quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Série: Argumentos Ridículos que Você Deve Evitar e Combater (2)

"Se mostrarmos um copo com água até a metade para um pessimista e para um otimista, o pessimista dirá que o copo está meio vazio, enquanto o otimista dirá que ele está meio cheio."

Para dizer a verdade, isso não é um argumento. Um argumento é uma combinação de proposições de modo tal que uma delas, chamada conclusão, é inferida a partir das demais, chamadas premissas. Esse, a princípio, não é o caso no exemplo acima. Trata-se, antes, de figura de linguagem que recorre a uma imagem ilustrativa, algo próximo de uma símile ou de uma métafora. O modo como pessimista e otimista olham para o copo é uma espécie de símile ou metáfora de como eles olham para o mundo, para a vida e para as pessoas. Contudo, ao afirmar que ambos estão olhando para a mesma coisa (um copo com água até a metade) e vendo duas coisas diferentes (copo meio vazio / copo meio cheio), constrói-se um argumento implícito: Otimismo e pessimismo são apenas duas maneiras subjetivas diferentes de descrever fatos objetivos iguais. O engraçado é que o exemplo, que contém esse argumento implícito ao mesmo tempo bastante ingênuo (aceita a existência de fatos objetivos que independem de descrição e contra os quais as descrições subjetivas podem ser postas em contraste) e bastante cético (mostra que ser otimista ou pessimista não é uma questão de conhecer a verdade, e sim de fazer uma opção com base em predisposição ou preferência), é normalmente usado para encorajar o otimismo, como uma atitude mais "positiva" diante da realidade. Vou tentar mostrar alguns motivos pelos quais você deve considerar esse argumento ridículo e abandonar para sempre essa coisa de "copo meio cheio" e "copo meio vazio":

1. Esse argumento, em vez de mostrar, como normalmente é a intenção de quem o usa, que é melhor ser otimista que ser pessimista, mostra exatamente o contrário, ou seja, que tanto faz ser otimista ou pessimista e, mais que isso, que melhor seria não ser nem um nem outro, pois nenhum dos dois tem realmente razão. Se se diz de antemão que aquilo que se está mostrando ao pessimista e ao otimista é um copo com água até a metade, então a descrição mais verdadeira do que eles estão vendo seria exatamente essa: um copo com água até a metade. Usar as descrições "meio vazio" e "meio cheio", que são formas alternativas e equivalentes de referir-se ao copo com água até a metade, seria, segundo o argumento, não a melhor forma de descrever o que se vê, mas sim uma forma de tomar posição sobre o que se vê, de expressar seja o desapontamento e a tristeza com o copo meio vazio, seja o entusiasmo e a alegria com o copo meio cheio. Mas o desapontamento e a tristeza, de um lado, e o entusiasmo e a alegria, de outro, não estão na coisa que é vista, e sim na pessoa que vê. São, portanto, acréscimos subjetivos indevidos à realidade objetiva neutra. Quem vê o otimismo e o pessimismo dessa maneira não deveria ter nenhum motivo para preferir nem um nem outro, pois ambos seriam como que "distorções subjetivas" de uma realidade objetiva única, que seria mais bem descrita em termos neutros, que fugissem a ambas as polaridades.

2. Fornece uma má compreensão das situações a que pessimismo e otimismo se aplicam. Segundo a imagem do copo com água, pessimismo e otimismo são uma questão subjetiva, uma questão de atitude perante a realidade, a qual é na verdade bastante objetiva e neutra e, portanto, independente seja de um seja do outro. Mas os domínios em que existem controvérsias significativas entre otimismo e pessimismo são exatamente aqueles em que uma descrição objetiva e neutra simplesmente não está disponível ou não é sequer possível. Os males, tragédias e injustiças que existem no mundo são todos manifestações de um acaso cego que pouco se importa com nossos juízos de bem e de mal ou são todos partes de um plano maior e essencialmente bom de que não temos nesse momento nem plena notícia nem plena compreensão? O homem é essencialmente mau e suspeito ou essencialmente bom e confiável? A moralidade e a virtude impedem quem os tem de ser feliz ou constituem a base da verdadeira felicidade? As disposições insensíveis, cruéis e criminosas de alguns seres humanos são ocorrências casuais e estatísticas com que sempre teremos que conviver não importa o que façamos ou são o produto de processos educacionais mal sucedidos que poderiam ter sido evitados e que mesmo agora ainda podem ser revertidos? Estamos condenados a julgar sempre a partir de preconceitos formados pelo hábito e fornecidos pela tradição, sendo toda emancipação uma utopia, ou é possível servir-nos de uma razão crítica, que nos emancipa dos preconceitos e nos faz ir além dos limites de nossa cultura pessoal e coletiva? É em domínios desse tipo, onde não existe "copo com água até a metade", quer dizer, onde não existe descrição neutra e objetiva disponível, onde toda descrição já implica necessariamente a tomada de posição por uma visão pessimista ou otimista, que a oposição entre os dois pontos de vista se mostra importante e ganha realmente sentido.

3. Fornece uma má compreensão da base racional de pessimismo e otimismo. Ora, "meio vazio" e "meio cheio" são apenas descrições alternativas e semanticamente equivalentes do "copo com água até a metade". Ninguém que descreva o copo inicialmente como estando "meio vazio" e depois seja confrontado com a opinião de outra pessoa dizendo que está na verdade "meio cheio" se consideraria desafiado por essa segunda visão nem sentiria necessidade de provar que apenas a sua descrição inicial é que se aplica, sendo esta outra descrição um erro. Em vez disso, a pessoa provavelmente concederia facilmente e diria: "Sim, essa é outra maneira de dizer a mesma coisa". Isso quer dizer que a pessoa não consideraria que a outra descrição disse algo distinto do que ela havia dito antes, mas sim que disse a mesma coisa de outra forma, usando outro referencial. Mas aí é que está: Com o pessimismo e o otimismo de verdade, as coisas nunca são assim. O pessimista e o otimista consideram realmente que estão dizendo coisas distintas sobre a realidade, que a verdade do que um diz implica a falsidade do que diz o outro, que ambas as coisas se excluem reciprocamente, não podem ser verdadeiras ao mesmo tempo. Os pensadores têm discutido as questões que exemplifiquei no item anterior há pelo menos 2.500 anos, enquanto duas pessoas não debateriam sobre o copo estar meio vazio ou meio cheio nem por 2,5 segundos.

4. Descrever o copo como meio vazio não é pessimismo e descrevê-lo como meio cheio não é otimismo. Na verdade, as duas descrições partem de referenciais distintos e neutros. A primeira se baseia no referencial do copo cheio, em comparação com o qual o copo com água até a metade está "meio vazio"; o segundo se baseia no referencial do copo vazio, em comparação com o qual o copo está "meio cheio". Ambos, além de serem referenciais igualmente válidos, são referenciais neutros, que nada têm de pessimista ou otimista. Pelo contrário, quando aquele que usa a metáfora ou símile descreve a visão do copo meio vazio como pessimista e a do copo meio cheio como otimista, é ele que está sendo pessimista em relação à primeira e otimista em relação à segunda. Na perspectiva de quem está com sede e louco por um pouco de água, "meio vazio" é ruim e "meio cheio" é bom. Mas na perspectiva da criança obrigada a tomar água porque faz bem à saúde, mas já tomou mais do que gostaria e não aguenta mais tanta água, "meio vazio" é bom e "meio cheio" é ruim. Na perspectiva de quem adicionou remédio à água e precisa tomá-la de duas vezes, primeiro uma metade, depois a outra metade, "meio vazio" é tanto bom (já tomou metade, então meio caminho andado) quando ruim (ainda falta metade para fazer efeito e aplacar a doença), assim como "meio cheio" é tanto ruim (se ainda está cheio até a metade, é que parte do remédio necessária para fazer diferença ainda não foi tomada) quanto bom (se não está totalmente cheio, é que parte do remédio já foi tomada e já está agindo no organismo). É apenas em função de certos contextos e fins que "meio vazio" e "meio cheio" podem ganhar sentidos positivos ou negativos. Atribuir sentido negativo a "meio vazio" e positivo a "meio cheio" assim, sem contexto algum, sem referencial finalístico algum, é que é mera questão subjetiva de quem está descrevendo a situação.

5. Adiciona uma visão pessimista sobre o pessimismo e otimista sobre o otimismo que ambas não se justificam. O pessimista enxerga a realidade como má e o otimista, como boa. Segue-se daí que o pessimismo seja mau e o otimismo, bom? Parece bem claro que não. Há bons argumentos a favor de uma atitude pessimista (manteria mais os pés no chão e se preveniria melhor contra o mau, por já esperá-lo e antecipar-se a ele) e contra ela (provoca um estado de tristeza e tensão que torna a vida insuportável e asfixia as relações com o veneno da desconfiança), assim como há bons argumentos a favor de uma atitude otimista (causa tranqulidade e prazer, gera energia e entusiasmo e é capaz de contagiar as pessoas em volta) e contra ela (expõe demais a sofrimentos, torna muito piores as decepções e cria a frustração de que, por melhores que sejam as coisas, elas nunca sejam tão boas quanto se sonhava ou esperava que elas fossem). Sendo assim, ver o pessimismo e o otimismo como bons ou maus é, essa sim, uma questão de copo meio cheio ou copo meio vazio: ou seja, uma questão de referencial, de em que você se concentra mais e com qual atitude você se identifica mais. Isso quer dizer que a escolha entre um e outro, entre apenas pessimismo ou apenas otimismo, não parece racionalmente justificada em nenhum caso: Quando há uma descrição neutra disponível (como copo com água até a metade), a escolha por um ou por outro parece simplesmente desnecessária; quando não há descrição neutra possível, a escolha por apenas um dos dois parece precipitada e fruto mais de uma projeção de momento subjetivo ou temperamento habitual que de uma avaliação dos fatos. Na dúvida, melhor combiná-los sabiamente, a partir de doses bem medidas de experiência, iniciativa, observação e aprendizado.

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