quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Notícia do Dia

Berlim, 7 out (EFE).- A Polícia alemã realizou na noite passada uma operação de revista em várias dezenas de casas de islâmicos suspeitos de atividades terroristas em diferentes pontos de Berlim.

Um porta-voz policial informou que as casas revistadas pertencem a pessoas "do entorno de islamitas dispostos à violência", mas não deu detalhes da operação, nem comunicou se houve detenções.

Além disso, destacou que as revistas ocorreram dentro de uma investigação sobre a ida de islamitas residentes na Alemanha a campos de preparação de terroristas no exterior.

"Não se tem conhecimento de planos concretos de atentados do grupo", disse o porta-voz policial.

A edição on-line do jornal "Bild" afirma que as revistas ocorreram em 28 casas na capital alemã e que, durante as mesmas, foram detidos vários islamitas de origem chechena.


É impressão minha ou o que foi dito na notícia acima é o seguinte: "Polícia alemã revista dezenas de casas de islâmicos porque, apenas por serem islâmicos, são suspeitos de envolvimento com atividade terrorista"?

Tudo bem, pelo menos isso ocorreu na Alemanha, um país com ampla tradição de liberdade e sem nenhum passado de xenofobia...

7 comentários:

Yúdice Andrade disse...

Caro André, os alemães ainda sofrem muito o estigma da II Guerra, não apenas pelo que se atribui a eles, mas também pela vergonha que eles mesmos sentem por terem sido a origem (geográfica, digamos assim) de tanto mal. Mas eles se esforçam, recebendo estudantes do mundo inteiro e fazendo investimentos, a fundo perdido, em países subdesenvolvidos ou "em desenvolvimento". Pelo menos era assim, há alguns anos - ou antes da crise econômica mundial.
Neste caso, eles externaram a mesma paranoia de segurança que se disseminou pelo mundo e tem nos Estados Unidos o seu maior expoente. Mas o que fizeram os ingleses, após atentados naquele país, chegando-se à morte do brasileiro Jean Charles? O que faria a Espanha, que igualmente sofreu atentados? Não estou confundindo o ETA com os muçulmanos, apenas lembrando alguns casos relativamente recentes de atentados.
A paranoia já se instalou há tanto tempo, que hoje existem vários autores explicando esse fenômeno, com enorme precisão. Temos o Direito Penal do inimigo, de Günther Jakobs; temos a criminalização por seletividade e por estereotipização, hoje tão bem descritas. Temos os fenômenos elegantemente explicados por Zaffaroni, sobre a relação entre políticas de "tolerância zero" e os crimes de perigo, notadamente os de perigo abstrato, e o Estado policial, que surge numa cultura de medo (fomentada pela mídia) e se espraia por meio de suspeições genéricas, prejuízos à intimidade das pessoas, monitoramento e até medidas de força. Tudo em nome da prevenção. De uma prevenção que vai muito além da probabilidade de um ataque, bastando a simples possibilidade.
Não, meu amigo, não leste errado. Penso, ainda, que o pior é saber que essa mesma dinâmica maluca é empregada em nível interno, em países como o Brasil, para justificar o tratamento de criminosos comuns. Hoje, todos são terroristas e o referencial da guerra virou rotina em nossas cidades.
Certas horas, apavoro-me.

Discípula Fernanda disse...

É uma notícia muito interessante(que explica a mudança de padrão de posts). Curioso como a mídia jornalística "passou por cima" desta notícia de forma natural e não questionadora.

Como conversamos antes, se fosse nos Estados Unidos se estaria falando da política Bush no governo Obama e da atuação troglodita da polícia americana. De fato, temos poucos elementos para concluir muita coisa da notícia, mas uma coisa séria pode ser dita: ou as informações estão muito incompletas ou o combate ao terrorismo (na Alemanha, neste caso específico, mas também por todo o mundo) tem passado alguns limites.

Volta para a discussão sobre como os Estados devem agir diante do terrorismo sem tornarem-se, eles próprios, os terroristas.

Boa postagem! Beijos

Anônimo disse...

O caso não seria: Não é que todo muçulmano seja terrorista, mas o é interessante pensar que todo terrorista é muçulmano. A Alemanha hoje é, sem dúvida nenhuma, um dos paises mais tolerantes do mundo. Responsabilizar a geração atual pelo nazi-facismo é utilizar uma lógica que torna todo brasileiro indiocida e escravocrata.

André Coelho disse...

Yúdice, é realmente assustador. Se os direitos humanos servem para alguma coisa, servem para proteger os vulneráveis e para nos manter atados ao mastro da razão mesmo ante o canto de sereia do alarmismo. Se não servem para isso, não servem para muito.

Fernanda, você tem razão. O abuso da polícia americana é togloditismo ianque, o abuso da polícia alemã não é sequer chamado de abuso. É "investigação", como se estivesse em conformidade com o devido processo legal.

Anônimo, infelizmente o passado de restrição e de xenofobia não ficou na Segunda Guerra. Que o digam os moradores dos bairros turcos de Berlim e de Frankfurt. Que o digam os islâmicos amedrontados com a ascensão, eleição após eleição, do partido neoconservador.

Anônimo disse...

Prezado André,

houve uma ameaça recente de grupos terroristas islamicos à Alemanha. O problema com os imigrantes é muito mais complicado que isso. Há alguns anos um turco, fundamentalista islâmico radical chamado Metin Kaplan, auto intitulado o Kalifa de Colônia, pregava a criação de um Estado muçulmano no território alemão. Muitos turcos querem os direitos, mas não querem os deveres implícitos em morar na europa. Impedem os filhos de ir à escola ou de viver segundo o modo de vida ocidental. Formam com isso quetos e depois reivindicam o reconhecimento sem contrapartida. Além disso estão convictos da decadência do ocidente, mas continuam a viver lá. Há muitos conflitos entre as duas partes e você há de entender que no meio disso tudo é difícil identificar onde os problemas começaram.
Mas eu insisto, o Brasil é um país muito mais autoritário, racista e intolerante que a Alemanha.

André Coelho disse...

Anômimo, de fato é complicado. A conduta dos islâmicos na Alemanha não é digna de elogio. Concordo que devem assumir o ônus da convivência se quiserem receber o benefício dela. Mas fazer uma operação de "investigação" em casas de islâmicos, sem outra suspeita sobre eles que não o serem islâmicos, atenta contra as liberdades básicas da pessoa e não se justifica nem mesmo no caso de essa pessoa não ser lá muito respeitadora das liberdades básicas de ninguém. Para reagir contra ameaças existem procedimentos de investigação e de punição que podem ocorrem dentro dos parâmetros do devido processo legal. A violação preventiva das liberdades não é a solução.

Anônimo disse...

Se você soubesse que um grupo do Quamá ou da Sacramenta (embora os grandes ladrões não morem lá) havia conjecturado um atentado terrorista em Belém, você não seria a favor de buscas nas casas de suspeitos?
Certamente as buscas não foram em todas as casas ou feitas aleatóriamente. È necessário diferenciar controle de autoritarismo. No Brasil isso é complicado, mas o autoritatismo restringe qualquer possibilidade de justificação.
Thiago