quinta-feira, 20 de maio de 2010

São as Ideias e Emoções Que São Pobres Demais para as Palavras: Argumento pelo Uso de uma Metáfora Cambial

É comum ouvir de alguém que quer compartilhar com outro uma ideia estimulante ou uma emoção intensa a seguinte frase: “As palavras são pobres demais para expressar o que eu gostaria”. Eu, que sou amante das palavras, sempre me incomodei com essa frase. Sempre me pareceu que eram as ideias e as emoções que eram confusas, incompletas, contraditórias, precipitadas, enfim, elas é que eram pobres demais para as palavras, e não o contrário. Mas, colocado em termos de se são as ideias e emoções que são pobres demais para as palavras ou se é o inverso, a questão se transforma numa variante do paradoxo de Tostines, que, para quem não viveu ou não se lembra fim dos anos 80, era o biscoito acerca do qual se levantava a questão: Vende mais porque é fresquinho, ou é fresquinho porque vende mais?, e a resposta dependia enormemente de opinião e ponto de vista. Para fugir do paradoxo de Tostines, eu criei uma metáfora, que, porque apela para a imagem de uma conversão entre moedas, chamei de “metáfora cambial”. Consiste no seguinte. Imagine que, em certo dia, existe uma correspondência exata entre R$1 e €3. Ora, nesse dia, se eu quiser converter R$3 para euros, terei €9, enquanto, se eu quiser converter €3 para reais, terei R$1. Isso quer dizer que o euro é, nesse dia, uma moeda mais forte que o real. É por isso que, ao passar de reais para euros, os valores numéricos aumentam, enquanto, ao passar de euros para reais, os valores numéricos diminuem. Quem tivesse R$9 e passasse a ter €3 teria a sensação de uma perda ou diminuição, que não seria verdadeira, e sim aparente. Quem tivesse €3 e passasse a ter R$9 reais teria a sensação de um ganho ou aumento, que também não seria verdadeiro, e sim aparente. Pois bem, aplicando esse raciocínio para a questão da conversão de ideias e emoções para palavras, minha sugestão é que, como as ideias admitem confusão, lacunas e contradições mais do que as palavras, o volume de uma mensagem é, no terreno das ideias e das emoções, aparentemente maior e, no terreno das palavras, aparentemente menor. Mas se trata do mesmo conteúdo, só que filtrado pela razão e purificado de suas imperfeições lógicas. É, recuperando a imagem cambial, como se a linguagem fosse uma moeda mais forte e as ideias e emoções uma moeda mais fraca. Temos, ao verter ideias e emoções para palavras, a sensação de perda e diminuição que temos ao converter reais para euros. Se de fato fossem as palavras que fossem pobres, elas seriam a moeda fraca e, ao convertermos ideias e emoções em palavras, teríamos a sensação de ganho e aumento que se tem ao converter euros para reais. Não sei até que ponto essa metáfora é realmente um argumento, mas é no mínimo uma imagem adequada pela qual expressar a opinião que sempre tive.

P.S. Recomendo fortemente a leitura dos comentários a essa postagem, onde a discussão se aprofunda e se refina bastante a partir das críticas.

9 comentários:

Débora Aymoré disse...

Olá, André. Paradoxo do Tostines foi ótimo, mas quero dizer que discordo da sua metáfora como uma boa explicação da relação entre as ideias e emoções e as palavras. Considero que ela funciona bem apenas se interpretarmos que o mais abrangente é pior que o menos abrangente ou, em outras palavras, que aquilo que abarca mais elementos é pior por não conseguir ser tão preciso quanto às palavras (o que nem sempre é o caso, pois há expressões imprecisas). Mas, correndo o risco de fazer uma afirmação metafísica, considero que não apenas as ideias e as emoções são de algum modo diferentes das palavras, mas também possuem papel diferente daquelas. Imaginando que cada pessoa é um universo, no sentido de que suas experiências (emoções e ideias) são particulares e o sentido que atribui a estas experiências são próprias, que ela dificilmente conseguiria verter isto em palavras, teríamos que a palavra seria uma simplificação desta experiência permitindo aos outros um acesso àquele universo subjetivo que não pode ser acessado pelos demais. No entanto, aparentemente não é isso que acontece, pois não apenas comunicamos nossas experiências como parecemos nos compreender mutuamente. Parece-me, assim, que há uma certa zona comum, um sentido comum que compartilhamos. No entanto, como pessoas podem atribuir diferentes sentidos às coisas, parece-me que este sentido comum não seria soberano, pois ele teria que se confrontar com o terreno das opiniões diferentes.

Débora Aymoré disse...

Mas, voltando para a afirmação (quase-)metafísica que fiz sobre a diferença entre ideias e sentimentos e as palavras, considero que elas, na verdade, estabelecem entre si uma relação dialética, em que sempre que as palavras tentam limitar as ideias e as emoções, estas são resistentes, ou mostram através das palavras aspectos antes não percebidos. Por outro lado, quando lemos uma poesia que trata de algum sentimento específico, podemos passar a ter ideias, relacionar este novo conhecimento com experiências passadas, de tal maneira que, neste segundo caso, foram as palavras que levaram à amplicação da experiência. Parece-me assim que, do mesmo modo que uma ideia pode ser falsa, uma expressão verbal pode também o ser, fazendo com que eu não observe nenhum tipo de precedência de um sobre o outro. Além disso, não acho que a sensação de verter ideias em palavras seja exatamente de perma, mas antes de que aquilo que antes de ser vertido em palavras era percebido como uma totalidade de experiência às vezes é mal expressado pelas palavras, o que faz com que, de fato, se observe a limitação. Porém, alguns autores literários, hábeis em lidar com as emoções, dificilmente poderiam ser acusados do mesmo tipo de limitação, que uma pessoa inexperiente literatiamente (ou com as palavras) que tentasse comunicar de modo profundo suas experiências. Enfim, não sei se consegui expressar tudo o que queria com estas palavras.

André Coelho disse...

Débora, obrigado pelo comentário. Bom, vejamos. Primeiro, a afirmação de que a linguagem é, por sua precisão e coerência, uma moeda mais forte que ideias e emoções não deve ser entendida no sentido de que toda construção linguística é mais precisa e coerente que toda ideia ou emoção que se tenha, e sim no sentido de que a linguagem é mais exigente, deixa mais claras as lacunas, imprecisões e incoerências de nossas ideias e emoções de um modo que dificilmente seríamos capazes de perceber sem a tentativa de vertê-las em palavras.

Segundo, a tal interação recíproca (que você chamou de "relação dialética") entre ideias e emoções, de um lado, e linguagem, do outro, não deve nos confundir. Palavras podem sugerir, produzir, suscitar ideias e emoções, mas palavras não são "vertidas" em ideias e emoções, como estas o são em palavras. Só cabe falar em conversão de ideias e emoções em palavras, mas não em sentido contrário.

Terceiro, a sensação que temos ao tentar verter uma ideia estimulante ou uma emoção intensa em palavras é de que as palavras não fazem jus ao que antes tínhamos. Eu chamo isso de sensação de perda ou diminuição, sim. Mas, se não quiser, não precisa chamar assim. A inadequação de que você falou já serve. Essa inadequação não é das palavras para expressar ideias e emoções, é das próprias ideias e emoções para despertar noutra pessoa a mesma reação. Quando ouvimos o que dizemos ou lemos o que escrevemos, assumimos a posição de um possível ouvinte ou leitor externo e vemos que aquilo que nos suscita tanta reação não o faria do mesmo modo num terceiro não envolvido com a situação. Não são as palavras que são fracas ou pobres, e sim as próprias coisas comunicadas por elas, que são experiências privadas, incapazes de repetir-se na outra pessoa por simples comunicação. Se fosse uma ideia genial, causaria no outro a mesma reação que em nós; se fosse um emoção vertida na forma de belo estético, causaria no outro a mesma reação que em nós. Mas, se é uma ideia ou emoção comum, uma simples experiência privada entre outras, incapaz de transcender a subjetividade que a experimenta, então, quando vertida em palavras, mostrará exatamente a pequenez que tem, da qual só não nos apercebíamos por estarmos demasiadamente envolvidos na situação.

Débora Aymoré disse...

Olá, André. Se compreendi bem a sua explicação são sempre as palavras que servem para explicitar, verter ou limitar ideias e emoções, mas, mesmo que admitamos que palavras, de um lado, e ideias e emoções, de outro, estabelecem entre si uma relação dialética, esta não seria necessariamente de que palavras são vertidas em ideias e em emoções, mantendo de certa forma a essência de sua metáfora cambial. No entanto, no caso do câmbio entre moedas, é sempre possível converter-se uma na outra e o que se perde seria, digamos, o valor de compra daquela moeda mais forte, caso convertida em na mais fraca e, aparentemente, uma ganho de valor de compra, no caso de convertermos a moeda mais fraca na mais forte. Fiquei pensando sobre isso, pois parece-me, uma vez que as moedas não tem valor em si mesmas, mas apenas um valor que lhes é atribuído (mesmo que em complexas relações econômicas), que talvez a relação de ganho e de perda no caso da conversão de ideias e de emoções em palavras seja uma perda de sentido. Digamos, assunindo que aquilo que chamei de experiência subjetiva (ideias e emoções), uma vez que se objetive (palavras), talvez não seja reconhecido mais pelo indivíduo como aquela mesma experiência, mas apenas uma parca representação da mesma. Isto parece-me importante, pois leva ao segundo ponto que me chamou a atenção na sua resposta. Haveria, então, um sentido que é atribuído pelo indivíduo a sua experiência e aquilo que é compartilhado com os demais.

Débora Aymoré disse...

No entanto, em sua resposta, você alertou que não são as palavras que são fracas ou pobres, mas antes aquilo que é comunicado por elas, ou seja, as ideias e as emoções. Bom, se compreendi bem esta distinção, poderíamos concluir que existem boas e más ideias e emoções, sendo que as boas serão aquelas que ultrapassam o limite da experiência privada e as más as que não o fazem. Sendo assim, conforme sua explicação, apenas as ideias geniais e as emoções transformadas em belos estéticos podem causas as mesmas ideias e emoções em nós. Se partirmos da pressuposição de que a linguagem é um instrumento para ideias e emoções, acho razoável imaginar que ela seria meio de toda e qualquer ideia e emoção, independentemente da qualidade daquelas. Deste modo, mesmo que comunicando uma experiência física, por exemplo, de que meus olhos fecham e depois lacrimejam quando cai areia neles, ou uma experiência altamente metafísica, por exemplo, uma ideia que finalmente pode solucionar o problema do relativismo epistemológico, encontrarei entre os meus ouvintes pessoas capazes de compreendê-lo. Quero dizer, existiriam diferentes níveis de percepção da linguagem e, portanto, das ideias e das emoções, níveis estes oriundos, por exemplo, do grau de conhecimento que a pessoa tem de obras literárias ou de ideias filosóficas. Aproveitando os exemplos que forneci, qualquer pessoa que já tivesse experimentado a reação dos seus próprios olhos quando atingidos por areia seria capaz de rememorar as emoções que sentiu, ou, caso não tenha passado pela experiência, pelo menos sem simpático em relação a dor do outro e imaginar o quão incômodo deve ser ter os próprios olhos atingidos por areia. O que quero dizer com isso é que, do modo como você apresentou a relação entre ideias e emoções boas e más, elas pareceram-me boas e más em si mesmas. E, por outro lado, que apenas a experiência válida seria capaz de despertar no outro a mesma ideia e emoção. Acho que estes dois últimos pontos precisariam ser melhor esclarecidos, pois acho que as ideias e emoções não são boas nem más em si mesmas. E que mesmo a experiência mais simples e cotidiana é capaz de despertar no outro ideias e emoções.

André Coelho disse...

Débora, bom, de fato a coisa de palavras não poderem ser convertidas em ideias e emoções, mas apenas o contrário, depõe contra a minha metáfora, porque, como você disse, é próprio das moedas poderem ser convertidas uma na outra em qualquer direção e a qualquer tempo. Também de fato o valor das moedas não é um valor em si, mas sim um valor convencional e variável, que se pode considerar atribuído (embora eu preferisse dizer atribuído "pelo sistema econômico", em vez de atribuído "pelas pessoas", mas isso é um detalhe). Mas acho que há um ponto da minha resposta a que você não deu a devida atenção no seu comentário: Encaramos nossas próprias ideias e emoções na perspectiva da primeira pessoa, mas, quando queremos comunicar, encaramos nossas próprias palavras na perspectiva de uma terceira pessoa. Ouvimos o que dizemos ou lemos o que escrevemos nos perguntando: Se eu fosse um estranho, que não estivesse envolvido com essa situação, que não estivesse pensando esta ideia ou não estivesse sentindo essa emoção, e ouvisse/lesse essas palavras, seria capaz de sentir-me do modo como eu, que tive a ideia e senti a emoção, me sinto a respeito delas nesse momento? E a resposta, na maioria das vezes, será que não. Mas isso não quer dizer que houve uma perda no conteúdo da coisa comunicada, quer dizer apenas que a coisa comunicada desperta, em quem está envolvido nela, uma reação e, em quem não está, desperta outra ou não desperta reação alguma. É que ideias e emoções são subjetivas e palavras são intersubjetivas. Verter uma experiência subjetiva em linguagem significa tentar tornar essa experiência compartilhável para terceiros que não estão passando por ela, e apenas certas construções linguísticas são capazes disso. No caso padrão, ideias e emoções que são nossas só têm o peso que têm para nós; para outros são apenas ideias e emoções entre outras. Não se trata de ideias e emoções "boas" e "más", que é um vocabulário perigoso e estranho ao que estou tentando dizer. Se trata de ideias e emoções com intensidade privada ou com intensidade compartilhável. É como se a linguagem, em vez de empobrecer as ideias e emoções, apenas fosse um meio mais transparente em que, nos obrigando a nos dessubjetivar, víssemos que aquelas ideias e emoções que, na perspectiva da primeira pessoa, pareciam intensas e relevantes são, na perspectiva da terceira pessoa, apenas ideias e emoções entre outras, experiências privadas comuns. A linguagem não empobrece a experiência privada, ela apenas a mostra como ela é: uma experiência pobre e comum, que só tem peso especial para aquele que a sente, enquanto ele a sente.

Pres. David Naylor disse...

Hello, André, this is my first comment at your blog. Well, if we do not want this debate to become just a bar talk, then we have to connect it to the most current debates in philosophy, don't we? And it seems to me that, when we do it, your argument gets completely devoid of plausibility for at least two different reasons:

i) Remembering Aristotle's old advice not to take examples and metaphors as if they were real arguments, because every example needs to be clarified in its meaning and every metaphor needs to be proven appropriate to the metaphorized thing, I would like to ask you what really matters that you have found an instance of exchange in which the apparent loss of face value is due to the higher exchange value of the final currency, if you were not able to demonstrate that we have some very good reasons to compare ideas, emotions and words with money - which you haven't done at all. Besides, your metaphor assumes that ideas and emotions are entirely exchanged into words, something very hard to support, once those complaining about the limitations of language rely on the feeling that something important is missing in the verbal formulas. Your later argument of a 1st-person and a 3dr-person view transfers the missing thing to the level of relevance, but those complaining are missing content, not relevance.

ii) More important: Your entire discussion of this issue assumes that ideas and emotions are non-verbal existent realities that would, only in a second moment, be poured into words. This sounds like a conversation hold in the XIXth century, when the subjectivist paradigm of thinking was still alive and we could speak of language as only an instrument for communication. After Husserl, Frege and Wittgenstein this is not possible anymore, because that instrumental view of language is replaced for a constitutive view of it. So, if no private language is possible, then no non-verbal ideas and emotions are possible, because saying "I'm feeling angry" or "I'm remembering my Grandfather's farm" is only possible in a linguistic code, with public and shared rules, without which we would not know what we are feeling in the end of the day. This consideration shows your entire argument as a very outdated discussion about the irresolvable problems of the Cartesian legacy.

André Coelho disse...

Caro David Naylor, obrigado por seu comentário e por sua crítica. Como você parece ter entendido bem minha postagem em português, estou me dando a liberdade de responder-lhe em português também. Fique à vontade, contudo, para escrever em inglês sempre que quiser. Na verdade, o que você disse foi tão contundente que eu fiquei sem resposta num primeiro momento. Precisei de alguns dias para digerir as críticas e formar uma conclusão sobre o assunto. Agora acho que já estou em condições de dar-lhe alguma resposta. Ei-la:

1) Na sua primeira crítica, você me acusou de ter usado uma metáfora sem ter justificado seu uso, isto é, ter comparado a conversão de conteúdos de ideias e emoções para palavras com a conversão de valores financeiros de uma moeda mais fraca em uma moeda mais forte, sem ter dado boas razões para que a comparação seja aceita como adequada. Bem, em primeiro lugar, me parece que a metáfora é capaz de demonstrar uma coisa importante: quando se trata de conversões, às vezes menos é na verdade mais. Mostrar que isso é verdadeiro em algum caso familiar dá suporte à minha tese posterior de que é isso que ocorre na conversão de ideias e emoções para palavras. A metáfora seria um pseudo-argumento se eu não tivesse dado nenhuma razão para minha tese que não ela. Mas eu dei. Disse que ideias e emoções permitem incompletudes e incoerências que a linguagem rejeita e filtra. Daí que se tenha a impressão de uma perda de conteúdo, quando, na verdade, se trata do mesmo conteúdo, vertido num código racionalmente mais exigente. Esse é o argumento central. A metáfora é apenas um recurso de apoio, para vizualização de que meu argumento faz sentido para certas experiências que já conhecemos.

André Coelho disse...

2) Em sua segunda crítica, você me acusou de ter falado da conversão de ideias e emoções em palavras como se aquelas fossem prelinguísticas, possibilidade essa que teria sido enterrada com a virada linguística. Eu considero que essa crítica é mal dirigida por duas razões:

i) Se, como você recorda, nossa compreensão de ideias e emoções já exige um código linguístico, então isso apenas tranfere o problema do quão fiel é a expressão delas nesse código do momento posterior da fala para o momento anterior da própria autocompreensão subjetiva. Se já preciso da linguagem para entender uma emoção como "Estou com raiva" ou uma ideia como "Estou lembrando da fazenda de meu avô", isso só quer dizer que o problema do quão fiel é essa tradução para a linguagem não precisa esperar até o momento em que o sujeito queira comunicar a outro seus estados subjetivos, pois já surge, no próprio íntimo do sujeito, no momento em que ele quer compreender esses estado subjetivos para si mesmo. A meu ver, isso não elimina o problema, apenas o antecipa e agrava.

ii) Mesmo considerando o que acabei de dizer, o problema relativo à comunicação em palavras de nossas ideias e emoções continua existindo. Pois uma coisa é minha autocompreensão (que, você tem razão, já tem que ser linguística) de minhas ideias e emoções, outra coisa é a comunicação (também linguística) dessas autocompreensões para outra pessoa. O problema agora se torna duplo: a) Quão boa é a linguagem como meio de autocompreensão de minhas ideias e emoções? e b) Quão boa é a linguagem como meio de comunicação de minhas autocompreensões? Supondo que a linguagem funcione bem no primeiro momento, isso não implicaria automaticamente que funcionasse bem também no segundo. Do contrário, a comunicação de nossas ideias e emoções seria sempre tão boa quanto nossa autocompreensão delas e, nesse caso, a sensação de perda daqueles que reclamam da linguagem como meio pobre de expressão de ideias e emoções teria deixado de fazer sentido. O próprio fato de haver quem reclame disso é uma prova de que a questão da comunicação é distinta da questão da autocompreensão e de que, portanto, o problema da tradução linguística das ideias e e emoções se coloca em dois momentos distintos.

A única forma de a virada linguística ter anulado a questão completamente seria se entendêssemos que ideias e emoções já são desde o princípio apenas linguagem, de modo que nada haveria de prelinguístico para ser traduzido para palavras. Mas essa é uma compreensão muito radical (o termo certo seria "metafísica") da virada linguística, que anularia a própria ideia, básica para nossa compreensão da linguagem, de que a linguagem expressa e comunica "algo" que está fora e além dela. Se tudo for linguagem, então a linguagem não expressa nem comunica nada, o que seria absurdo. A compreensão mais adequada dos efeitos da virada linguística para essa temática é de que não apenas a comunicação de nossas ideias e emoções, mas até mesmo a autocompreensão delas, tem que ser linguística. Isso quer dizer que precisamos da linguagem para compreender ideias e emoções, e não que ideias e emoções no fundo não são senão linguagem.

Espero ter respondido às críticas.