sábado, 17 de abril de 2010

Sobre a Profundidade

A profundidade é mais fácil de perceber que de definir. Claro que não falo da profundidade espacial, profundidade dos corpos. Falo da profundidade espiritual, profundidade das ideias e das obras humanas. O que torna profunda uma frase, uma fala, uma obra não é muito claro. Um dito como: "A guerra é má porque faz mais homens maus do que os elimina" é, sem dúvida, profundo. Mas sua profundidade não reside na sua verdade. Com dizer que é profundo não se aponta que é simplesmente verdadeiro, e sim algo mais que isso. Talvez seja inclusive possível que um dito seja profundo sem ser verdadeiro. "A virtude não requer recompensa, porque não há recompensa maior que ser virtuoso" é inegavelmente profundo, mas, confrontado com o pouco valor que a maioria dos homens dá a tal recompensa, não parece muito verdadeiro. Não me importa tanto provar que é falso, e sim mostrar que seguiria sendo profundo, mesmo que fosse falso. Isso pareceria aproximar o profundo do belo, que também não depende de ser verdadeiro. Mas aqui também se erra, porque se pode ser profundo sem ser belo. "Quem considera o homem bom e tranca sua casa desmente com seus atos o que afirma com suas palavras" não tem nada de belo (ao contrário, é de uma crueza atroz), mas é profundo, com certeza. Tem, se se quiser assim, a beleza das coisas profundas, mas isso não é beleza, e sim certo prazer respeitoso que se sente ante o que é profundo, semelhante ao que se sente ante o que é belo. Um palpite que parece estar na pista certa seria que o profundo está numa espécie de sentido percebido tardiamente, uma espécie de constatação à segunda vista, uma verdade aparente ao segundo olhar. Seria, assim, o oposto do que é óbvio: este, tão logo se enuncia, todo mundo confirma sem hesitação. Já o profundo, logo que se enuncia, parece falso, porque nega o óbvio; mas, depois que se examina melhor o enunciado, as peças que antes estavam separadas agora parecem tão encaixadas que nada mais pode separá-las. Essa é, pelo menos por ora, a minha noção de profundidade: É profunda a ideia que num primeiro momento perturba, porque se choca com o óbvio, mas, depois de reflexão, ganha a adesão do espírito. Ou ainda: profundidade é o poder que certas ideias têm de primeiro perturbar nosso espírito, chocando-se com o que é óbvio, e depois ganhar sua adesão, mediante certa reflexão.

7 comentários:

Débora Aymoré disse...

Não sei se a profundidade tem a ver com aquele momento inicial de perturbar o espírito, nem com a questão de que algo pode ser profundo, sem ser verdadeiro. Em todo o caso, não sei se é uma tese implícita na sua postagem, mas, se adotamos a perspectiva da epistemologia contemporânea em que não temos como saber objetivamente se alguma asserção é ou não verdadeira, poderíamos nos concentrar não na ideia de verdade, mas na ideia de sentido. Assim, a profundidade, de fato, não teria que se haver com o problema da "posse da verdade", mas antes com a questão de como produzimos "sentido". Por isso afirmei que não considero que, inicialmente a profundidade esteja relacionada ao estado de perturbação, como quando somos apresentados a algo do que discordamos ou a ideia sobre a qual nunca pensamos. Parece-me que a profundide tem a ver com construções sucessivas de sentido, em que o sentido que inicialmente atribuíamos a uma coisa, evento, obra ou ideia, modifica-se quando o próprio sujeito que criativamente constrói o sentido passa por novas experiências cognitivas, emocionais, vivenciais, que fazem com que ele aplie sua perspectiva sobre aquele objeto. Por esse motivo, acho que o tema da "profundidade" está relacionado ao da "amplitude", pois nossa percepção mais profunda está, parece-me, condicionada a novas situações de aprendizado capazes de aumentar nossa capacidade, fazendo com que relacionemos uma quantidade maior de ideias e, portanto, modificando o sentido que atribuímos às coisas. Ajudei ou atrapalhei? Abraço, André, obrigada pelas postagens, pois permitem a discussão de temas, que pelo menos para mim são interessantes.

Fernanda disse...

Já fazia tempo que estava sem postagens. Estou feliz de ver novos tópicos. E gostei muito! Parabéns!

Ainda não tinha pensado muito a respeito da "profundiade", mas concordo que para se falar nela, é precisso passar pelo "verdadeiro" e pelo "belo" (e ainda pelo "bom"). Acho que são elementos com mais conexão entre si e com a "profundidade" que se poderia estender bastante este tema.

Talvez ainda que as coisas profundas não mencionem diretamente o "bom", o "belo" e o "verdadeiro", é possível que elas façam o espírito remeter-se os três. Mesmo que criando intuições a respeito.

Também palavras profundas dizem mais do que a literalidade do seu significado. Por isso acho que talvez possam alcançar o "bom", o "belo" e o "verdadeiro" de alguma forma...

André Coelho disse...

Débora, entendo a sua sugestão, mas minha proposta foi captar como que a fenomenologia do profundo: o que queremos dizer (e o que ocorre conosco) quando dizemos que uma coisa é "profunda". Mais tarde prosigo essa resposta.

Ariel Castro disse...

Me deu uma saudade de você.

Um Abraço

Ariel Castro

Yúdice Andrade disse...

Meu amigo, é reconfortante voltar a ler tuas postagens. E não te esqueças: na segunda quinzena de julho estarei com a família aí em Floripa. Se estiveres na cidade, vou querer tomar um café filosófico. Um café colonial, de preferência.

André Coelho disse...

Primeiro uma resposta mais geral. Quero agradecer aos comentários da Débora, da Fernanda, do Ariel e do Yúdice. Também é reconfortante saber que, mesmo depois de tanto tempo sem postar, ainda tenho leitores assim tão fiéis. Só a amizade mesmo para explicar isso.

Agora, respostas individualizadas.

Débora e Fernanda, resolvi ampliar a postagem, para fazer-me mais claro acerca das relações entre profundo, verdadeiro, bom e belo.

Ariel, saudade de você e dos meus queridos alunos também. Estar longe das pessoas que amo e da atividade que amo são as únicas duas coisas que impedem minha estada por aqui de ser perfeita.

Yúdice, estou lembrando, sim, de sua visita e está de pé o café, que espero que seja mais que um só, para darmos espaço às nossas conversas pessoais que, no corre-corre da sala dos professores, nunca tiveram a mesma tranquilidade e agudeza que nossas conversas virtuais.

Um abraço a todos!

Yúdice Andrade disse...

Maravilha, André. Nunca fui da baladas e, agora, com um bebê em minha vida, meus programas são ainda mais comedidos. Um café, uma caminhada na Beira Mar, uma livraria, uma pedra no Costão do Santinho: tudo conclama à reflexão!