domingo, 25 de abril de 2010

Narrativa e Realidade (II) - Caráter Literário da Realidade

Atendendo ao conselho da Débora - que o leitor pode conferir nos comentários da postagem anterior -, escrevo aqui uma primeira postagem de desenvolvimento das ideias que ali havia listado de forma embrionária e quase aforística. Vou brincar um pouco com isso e chamar o item a que dou desenvolvimento nessa postagem de aforisma 2 - lembrando as referências às sentenças de Wittgenstein nas Investigações Filosóficas, com que sinto uma estranha conexão.

O aforisma em questão diz: "A realidade tal como a percebemos é toda estruturada literariamente. Não podemos fazer outra coisa que não contar histórias sobre o que é (o fato), o que pode ser (a ficção) e o que deve ser (o ideal)".

Isso exige uma teoria da narrativa, seguida de uma teoria da estruturação narrativa da realidade. Ainda não tenho nenhuma das duas, mas exponho aqui de que modo entendo essa afirmação por ora. Entendo uma narrativa como um discurso composto de certos elementos: narrador, enredo, personagens, espaço e tempo; e construído segunda certa estrutura: apresentação, conflito, clímax e desfecho. Em seguida, suponho que estes elementos e esta estrutura não são peculiares à narrativa, mas pertencem, antes, ao pensamento e ao discurso em geral. Ora, a dificuldade básica a tal respeito é que certos discursos (sobretudo poesia e argumento) não parecem ter nem os elementos nem a estrutura da narrativa. Vou defender, no entanto, que eles são narrativas cuja estratégia literária é ocultar sua narratividade (para fins de efeito poético e de efeito argumentativo, respectivamente). A narração seria, assim, a narrativa que não se esconde enquanto tal.

Quanto à estruturação (ainda não me decidi por esse termo) narrativa da realidade, consiste na tese de que dizer o que é, o que pode ser ou o que deve ser é contar uma história, mesmo que de modo implícito. Vou tentar mostrar isso com exemplos.

Na entrada "Rússia" da Wikipédia, na parte "Topologia", se lê: "O relevo é variado: dominam planícies e vales em 3/4 do território. As planícies do Leste-Europeu e da Oeste-Siberiana, divididas pelos montes Urais, são as maiores do planeta. O ponto mais elevado é o monte Elbrus, com uma altitude de 5633 metros, que é também o ponto mais alto da Europa". Essa descrição é apenas a enunciação de que qualquer narrativa que situe seu enredo na Rússia atual e que se choque com essas características é uma narrativa não plausível. Também enuncia o que posso esperar quando for à Rússia, o que quer dizer apenas o seguinte: que tipo de espaço posso esperar que sirva de contexto a uma narrativa em que a ação da personagem está situada na Rússia atual.

No começo da sua Fundamentação da metafísica dos costumes, Kant diz que a única coisa que é sempre e absolutamente boa é uma boa vontade, isto é, a vontade do agente que age não apenas em conformidade com o dever, mas por causa do dever. Essa afirmação, que à primeira vista é não narrativa, é na verdade uma forma de dizer que, na narrativa de uma ação, a condição para que a ação seja narrada como boa é que se apresente o enredo-ação como conforme a um padrão de dever e a personagem-agente como motivada pelo cumprimento desse dever. Assim, a boa vontade não é um fato sobre a ação, e sim um modo de narrar a ação. Lembrando aqui o aforismo 10 e a exclusão do "tudo pode, tudo vale", isso não quer dizer que toda ação, por mais egoísta e cruel que seja, pode ser narrada na forma de ação de boa vontade, e sim, pelo contrário, que apenas tendo em mente uma narrativa-modelo da ação de boa vontade é que é possível avaliar que certa ação foi egoísta ou cruel.

Quanto ao motivo de a realidade ser estruturada a partir de narrativas, ainda não estou certo. Pode ser porque percebemos a nós mesmos como personagens no enredo da vida, ou porque a primeira experiência de sentido do homem seja o mito, ou porque a narrativa é o tipo de discurso mais espácio-temporalizado etc. Talvez esses todos ainda sejam motivos empíricos, e eu precise de um motivo mais profundo, de cunho ou antropológico ou transcendental. Preciso pensar melhor.

3 comentários:

Débora Aymoré disse...

Oi, André. Muito interessante a continuação de sua postagem. Uma questão que ela suscita é a de como narrar a realidade tal como percebemos, já que ela mesma guarda em si elementos ou tipos de coisas tão distintas entre si. Os exemplos que você colocou evidenciam, digamos, dois tipos de elemento. O primeiro, no exemplo topológico, é aparentemente mais "concreto", pois se concentra naqueles elementos que são passíveis de uma constatação pelos sentidos. Imprecisões à parte, devido a toda a discussão sobre o empirismo, a questão da sensação e da própria possibilidade de a sensação ser compatilhada entre diferentes sujeitos percipientes, parece-me que, em sentido comum, este exemplo seria o menos problematizado. Por outro lado, o exemplo do Kant, que trata de boa vontade, que é, por assim dizer, elemento mais subjetivo em contraposição à objetividade normalmente atribuída às sensações que temos das coisas que fazem parte do mundo. Vendo os exemplos a partir desta perspectiva, haveria elementos ainda mais subjetivos, por exemplo, sentimentos (amor, ódio etc), psicopatologias (depressão etc) e, para não ficar apenas em exemplos da psique, temos ainda todos os elementos fruto da criatividade e da fantasia humanas, tais como os seres fantásticos e os mundos possíveis criados pela literatura. Da fato, me parece que o primeiro aforisma de que a realidade é estruturada literariamente, é válido, mas me pergunto (1) como manter a narrativa verossímil e (2) o que fazer com narrativas díspares, mesmo quanto àqueles "dados" dos sentidos.

Ainda em tempo: (I) talvez, ao invés de estabelecer a necessidade de presença de todos os elementos (narrador, enredo, personagens, espaço e tempo) e de toda a estrutura (apresentação, conflito, clímax e desfecho), fosse interessante pensar em combinações entre eles (inclusive com a possibilidade de presença e ausência), que, deste modo, poderiam resultar em diferentes narrativas. Não sei, é só uma sugestão. (II) Acho que existem outos caminhos além dos que você apontou para a realidade ser estruturada a partir de narrativas. Penso especialmente na centralidade da linguagem para os seres humanos, como forma de socialização, compartilhamento de experiência e comunicação relativamente eficaz sobre ela. E, além disso, na impossibilidade de acesso à coisa em si. Aproveitando que você falou do Kant.

Desculpe, acho que escrevi demais.

André Coelho disse...

Débora, fico contente e agradecido que você acompanhe e comente atenciosamente essas ideias ainda tão embrionárias das últimas postagens. Vou ver até que ponto posso responder às questões que você levantou. Ao dizer que a estrutura da realidade é literária, não tenho a pretensão de conseguir fixar quais narrativas são verdadeiras e quais são falsas ou de defender que critérios literários podem solucionar as questões profundas da epistemologia, da ética e da estética. Uma coisa que não tenho em comum com Wittgenstein é a pretensão de provar que todos os problemas da filosofia podem ser solucionados assim, num golpe de gênio, a partir de uma terapêutica linguística. Não estou propondo uma terapêutica literária. Portanto, dizer que uma descrição topográfica e uma conceituação ética, por menos literárias que pareçam ser, são no fundo tipos ou partes de narrativas não avança um só centímetro na busca da resposta das questões do que torna uma descrição topográfica verdadeira ou universalmente comapartilhável e do que torna uma conceituação ética correta ou universalmente aceitável. Essas são questões da epistemologia e da ética, e continuam pertencendo a esses campos mesmo quando se mostra que seus enunciados têm sentido literário (embora, como se verá mais tarde, as teorias epistemológicas, éticas e estéticas tenham que ser vistas sob outra luz a partir do momento que se aceita o caráter narrativo de seus enunciados). Dessa forma, a tese do meu segundo aforisma diz respeito ao sentido dos enunciados (mostrar que a narrativa está pressuposta em toda forma supostamente não narrativa de discurso), e não à sua validade (ou ao método de determinação dessa validade).

Sobre a questão da presença de todos os elementos e de toda a estrutura da narrativa, considero indispensável manter a ideia de que todos eles estão sempre presentes em todos os tipos de discurso e de que é por isso mesmo que podemos dizer que todos os tipos de discurso são inevitavelmente narrativos. Contudo, uma das minhas ideias, que talvez contemple, por uma via alternativa, a sua sugestão, é que algumas vezes existe uma "neutralização" (vou criar um nome melhor que esse para o que quero dizer) de certos elementos e de certas partes da narrativa. Por exemplo, no discurso científico, tenta-se "neutralizar" a figura do narrador, tornando-o impessoal, distante e onisciente, mas essa caracterização mesma já prova que há um narrador. Noutro exemplo, numa poesia sobre o amor o poeta normalmente vai tentar "neutralizar" o espaço e o tempo, fazendo com que seu poema figure como que suspenso no ar, numa dimensão isenta dessas determinações. Mas o chamado espaço vazio e o chamado tempo zero são também um espaço e um tempo, específicos, com traços específicos que influenciam, orientam e limitam todo fazer poético que recorra a eles. Essas ideias pretendo, sim, explorar mais tarde.

Débora Aymoré disse...

André, tenho acompanhado mesmo suas postagens sobre a narrativa e a realidade com bastante interesse, pois tenho a pretensão de conhecer melhor o assunto (nisso você me ajuda) e, além disso, contribuir, mesmo que indiretamente, para o desenvolvimento das ideias que você apresentou. Elas realmente me parecem interessantes.

Bom, comentando mais diretamente a sua resposta, creio que permanece a questão de como lidar com discursos diferentes sobre o mesmo "objeto". Pois, se na relação que você estabelece entre a narrativa e a realidade, podemos pressupor uma independência em relação à verdade ou pelo menos a verossimilhança, pergunto-me qual seria o critério não apenas de escolha, pois este é mais crítico, mas pelo menos para o debate frutífero entre diferentes narrativas. Espero que eu tenha colocado a questão de modo claro.

Além disso, queria comentar especialmente com relação a sua teoria da "neutralização". De fato, concordo com você que isso se aproximaria do que chamei de ausência de um dos elementos da narrativa, mas considerei a sua proposta muito mais interesante. Isto porquê, ela parece-me em conformidade com a ideia de gradação, que era o que eu queria dizer com presença e ausência na minha postagem, talvez sem utilizar os termos mais precisos. Entendi também a questão da necessidade de manter os elementos, para que seja possível a caracterização da narrativa, pois, uma vez que ela se apresenta das mais mais variadas formas, é realmente importante e sistemático estabelecer seus pontos em comum, inclusive para determinar o que entra ou não na categoria "narrativa".

Finalmente, uma provocação, mais do que um comentário. Se, você afasta a sua proposta de uma terapêutica literária, desconectando-a, assim, da presentesão de apresentar os elementos necessários para os discursos sejam considerados verdadeiros, qual a justificativa (interna ou externa) para apresentar um projeto como esse.

Até breve.