reino definitivo de igualdade e justiça, seria uma história vazada em estilo romanesco.)

b) Comédia: é um drama sobre certas vitórias provisórias que os homens alcançaram mediante reconciliações com seu meio ou entre si. Segundo White, a historiografia de Ranke ilustra um conjunto de estórias vertidas no modo cômico. (Por exemplo, uma história da Revolução Francesa que a mostrasse como resultante de um processo de desequilíbrio das relações de poder entre os diversos grupos sociais relevantes na França do Séc. XVIII e como retomada desse equilíbrio mediante uma redistribuição e reorganização do poder político seria uma história vazada em estilo cômico.)

c) Tragédia: é um drama sobre certas vitórias privisórias que, embora tentadas, nunca foram alcançadas, tendo as tentativas de alcançá-las resultado em situações ainda mais terríveis que aquelas que motivaram a busca em primeiro lugar. Segundo White, a historiografia de Tocqueville ilustra um conjunto de estórias vertidas no modo trágico. (Por exemplo, uma história da Revolução Francesa que a mostrasse como tentativa do povo de libertar-se da situação de opressão em que vivia com o Absolutismo e a supertaxação para, no entanto, cair em outra opressão ainda maior com o Liberalismo e a superexploração do trabalho, seria uma história vazada em estilo trágico.)

d) Sátira: é um drama sobre a incapacidade do homem de transcender o mundo da experiência, sobre sua impotência diante das estruturas ou circunstâncias que o rodeiam e que determinam sua fortuna. Segundo White, a historiografia de Burkhardt ilustra um conjunto de estórias vertidas no modo satírico. (Por exemplo, uma história da Revolução Francesa que a mostrasse como esperável e previsível, mas ao mesmo tempo necessária e inevitável, sendo os homens que participaram dela, seja como protagonistas, como antagonistas ou como coadjuvantes, simples figuras impotentes que realizam um enredo que não escreveram e em que não tiveram chance de interferir, vítimas de um processo maior e mais poderoso que eles, seria uma estória vazada em estilo satírico).

Os dois primeiros modos são otimistas, porque mostram a vitória sobre o problema ou nó da estória. Contudo, a vitória na comédia é sempre modesta e provisória, enquanto na estória romanesca é apoteótica e definitiva. Os dois últimos modos são pessimistas, porque mostram a derrota para o problema ou nó da história. Contudo, na tragédia a vitória era possível, não fosse por um engano ou erro que levou a uma situação ainda pior, enquanto na sátira a vitória nunca foi possível, porque o problema em questão é inevitável e o homem é impotente diante dele.

(continua)

3 comentários:

beatriz-feitosa@uol.com.br disse...

Olá "Filósofo Grego", venho me debruçando demoradamente sobre este texte de White e seus comentários acerca dos mesmos deram um fôlego a mais para minhas leituras.

André Coelho disse...

Obrigado pela visita, Beatriz. Fico contente que o texto tenha lhe dado algum estímulo. Gostaria, se possível, que fizesse algum comentário nesta postagem sobre suas próprias impressões acerca das considerações meta-históricas do White. Até mais!

Munhoz disse...

André, gostei bastante do seu texto. Deu uma iluminada para relacionar com outro escrito de White que resenhei lá no meu blog (http://tempossafados.blogspot.com.br/2012/06/todo-mundo-odeia-o-white-ficcao-na.html.). Achei bacana os temas que você trata no "Filósofo Grego".

Abraços,
Munhoz.