sexta-feira, 30 de abril de 2010

Aforismo 2: Uma Abordagem Histórica

Até agora abordei o meu Aforismo 2 como um argumento conceitual: Toda outra forma de discurso que não a narração também possui, ainda que neutralizados, os elementos e as partes da narrativa. Gostaria agora de abordá-lo como um argumento histórico. No nascimento da cultura ocidental, na Grécia, a narrativa precedeu e foi mãe da poesia e do argumento. Primeiro veio o mito, depois veio o épico. O mito era a narrativa dos inícios, de eventos apresentados como singulares, mas que tinham significação universal, porque tinham estruturado o modo como as coisas são no mundo. Pode-se dizer que o mito é a primeira modalidade de discurso explicativo. O universal cotidiano (por exemplo, o eco que se ouve nas cavernas; o curso das estações do ano) se explica à luz de um singular extracotidiano (por exemplo, Eco falando com Narciso; Perséfone, suas visitas a Deméter e sua volta ao Hades). Já o épico não é a narrativa do singular que se torna eterno no cotidiano (como o mito), mas sim do singular que passa, que se perde no tempo e no esquecimento, mas que é tão magnífico e grandioso que ousa desafiar o tempo e o esquecimento, para tornar-se eterno pela memória dos homens. Pode-se dizer que o épico é a primeira modalidade de discurso normativo. Nele se expressa ao mesmo tempo um evento singular (a força e a coragem de Aquiles, a lealdade e a bravura de Heitor) e uma norma universal (todos devem ser como aqueles homens). Não se trata do singular que é explicação (aquilo que sempre e inevitavelmente se repete) do universal, mas do singular que é norma (aquilo que jamais se repete a não ser por um intenso esforço voluntário) do universal. A Filosofia teórica (cosmologia, metafísica e física) vai surgir retendo e modificando as características do dsicurso explicativo do mito. A Filosofia prática (ética e política) vai surgir retendo e modificando as características do discurso normativo do épico. A História vai surgir tentando conectar os dois, associando a virtude e o êxito, tentando explicar ao mesmo tempo os êxitos e fracassos como efeitos da presença ou ausência de virtudes e recomendar virtudes e padrões a partir da participação que tiveram para a presença ou ausência do êxito. Dessa forma, a narrativa legou, por assim dizer, a herança genética de todos os outros gêneros de discurso. Por isso mesmo, permanece como um referencial incontornável no exame deles.

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