sábado, 17 de abril de 2010

Historia magistra vitae

Que a história é mestra da vida os antigos já diziam, mas a esse dito atribuíam um sentido político, instando os governantes a buscarem no passado as lições que os preveniriam contra os erros do presente. Até que ponto tinham razão sempre foi muito duvidoso, pois dependia de uma concepção circular da história a verdade daquela máxima e apenas com certa caridade se podia considerar aceitáveis as demonstrações dos filósofos de que esse ou aquele evento de seu tempo era a repetição deste ou daquele evento de passado mais remoto. Porque ver tal coisa dependia em grande parte de querer vê-la é que o famoso adágio, malgrado seu apelo sedutor ao espírito ilustrado, não pôde nunca ultrapassar as fronteiras bem guardadas do reino dos ensinamentos mais belos que verdadeiros ou, pelo menos, mais belos que comprovados. Há, porém, pelo menos um sentido em que a afirmação de que a história é mestra da vida é obviamente verdadeira, que é aquele em que se queira dizer que, para se formar clara ideia de quem é o homem, deve-se estudar o que ele já fez desde quando se tem notícia. Mas toda vez que se queira fazer disso mais que um truísmo banal, sugerindo que não há nada de novo sob o sol e que os homens agem hoje através dos mesmos meios e segundo os mesmos motivos que têm agido sempre em todos os tempos, começa-se a postular uma ideia unitária e imutável de natureza humana que as ciências humanas e sociais cuidaram de enterrar no cemitério das ideias superadas. Toda tentativa de reavivá-la não conta com mais chances de sucesso que os rituais de ressurreição dos mortos. Pode-se, sem dúvida, maquiar e animar um cadáver de modo que por um tempo se mova como se vivo estivesse, mas insuflar-lhe de volta a vida está além das possibilidades humanas reais.

9 comentários:

Débora Aymoré disse...

Bom dia, André. Não tenho certeza se entendi essa postagem. Em primeiro lugar, o conceito de História magistra vitae parece estar fundado na ideia de que a história, para os antigos, era cíclica. No entanto, do que adiantaria "olhar para o passado" se na história há ciclicidade e, portanto, repetição previsível para o presente e para o futuro? Em segundo lugar, e relacionado ao anterior, não analisamos o erro do passado segundo categorias presentes? Assim, não está imbutido uma ideia de que há continuidade na história e, portanto, em alguma medida o passado permanece no presente? Esta segunda tese seria aparentemente compatível com a primeira, já que na história cíclica também se postula continuidade (não necessariamente absoluta), mas, por outro lado, como surge o novo no presente e no futuro a partir do cíclico. Enfim, sei que são perguntas difíceis, mas o tema me interessa e fiquei com dúvidas depois de ler sua postagem. Desculpe não ter entendido direito. Abraço, Débora.

André Coelho disse...

Acho que você está tendo uma compreensão excessivamente determinista e fechada do que significa "história cíclica". Para que a história seja cíclica, não é preciso que ela seja a eterna repetição de fases sucessivas idênticas entre si (por exemplo, anarquia, despotismo, monarquia, oligarquia, democracia e depois de novo anarquia e etc.). Basta que, de tempos em tempos, o conjunto X de condições leve ao resultado Y (por exemplo, que de tempos em tempos as divergências internas entre classes sociais levem à desunião e ao despotismo). Também não é preciso que a repetição seja inevitável. Pode-se simplesmente conceber que, em certa situação X (por exemplo, um período de crescimento comercial), a tendência seja de que, não havendo intervenção humana em contrário, ocorra fato Y (acumulação excessiva de riqueza nas mãos da classe comerciante), levando a um resultado Z (divergências com a aristocracia e guerra civil). Isso não quer dizer que tal processo tenha que ocorrer necessariamente e que nenhuma intervenção humana seria capaz de evitá-lo ou de modificá-lo. É possível que uma intervenção humana (por exemplo, limitando a quantidade de riqueza de cada cidadão ou instituindo impostos que redistribuam a riqueza) dê um rumo distinto à sucessão histórica. Assim, a ideia de vita magistra vitae faria todo o sentido.

Débora Aymoré disse...

Oi, André. Não sei ainda se entendi. Vou tentar dar um exemplo. Em uma cidade X ocorreu uma guerra. 100 anos depois vem um político e resgata esta história para tentar elencar as causas que levaram a esta guerra. Esse intérprete poderia estar analisando isto para: (1) repetir as mesmas condições anteriores, esperando o mesmo resultado; (2) evitar aquelas condições, para que a situação de paz permaneça. Mas, em todo o caso, sua interpretação não é apenas intensional, no sentido afirmado acima, mas é anacrônica em relação ao fato, neste caso, a guerra. Em uma ideia de história cíclica, parece-me que seria de esperar que houvesse pelo uma cadeia causal que levasse para a guerra e, de fato, esta cadeia poderia receber influência dos homens, como você colocou. Mas, por que chamar isto de ciclicidade e não de causalidade? Quer me parecer que ciclicidade leva, talvez indevidamente, à ideia de repetição, enquando a ideia de causalidade apenas estabelece relação entre eventos, que podem ou não resultar em outro evento. Deste modo parece-me mais fácil pensar na utilidade do passado para o presente, pois mantém a possibilidade do novo. Estou imaginando causalidade em sentido fraco, como probabilidade, e não como necessidade.

André Coelho disse...

Sua questão é bem pertinente. Há duas maneiras de entender o que você disse: (i) como uma questão atinente a denominações, em que você considera que o nome "causalidade" seria mais apropriado que "ciclicidade" para designar cadeias de eventos cuja repetição é possível, mas não necessária, e cuja promoção ou evitamento está nas mãos do homem; (ii) como uma questão atinente a concepções de mundo, em que "ciclicidade" faz parte de uma visão mítico-vitalista de mundo e "causalidade" faz parte de uma visão mecânico-determinista de mundo. Parece-me que o motivo para manter o nome, a questão (i), está diretamente ligado às conexões com certo tipo de visão de mundo, a questão (ii).

Débora Aymoré disse...

Eu concordo que as questões (i) e (ii) estão relacionadas. É que esse problema é complicado mesmo para o historiador. Quero dizer, até que ponto podemos nos desvincular do modo de percepção presente para analisar o passado? Acho que esta é a pergunta de fundo. Eu entendo que geralmente a antiguidade grega seja classificada como mítico-vitalista, mas considero que esta generalização mesma precisaria ser investigada. Um dos problemas que vejo nesta generalização está em que ela submete à mesma categoria estruturas de narrativa bem diferentes, tais como a mitologia, a filosofia e a história.

André Coelho disse...

Mas para afirmar a tese de que a ciclicidade está ligada a uma visão mítico-vitalista e a causalidade, a uma visão mecânico-determinista, não é necessário afirmar, de modo excessivamente generalizador, que a visão antiga é toda ela mítico-vitalista, ou que a visão moderna é toda ela mecânico-determinista. Não é necessário afirmar isso também em relação à história, à filosofia ou à literatura gregas, nem mesmo em relação a historiadores, filósofos e escritores específicos. Pode-se usar ambas as visões de mundo como "tipos ideais" de visão de mundo, procedendo, em seguida, de maneira cautelosa na hora de identificar e distinguir elementos de uma e de outra nesse ou naquele período, campo, autor ou obra.

Débora Aymoré disse...

Sim, de fato. Acho que a questão é que estou preocupada com a descrição verdadeira das fontes históricas, mas tenho receio de que este seja um critério forte demais, já que a História também se trata de uma narrativa. Quanto a partir de ganeralizações também não consigo ver outra forma de como começar uma análise.

Rafael Goncalves de Queiroz disse...

Como as ciência sociais teriam enterrado a noção de natureza imutável humana? De duas uma: ou você afirma que temos uma natureza comum ou você nega que temos natureza. No segundo caso a pró´ria noção de ciências humanas se torna impossível. Mas quem escreveu o texto é tão idiota que nunca se apercebeu disso. Ele está mais preocupado em repetir asneiras academicamente respeitáveis do que em pensar a coisa a sério.

André Coelho disse...

O humanismo clássico, que propunha o "historia magistra vitae", acreditava numa natureza humana em sentido robusto: somos todos física, psíquica e moralmente os mesmos quanto às faculdades, variando no uso de fazemos delas. Esta natureza humana em sentido robusto foi derrubada pelas ciências humanas e sociais: boa parte dos atributos que se consideravam universais e naturais eram, na verdade, locais e culturalmente produzidos. Isto obriga, se ainda se quiser manter o conceito de natureza humana, a recuar para um sentido mais modesto, de características muito gerais que derivam da constituição biológica e das pressões da vida em sociedade. Essas características, contudo, não são suficientes para compor o tipo de ethos humano abrangente que era suposto pelo humanismo clássico. A história não pode ser "mestra da vida" sobre uma natureza tão vagamente estabelecida. Então, sim, talvez seja ainda possível falar de natureza humana num sentido bastante modesto - mas esse sentido não autoriza mais o uso pedagógico da história (centrada geralmente na história europeia derivada da tradição greco-romana) que o humanismo clássico achava possível.

Quanto à ideia de que a falta de natureza humana comum tornaria as ciências humanas impossíveis, você pode ter querido dizer duas coisas: ou que a natureza humana é o objeto de estudo das ciências humanas, o que seria um equívoco, porque elas estudam fenômenos humanos que não precisam supor uma natureza humana universal e invariável; ou que, embora não sendo o objeto de estudo das ciências humanas, é a existência de uma natureza humana que torna possível constituir o humano enquanto objeto diferenciado e passível de estudo - o que está correto, desde que se atenha ao sentido modesto (pós crítica das ciências humanas e sociais) de natureza humana, e não ao sentido robusto que o humanismo clássico queria propor que se aceitasse.