domingo, 10 de outubro de 2010

Habermas: Um Instinto Vanguardista por Relevâncias: Os Intelectuais e seu Público

Procurando por textos de Habermas, deparei-me com esse, bastante recente, integrante da coletânea "Europe: the Faltering Project", de 2009.O texto aborda a questão do declínio da relevância concedida aos intelectuais em tempos de mídia de massa e internet e do papel que os verdadeiros intelectuais ainda podem e devem procurar ter no contexto atual. O texto original está em inglês no link indicado na primeira linha da postagem e segue abaixo uma tradução em português que fiz para os leitores do Blog.


As raízes da autocompreensão igualitária dos intelectuais na Alemanha remontam à primeira geração depois de Goethe e Hegel. Os literatos inquietos e livres docentes do círculo da Jovem Alemanha ou da esquerda hegeliana nutriram tanto a imagem de intelectuais errantes, espontâneos, intensamente polêmicos, muitas vezes ebriamente sentimentais e imprevisíveis, quanto os preconceitos contra eles que persistem até os dias de hoje. Não é por acaso que a geração de Feuerbach, Heine e Börne, de Bruno Bauer, Max Stirner e Jullius Fröbel, de Marx, Engels e Kierkegaard fez sua aparição em cena antes de 1848, quando o parlamentarismo e a imprensa de massa estavam emergindo sob os auspícios do primeiro liberalismo.

Durante esse período de incubação, conforme o vírus da Revolução Francesa ia se espalhando por toda a Europa, a constelação em que a figura do intelectual moderno acharia seu lugar estava ainda começando a tomar forma. Quando os intelectuais influenciam a formação de opiniões por meio de argumentos expressos retoricamente, eles dependem de um público responsivo, alerta e informado. Eles precisam de um público com mentalidade mais ou menos liberal e devem confiar num Estado constitucional razoavelmente funcional, pela simples razão de que eles apelam para valores universalistas em disputas por verdades suprimidas ou direitos sonegados. Eles pertencem a um mundo no qual política não é sinônimo de ação estatal; seu mundo é uma cultura política de contestação na qual as liberdades comunicativas dos cidadãos podem ser libertas e mobilizadas.

É fácil esboçar o tipo ideal de um intellectual que procura por temas importantes, propõe hipóteses frutíferas e alarga o espectro dos argumentos relevantes numa tentativa de elevar o nível lamentável dos debates públicos. Por outro lado, eu não devo esconder a atividade favorita dos intelectuais, a saber, sua ânsia de juntar-se à lamentação ritual sobre o declínio “do” intelectual. Devo confessar que eu próprio não estou completamente isento desse impulso.

Como sentimos falta das grandes performances e manifestos do Grupo 47, das intervenções de Alexander Mitscherlich e de Helmuth Gollwitzer, dos exemplos políticos de Michel Foucault, Jacques Derrida e Pierre Bourdieu, dos textos combativos de Erich Fried e de Günther Grass! É realmente culpa de Grass que a sua voz hoje praticamente só encontre a indiferença? Ou é a nossa sociedade de mídia que está passando mais uma vez por uma transformação estrutural da esfera pública que é hostil aos intelectuais do tipo clássico?

Por um lado, a recalibragem da comunicação da imprensa escrita para a televisão e a internet levou a uma inesperada expansão da esfera pública da mídia e a uma expansão sem paralelos das redes de comunicação. A esfera pública na qual os intelectuais se moviam como peixes na água se tornou mais inclusiva, e os intercâmbios, mais intensos que nunca. Por outro lado, os intelectuais parecem estar se sufocando nesse meio de sobrevivência como numa overdose. A bênção parece estar se tornando uma maldição. A meu ver, isso é porque a esfera pública está se tornando mais informal e os papeis correspondentes estão ficando menos bem definidos.

O uso da internet levou a uma expansão e fragmentação das redes de comunicações. Assim, embora a internet tenha um efeito subversivo em esferas públicas sob regimes autoritários, ao mesmo tempo o enredamento horizontal e informal de comunicações diminui as conquistas das esferas públicas tradicionais. Pois estas chamam a atenção de um público anônimo e disperso em comunidades políticas para mensagens selecionadas, de modo que os cidadãos podem abordar os mesmos temas e contribuições criticamente filtrados ao mesmo tempo. O preço do bem-vindo igualitarismo devido à internet é um descentramento dos modos de acesso a informações inéditas. Nesse meio, as contribuições dos intelectuais não podem mais constituir um ponto focal.   

No entanto, a afirmação de que a revolução eletrônica está destruindo o palco para as performances mais qualificadas de intelectuais conceituados seria prematura. Pois, no mínimo, a televisão, que opera essencialmente em arenas públicas nacionais, alargou o palco para a imprensa, as revistas e a literatura. Contudo, a televisão também transformou esse palco. Ela tem que apresentar suas mensagens em imagens e tem acelerado a “virada icônica” da palavra para a imagem. Essa mudança relativa de curso também implica uma mudança de importância entre duas diferentes funções da esfera pública. Porque a televisão é um meio que torna as coisas visíveis, ela confere celebridade na forma de fama àqueles que fazem aparições públicas. Não importa em que mais eles contribuam ao conteúdo do programa, aqueles que aparecem em frente às câmeras também estão apresentando a si mesmos. Como resultado, em encontros casuais os espectadores lembram que eles já viram aquele rosto antes. Mesmo no caso de programas com um conteúdo discursivo, a televisão induz os participantes a se engajarem em autopromoção, como ocorre em inúmeros programas de entrevistas. Esse elemento de autopromoção inevitavelmente transforma o público que julga – que participa, em frente à televisão, de debates sobre temas de interesse geral – num público que também vê.  

Não que isso não alimente a vaidade patológica dos intelectuais, muitos dos quais se deixaram corromper pela indução da mídia à autopromoção, ao custo de suas reputações. Pois a boa reputação de um intelectual, supondo que ele tenha uma, não é baseada principalmente em celebridade ou fama, mas numa posição que tem que ser adquirida em seu próprio campo, seja como escritor ou como físico, em alguma medida em algum campo especializado, antes que ele faça um uso público de seu conhecimento e de sua reputação. Quando ele contribui com argumentos para um debate, ele deve dirigir-se para um público composto não de espectadores, mas de potenciais falantes e ouvintes que são capazes de oferecer uns aos outros justificações. É, idealmente, uma questão de dar e receber razões, e não de receber notoriedade por meio de uma performance cuidadosamente encenada.

Talvez seja por isso que os grupos de políticos, expertos e jornalistas convidados por um desses fabulosos apresentadores de programas de entrevistas não deixem nenhum espaço a ser preenchido por um intelectual. Não sentimos falta do intelectual porque o seu papel já é desempenhado melhor pelos outros participantes.

O apagamento das fronteiras entre discurso e autopromoção leva a uma perda de diferenciação e a uma assimilação dos papeis que o agora intelectual à moda antiga tinha que manter separados no seu tempo. Ele não devia usar a influência que tinha adquirido por meio de suas palavras para ganhar poder, e assim confundir “influência” com “poder”. Mas no panorama dos programas de entrevistas dos dias atuais, o que poderia ainda diferenciá-lo dos políticos que tem usado há um bom tempo a televisão como palco para um concurso intelectual pelo monopólio dos temas e conceitos influentes? O intelectual não é necessário como um experto. Ele deve ter a coragem de tomar posições normativas e a imaginação de adotar novas perspectivas sem perder a consciência de sua própria falibilidade. Mas o que ainda poderia diferenciá-lo dos expertos, que há muito tempo aprenderam a propor interpretações opinativas de suas descobertas em debates contra outros expertos?   

O que deveria em última instância distinguir intelectuais de jornalistas inteligentes é menos o modo de apresentação que o privilégio de terem que ocupar-se de temas públicos apenas como uma tarefa secundária. Eles devem falar apenas quando os eventos ameaçam sair de controle – mas aí devem falar prontamente, como um primeiro sistema de alarme.

Com isso chegamos àquela habilidade única que pode ainda distinguir os intelectuais hoje, a saber, um instinto vanguardista por relevâncias. Eles têm que ser capazes de preocupar-se com desenvolvimentos críticos enquanto os outros ainda estão absorvidos normalmente em suas rotinas. Isso exige virtudes bastante não heroicas:

* uma sensibilidade desconfiada a danos à infraestrutura normativa da comunidade política;
* uma aflita antecipação das ameaças aos recursos mentais da forma política compartilhada de vida;
* o senso daquilo que está faltando ou que “poderia ser diferente”;
* uma centelha de imaginação para conceber alternativas;
* e um pouquinho da coragem necessária para polarizar, provocar e panfletar.

Isso é – e sempre foi – mais fácil de falar que de fazer. Os intelectuais devem ter a habilidade de preocupar-se – mas devem ter suficiente bom senso político para não reagir exageradamente. Aquilo com que os seus críticos – de Max Weber e Schumpeter a Gehlen e Schelsky – os reprovam é a persistente acusação de “entusiasmo estéril” e “alarmismo”. Eles não devem se deixar intimidar por essa reprovação.

5 comentários:

Grazielly AB disse...

É, cautela é necessário.
Adorei o blog - estou seguindo!

Abs.

Grazy

André Coelho disse...

Obrigado, Grazy. Abs.

Fernanda disse...

Oi, André!!

Gostei muito de sua nova postagem. Mesmo sendo uma tradução, a sua iniciativa foi maravilhosa!!

Sobre o texto de Habermas, eu achei muito interessante na medida em que ele tanto descreve a situação dos intelectuais no espaço público atual, quanto prescreve algumas orientações de agir neste meio.
E para os pequeninos como eu, acho que também é válido para reconhecer criticamente tanto os intelectuais quanto as contribuições reais que eles nos apresentam...

Enfim, texto muito bom mesmo, muito obrigada mesmo por compartilhá-lo com nosco =3

Só estou esperando seus próprios comentários a ele, se já os tiver rs

Beijos!

Anônimo disse...

excellent points and the details are more precise than somewhere else, thanks.

- Joe

Anderson Alves disse...

Olá professor.
Só a título de registro.

Talvez seja mera impressão, mas me parece o texto Habermasiano, encontra semelhanças com um dos textos da coletânea da microfísica do poder de Foucault que versava sobre o papel dos intelectuais, guardadas as medidas proporções de épocas.