quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Resposta a um E-mail Encaminhado

Recebi hoje pela terceira vez, de uma terceira pessoa diferente, o seguinte e-mail encaminhado:

Assunto: EXPERIÊNCIA SOCIALISTA

Uma visão clara do socialismo

Um professor de economia na universidade Texas Tech disse que ele nunca repetiu um só aluno antes, mas tinha, uma vez, repetido uma classe inteira. Esta classe em particular tinha insistido que o socialismo realmente funcionava: ninguém seria pobre e ninguém seria rico, tudo seria igualitário e justo. O professor então disse: Ok, vamos fazer um experimento socialista nesta classe. Ao invés de dinheiro, usaremos suas notas em testes. Todas as notas seriam concedidas com base na média da classe, e portanto seriam justas. Isso quis dizer que todos receberiam as mesmas notas, o que significou que ninguém repetiria. Isso também quis dizer, claro, que ninguém receberia um A. Depois que a média das primeiras provas foram tiradas, todos receberam Bs. Quem estudou com dedicação ficou indignado, mas os alunos que não se esforçaram ficaram muito felizes com o resultado.Quando o segundo teste foi aplicado, os preguiçosos estudaram ainda menos eles esperavam tirar notas boas de qualquer forma. Aqueles que tinham estudado bastante no início resolveram que eles também se aproveitariam do trem da alegria das notas. Portanto, agindo contra suas tendências, eles copiaram os hábitos dos preguiçosos. Como um resultado, a segunda média dos testes foi D. Ninguém gostou. Depois do terceiro teste, a média geral foi um F. As notas não voltaram a patamares mais altos, mas as desavenças entre os alunos, buscas por culpados e palavrões passaram a fazer parte da atmosfera das aulas daquela classe. A busca por justiça dos alunos tinha sido a principal causa das reclamações, inimizades e senso de injustiça que passaram a fazer parte daquela turma. No final das contas, ninguém queria mais estudar para beneficiar o resto da sala. Portanto, todos os alunos repetiram para sua total surpresa. O professor explicou que o experimento socialista tinha falhado porque ele foi baseado no menor esforço possível da parte de seus participantes. Preguiça e mágoas foram seu resultado. Sempre haveria fracasso na situação a partir da qual o experimento tinha começado. Quando a recompensa é grande, ele disse, o esforço pelo sucesso é grande, pelo menos para alguns de nós. Mas quando o governo elimina todas as recompensas ao tirar coisas dos outros sem seu consentimento para dar a outros que não batalharam por elas, então o fracasso é inevitável.


Como era a terceira vez que recebia essa mensagem e já tinha me revoltado com ela das outras duas vezes, dessa vez apertei "Responder para todos" e enviei a seguinte resposta, que agora compartilho com os leitores desse blog:

Não sou defensor do Socialismo, nem como modelo econômico, nem como modelo político. Mas não posso deixar de dizer que o argumento contido nessa anedota não passa de uma bobagem. Dos muitos motivos pelos quais penso assim, aqui vão os principais:

1) Numa classe, o conteúdo cobrado nas provas foi visto em aula e todos os alunos têm condições de entender o que é visto. Ou seja, as condições iniciais são mais ou menos justas e todos têm mais ou menos as mesmas chances de êxito. Na Economia, não é assim. O capitalismo não começa com todos nascendo em famílias com iguais condições, tendo iguais chances de educação e emprego e iguais capitais iniciais de investimento. Pelo contrário, ele começa com uma situação em que alguns já têm muito e outros já têm pouco e em que o sucesso pessoal pode nem sempre depender apenas do esforço de cada um. A comparação entre a sala de aula e uma sociedade econômica absolutamente não procede.

2) O capitalismo também não passaria nesse mesmo teste. Isso porque, ao contrário das notas, que são distribuídas conforme o rendimento e o mérito de cada aluno, as rendas, numa sociedade capitalista, dependem de leis de mercado, basicamente da lei de oferta e procura. Se o mesmo professor da anedota fizesse agora um "experimento capitalista", ele seria assim: Numa turma de sessenta alunos, haveria disponíveis dez notas A, dez notas B, dez notas C, dez notas D, dez notas E e dez notas F. Os recursos seriam escassos e os melhores lugares não seriam em número ilimitado, tal como na sociedade capitalista. Mais ainda, a cada avaliação, você teria uma nota de partida: Se partisse de F, poderia chegar no máximo a E; se partisse de E, no máximo a D, e assim sucessivamente, imitando o modelo capitalista, em que a quantidade de lucro final depende da quantidade de investimento inicial. Você herdaria suas primeiras notas de partida de seus pais, conforme eles tivessem conseguido render naquelas mesmas disciplinas. Os alunos com nota de partida A e B teriam que poder contratar alunos com notas de partida mais baixas para, juntos, esses alunos partirem de A ou B e conseguirem um A, que seria repartido por todos, assegurando aos contratados no máximo um D e ao contratador a manutenção do seu A. Em resumo: Não creio que esse experimento seria nem um pouco mais aceito pelos alunos nem daria melhores resultados educacionais que o experimento socialista.

3) "Tirar coisas dos outros sem o seu consentimento e dar a outros que não batalharam por elas" é a exata definição de como historicamente se implantou o regime capitalista (através de "cercamentos" que tomaram terras de camponeses na Europa e de indígenas nas Américas, de indústrias que tomaram máquinas e terras de pequenos artesãos, tesouros em ouro e prata que foram tomados aos povos nativos da África, da Ásia e das Américas etc.) e de como ele atualmente funciona (já que o lucro do empresário está diretamente ligado à mais-valia, isto é, a uma parte não remunerada do trabalho dos empregados). Ou lhes parece que os empresários, os banqueiros, os fazendeiros, os especuladores, os investidores são todos pessoas que "batalharam" por sua riqueza e que, na comparação com seus funcionários, fizeram a maior parte do esforço?

Em resumo, existem, sim, bons argumentos contra o Socialismo. Estudem melhor a respeito e vocês os descobrirão. Mas são os livros, os bons livros, que demandam concentração, dedicação, esforço, e não os e-mails encaminhados, a melhor fonte com que se informar a respeito.

Abraços a todos!

5 comentários:

Débora Aymoré disse...

Partindo de condições econômicas iguais ou diferentes, a questão do esforço pessoal me parece o maior aliado para o sucesso, quer ele obtenha o reconhecimento social ou não, o que poderia ser medido, inclusive, pelo salário daquele que trabalhou em determinado ofício. Neste caso, assumo uma postura mais ética do que econômica e, por isso, considero que o regime econômico seria uma variante, que poderia ajudar ou atrapalhar o reconhecimento social do esforço individual, mas que de modo algum retira o seu valor. É claro que, por exemplo, em regimes totalitários, em que há pouco espaço para a liberdade de escolha individual, dificilmente poderíamos aspirar e trabalhar em estilo de vida que nos parecesse bom. Assim, como os regimes socialistas algumas vezes estiveram associados com perda de direitos individuais, tal como no seu exemplo do retirar o fruto do trabalho de um para dividi-lo entre todos, parece-me uma ofença aos direitos individuais e, portanto, uma ofença à liberdade. Neste ponto, e talvez apenas nele, vejo vantagens na associação entre o regime econômico capitalista e o regime político democrático, apesar de, tal como você bem acentuou, reconhecer que neste regime econômico-social as condições iniciais dos indivíduos são mais supostamente as mesmas do que efetivamente as mesmas.

Quanto à aplicação do socialismo em sala de aula, talvez o erro tenha sido o de que o professor que o aplicou tomou apenas o ponto negativo do socialismo, que seria, pelo que entendi, apresentado pela questão de que se divide o fruto do trabalho por todos: pelos que realizaram e pelos que não realizaram o esforço. No entanto, é preciso lembrar que a ideia implícia nesta divisão é de oferecer aos membros de uma determinada sociedade as melhores condições de vida possível. Ideia esta que não me parece tão ruim.

Pedro Castilhos disse...

Prezado Sr. Coelho:
Desejava enviar-lhe cópia de e-mail que enviei a amigos que discutiam o texto em referência, mas não consegui encontrar e nenhum local do vosso blog um endereço para contato, aparte a postagem de comentários, que creio não ser a melhor via para a hipótese em questão.
Desde já, minha concordância com vossa opinião e minha admiração intelectual.
Atenciosamente,
pedrocastilhos@yahoo.com

Ricardo disse...

Genial, pra variar.

MISSÃO FONTE DE ÁGUA VIVA disse...

E ainda tem gente que insiste no socialismo, quando este jamais irá funcionar. A meritocracia faz parte da sociedade dos homens, ninguém suporta trabalhar, ser mais dedicado, se esforçar para ter o melhor e ser obrigado a dividir com quem não quer nada. Quem não vai a luta sempre viverá na pobreza. Não existe em nenhuma parte do planeta, o sucesso do socialismo, todos os países que vivenciam tal sistema político deseja se libertar do mesmo. O socialismo/comunismo só é bom para os que governam, isso enquanto há dinheiro, pois depois que o mesmo acaba, a miséria é generalizada. Como um médico vai ganhar o mesmo que um lixeiro??? Uma pessoa vai estudar a vida inteira e receber a mesma remuneração de quem não quis nada com os estudos??? Só existe um relato de socialismo bem sucedido e este está registrado na bíblia, na comunidade primitiva dos cristãos, mas nem ali durou por muito tempo.

André Coelho disse...

São vários os problemas do que você levanta. O primeiro é a suposição de que no socialismo alguns trabalham e outros não, alguns se esforçam mais, outros bem menos, e no fim das contas todos ganham o mesmo. Isto é um espantalho do socialismo, nenhum teórico do socialismo jamais defendeu isso em lugar algum. O segundo é a suposição de que o socialismo real da URSS, do Leste Europeu, da China pré-Abertura, de Cuba e dos países africanos corresponde ao ideal do socialismo como defendido pelos seus propositores. Isso, novamente, é um erro, o que houve neste países foi ditadura centralista e capitalismo social planificado, o que é bem diferente. A terceira é a suposição de que, na nossa sociedade atual, quem se tornou médico e quem se tornou lixeiro saíram do mesmo ponto de partida e apenas se distinguiram pelo esforço e dedicação aos estudos. Quantos filhos de lixeiros você conhece, mesmo entre os mais esforçados, que se tornaram médicos? Provavelmente poucos. Quantos filhos de médicos você conhece, mesmo entre os menos esforçados, que se tornaram lixeiros? Provavelmente nenhum. A ideia de oportunidades iguais, de sucesso que só depende de esforço é um mito, a mentira que bota lenha na fogueira do sonho capitalista do enriquecimento e do êxito por si mesmo. Então, vamos com calma nas conclusões. O experimento relatado na historinha não testa o socialismo, apenas promove um sistema massificado e injusto de atribuição de notas. Para discutir sobre socialismo, é preciso bem mais calibre de argumentação.