segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Arte e valor intrínseco

Escrevo motivado por esta discussão no blog Arbítrio do Yúdice.

Arte é toda manifestação cultural em que se realize um ideal estético. Assim, não basta ser música para ser, automaticamente, arte. Não basta ser dança para ser, automaticamente, arte. Não basta ser pintura para ser, automaticamente, arte. É preciso que a música, a dança, a pintura etc. em questão realize um ideal estético. Falar de situações e emoções cotidianas, entreter, animar etc. não são ideais estéticos, de modo que as músicas, danças, pinturas etc. que servem a esse propósito não são arte. São uma forma de entretenimento, são formas de expressão, mas não são, a rigor, arte.

Um dos piores problemas da cultura contemporânea é que a chamada indústria cultural produziu uma grande confusão entre arte e entretenimento, entre aquilo que os críticos norte-americanos popularizaram com os nomes de cult e pop. O cult é arte, o pop é entretenimento. A diferença entre cult e pop não é uma mera vestimenta conceitual encobrindo a diferença entre a “arte esnobe dos ricos” e a “arte alegre dos pobres”. Não é. Entre Mozart e Renato Russo, entre Waldemar Henrique e Pinduca, entre o Balé Quebra-Nozes e o Terra Samba, entre Caravaggio e Romero Brito, entre Sebastião Salgado e Anne Guedes, entre Dostoievski e Stephanie Meyer, entre Molière e Nelson Rodrigues, entre Aristófanes e Miguel Falabella, entre Tarkovsky e Tarantino, entre Richard Wagner e Andrew Lloyd Webber existe um abismo de diferença, que nenhum discurso demófilo pode simplesmente apagar.     

6 comentários:

Marina Moreira disse...

"[...]Dostoievski e Stephanie Meyer [...] existe um abismo de diferença, que nenhum discurso demófilo pode simplesmente apagar."

Com toda a humildade presente no meu não-pequeno ser, permito-me dizer que em termos de literatura (sic), há uma grande diferença entre EU e Meyer. hahahahahaha (Antes de levar pedrada de qualquer "xiita", manifesto que se trata de uma brincadeira.]

Certo, radicalismos e brincadeiras a parte, trago para cá um mero devaneio de minha parte: talvez o problema seja que entre as pessoas que conhecem apenas a teoria, as pessoas que conhecem apenas a prática e as pessoas que tentam concilia-las há um grande abismo.

Entenda-se por "conhecedores da prática" as pessoas que cotidianamente absorvem informação que apenas é mastigada por emissoras de televisão e rádios populares.

De qualquer forma, para conhecedores da prática, há esta diferença?

Sem mais,

Marina S. Moreira

André Coelho disse...

Marina, fico feliz que você tenha se tornado uma assídua comentadora de minhas postagens. Agora me sinto como se não estivesse escrevendo apenas para o silêncio sideral da grande rede. Quanto ao seu comentário, acho, sim, que existe um elemento intelectual envolvido, embora talvez "teoria" não seja exatamente o melhor termo para ele. Preferiria falar de formação (Bildung): uma aliança bem sucedida entre talento, técnica, sensibilidade, tradição e originalidade. O problema, como você apontou, é que, na falta dessa formação (Bildung), perde-se tudo na indiferença cinzenta das percepções hedônicas.

Ah, e sim, eu confio que você escreva bem melhor e com bem mais profundidade que Stephanie Meyer.

Yúdice Andrade disse...

Caro André, não estavas escrevendo para nenhum silêncio sideral. Apenas tenho andado meio prejudicado para comentar nos blogs amigos.
Percebo que entramos numa divergência inconciliável, mas preciso esclarecer que ela é mais valorativa do que conceitual. No aspecto conceitual, dou-te inteira razão quanto à diferença entre arte e entretenimento. Tens toda razão. Até aqui, fui um cultor das artes tidas como esnobes dos ricos. Adoro música clássica, filmes de arte, aprecio uma boa pintura ou escultura (e não tenho a menor paciência para arte moderna). Só não sou mais, felizmente, tão obtuso quanto antes.
Jamais disse e jamais diria que funk é arte. Há pouco tempo, publiquei uma postagem reproduzindo um texto de jornalista contra o funk, aquele mesmo que critico no meu texto que te aborreceu. O que afirmei foi, tão somente, que dessas manifestações popularescas podemos extrair algo de bom e útil, mas não artístico.
O mote da postagem era: Claudinho e Buchecha foram benéficos ao meio social que vive em meio ao funk, porque produziram uma obra (concordo, sem valor artístico) propondo valores mais humanos e dignos. Para confirmar o que digo, basta comparar as letras deles com as da Tati Quebra-Barraco. Quanto a isto, mantenho a minha posição, firmemente.
Em suma, penso que, na verdade, não estamos falando da mesma coisa.
Um abraço.

André Coelho disse...

Yúdice, preciso pedir-te duas vezes desculpas. Uma por um mal-entendido absolutamente não intencional: Não quis me referir à tua ausência de comentários (motivada, como sei, por ler o teu blog, pelas tuas muitas atividades do momento) ao falar do silêncio sideral da rede, mas apenas usar uma figura de linguagem para falar daquele receio que acho que todo blogueiro tem de que aquilo sobre o que está prestes a escrever não venha a angariar o interesse de ninguém. Desculpe se lhe pareceu de outra forma.

A outra desculpa que preciso pedir-te é se também dei a entender que, nas tuas postagens recentes, tivesses defendido o valor propriamente artístico de manifestações como as novelas e o funk. Na verdade, fiz a postagem para deixar clara a minha posição sobre questões pertinentes ao valor artístico (da qual, pelo que comentaste, inclusive compartilhas), e não para me contrapor às tuas posições. Entendi que quiseste mostrar que coisas despidas de valor artístico podem dar outros tipos de contribuição e ter outros tipos de valor. Apenas realmente fico preocupado que manifestações culturais de entretenimento sejam confundidas (não por ti, mas pela maioria das pessoas) com arte e que benefícios não artísticos (não por ti, mas pela maioria das pessoas) sejam confundidos com valor artístico.

Eu jamais faria qualquer tipo de afirmação ou insinuação que fosse agressiva em relação a você, que é, sem dúvida alguma, um dos interlocutores mais inteligentes, bem educados e bem humorados que tive ao longo da minha vida virtual de blogueiro.

Por isso, novamente, desculpe.

Yúdice Andrade disse...

Relaxa, André, não fiquei ofendido com nada. Ainda não tinha lido a tua resposta quando escrevi isto aqui embaixo:

Quanto a ser obtuso, reconheço que Andrew Lloyd Weber não é o melhor compositor que a música produziu, mas seria absurdo considerá-lo medíocre (ainda mais sendo eu alucinado por "O Fantasma da Ópera", cuja versão da Boradway, a meu ver, é bem melhor do que o original de Gaston Leroux). Algumas de suas composições são de um lirismo simplesmente maravilhoso.
Vi dois filmes de Tarkovski, que me pareceram excelentes, e detesto Tarantino, que para mim é lixo.
Não creio que haja termo de comparação entre Aristófanes e Falabella, os quais só têm em comum escreverem para teatro. Do mesmo modo, Romero Britto e Caravaggio. Compará-los seria, a meu ver, tratar um operador de trator e um taxista como iguais, só porque ambos dirigem veículos.
Não falarei de Moliére, que nunca li, nem de Nelson Rodrigues, que acho um saco (um pervertido frustrado que teve a sorte de publicar suas sandices).
Não li e não lerei Sthepanie Meyer, porque me dou ao respeito e detesto gente que ridiculariza os vampiros. Mas também é verdade que li Dostoievski, morri de sono, não terminei o livro (ficou faltando só um pouquinho) e não pretendo pegar nele nunca mais.
Acho as fotos da Anne Geddes um frufru chatíssimo, mas nunca diria que ela não é uma fotógrafa excepcional, porque não conheço a técnica fotográfica. Quanto aos enquadramentos, à luz e sei lá mais quantos detalhes se pode conceber, ela pode ser até superior ao Sebastião Salgado (não sei, é apenas um argumento!). O problema dela está no objeto de seu interesse, só isso.
No final das contas, Mozart é um dos meus compositores preferidos, atrás de Bach e Haendel. Mas se falares mal de Renato Russo, o debate entre nós restará absolutamente inviabilizado!
Abraços.

Discípula Fernanda disse...

Marina, eu também tenho certeza que você pode escrever melhor que a Stephanie Meyer...

André, gostaria de saber um pouco mais sobre a bibliografia que você recomendaria para falar de arte, inclusive dos "velhinhos de Frankfurt" e seus escritos que ainda não conheço.

Seria interessante um post que trabalhasse com Adrono e Horkheimer e a 'indústria cultural', se quiser prolongar e seguir com o assunto... (ok, eu tinha vontade de postar isso, mas eu sei que vou acabar não escrevendo nada XD)

Você conhece da minha vontade em trazer 'um pouco de arte' para o mundo acadêmico ;D

Abraços,