quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Crítica da Razão Pura: Uma Visão Simplificada (1)


Introdução

Com sua primeira edição publicada em 1781 e segunda edição em 1787, a Crítica da Razão Pura (Kritik der reinen Vernunft) consta facilmente de duas listas: a lista das obras mais importantes e influentes da história do pensamento ocidental; e a lista das obras mais abstrusas e difíceis de serem lidas e compreendidas por quem não esteja temendamente familiarizado com a linguagem de seu autor. Este último é o filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804), que reconhecidamente não era tão brilhante em estilo literário quanto era em profundidade, rigor e perspicácia filosófica. Essa combinação na mesma obra entre extrema relevância e extrema obscuridade é um convite para uma postagem de apresentação e de introdução às suas ideias principais. Não tenho aqui a pretensão de mostrar que o que Kant disse em quase 700 páginas pode ser dito facilmente em 7 parágrafos claros e elegantes, mas apenas a boa intenção de fazer com que tais parágrafos sirvam de primeiro olhar sobre o conteúdo da obra e de estímulo à sua leitura posterior. Sendo assim, vamos à postagem:

Propósito da CRP

Há várias maneiras de descrever a pretensão da CRP. A que o próprio Kant sugere no prefácio à segunda edição (1787) é vê-la como tentativa de resposta à questão "Como são possíveis juízos sintéticos a priori?". Essa, contudo, não será a minha estratégia aqui. Em vez disso, adotarei a sugestão que Kant nos dá no prefácio da primeira edição (1781), formulada na pergunta: "É possível à metafísica alcançar o status de uma ciência rigorosa?". Isso exigirá que explique o que é metafísica (1), o tipo de problemas de que a metafísica tradicionalmente se ocupou (2), as respostas díspares dos vários metafísicos para esses problemas (3), a comparação da metafísica com a física moderna (4) e, finalmente, a conexão que Kant estabeleceu entre o tipo de problemas de que se ocupa a metafísica e o tipo de insolubilidade a que levam os conflitos entre as tentativas de resposta (5).

1. Digamos que a metafísica é o estudo das condições e aspectos gerais do mundo e da experiência, de tudo aquilo que uma física (enquanto estudo da natureza e de seus fenômenos) já precisa pressupor e não pode por isso mesmo responder de modo algum. Dessa definição muito magra e pobre é importante que retenhamos a informação de que aquilo que a metafísica estuda é necessário para explicar a experiência, mas não pode de modo algum ser dado na experiência. O objeto da metafísica é necessariamente um objeto que está para além da experiência possível.

2. Entre os vários problemas que a metafísica se propõe responder, alguns têm mais proeminência, por exemplo: O mundo teve um começo temporal e tem um fim espacial, ou sempre existiu e é infinito? A matéria é ou não é infinitamente divisível? Temos ou não temos uma alma e, se temos, ela sobrevive ou não após a morte do corpo? Há ou não há um Deus e, se há, como ele é e qual a nossa relação com ele? Temos ou não temos liberdade de escolha e de ação e, se temos, como ela pode ser compatível com um universo todo regido por leis causais necessárias? Há um fim para onde todas as coisas e todos os fatos se encaminham e, se há, qual é este fim? São todas perguntas dificílimas de responder, mas simplesmente impossiveis de não serem formuladas por um ser racional que reflita sobre sua vida e sobre o mundo.

3. Sobre as respostas adequadas para tais questões, no entanto, nunca houve consenso. Para cada um das perguntas acima formuladas, existem dois ou mais "sistemas" metafísicos contrapostos, cada um alegando ter a única resposta verdadeira. Há os que defendem que o mundo nunca teve início, pois, se tivesse tido início, teria que ter surgido do nada, o que é impossível; mas há os que defendem que ele teve, sim, um início, pois, se sempre tivesse existido, sua existência não teria explicação. Há os que defendem que o mundo não tem limite espacial, pois, se tivesse, o que estaria para além desse limite teria que ser o nada, o que é simplesmente inaceitável; mas há os que defendem que ele tem, sim, um limite, pois, não importa o quão grande seja o número de coisas que há nele, esse número tem que ser algum número e, portanto, tem que ser um número finito, que ocupa um espaço finito. Há os que defendem que a matéria não é infinitamente divisível, porque, se fosse, toda unidade sendo constituída de unidades menores, não haveria unidade básica alguma e nada poderia ser constituído a partir dela; e há os que defendem que a matéria é infinitamente divisível porque, se não fosse, teria que haver uma unidade final, a qual, se ocupar lugar no espaço, terá que ser extensa e, portanto, necessariamente divisível. Há os que defendem que temos uma alma, pois, se não tivéssemos, nada distinguiria um corpo vivo de um corpo morto e nada explicaria por que temos uma série de faculdades (percepção, sensibilidade, memória, imaginação, raciocínio etc.) que os corpos brutos não possuem; mas há os que defendem que não há alma alguma porque, se houvesse, ela teria que ser algo imaterial, o que quer dizer ser algo que está no mundo sem fazer parte do mundo, que ocupa lugar no espaço e decorre no tempo sem estar nem no espaço nem no tempo etc., o que é simplesmente absurdo. Há os que defendem que há um Deus, pois, se não houvesse, não teriam explicação a criação do mundo, a ordem da natureza, a origem do bem e a própria presença da ideia de perfeição e eternidade em nós; e há os que defendem que não há Deus algum, pois, se houvesse, como poderia ele ser onipotente e bom e mesmo assim haver mal no mundo?, como poderia ser ele onisciente e mesmo assim os homens terem liberdade?, como poderia haver diversas religiões diferentes adorando deuses diferentes? etc. Há os que defendem que temos liberdade, porque podemos sempre fazer ou não fazer escolhas e ações e porque, se não fôssemos livres, não poderíamos ser responsáveis por nossas ações; e há os que defendem que não somos livres, pois, se fôssemos, seríamos a única exceção num mundo todo governado por leis naturais e não poderíamos viver ou sequer fazer parte desse mundo. Enfim, para cada pergunta, há um conflito interminável entre dois partidos que defendem diferentes respostas para ela. E mais: Os argumentos de um lado e de outro parecem ser equivalentemente bons, não sendo possível fazer uma opção racional por uma ou por outra resposta.

4. Tudo isso contrastava profundamente com a física moderna, que havia estabelecido um método de investigação (o método empírico-experimental) que parecia ter a capacidade de fornecer respostas para todas as perguntas a respeito do funcionamento do mundo da experiência e que tinha obtido um sucesso exemplar na física newtoniana. Na física, então, os problemas formulados estavam dentro do espaço da experiência possível e eram solúveis de modo definitivo; já na metafísica, os problemas formulados estavam fora do espaço da experiência possível e não eram solúveis em definitivo. Ora, o projeto de Kant começa por tirar desse contraste uma conclusão mais ou menos óbvia.

5. A conclusão era: Os problemas da metafísica são insolúveis exatamente porque estão fora do espaço da experiência possível. Mas, para fundamentar uma resposta assim, era preciso construir uma teoria que dissesse: quais são os limites da experiência possível; por que os problemas da metafísica vão além desse limite; por que a razão, quando ultrapassa os limites da experiência, se vê enredada em problemas insolúveis; e por que a razão, mesmo assim, insiste em formular-se esse tipo de problema. Pois bem, a resposta a essas questões pode ser considerada a pretensão principal da CRP.

(continua)

2 comentários:

Anônimo disse...

Não vale - visão simplificada, não! Cadê o resto? Quando eu começo a pegar o gosto do post, ele acaba.
Muito feio isso seu André :(

Felipe Brasileiro Calabria disse...

Caro Andre,

Fiz um comentário recentemente sobre seu artigo Crítica da razão pura de Kant.
Na ocasição pedia como obter a continuação do referido artigo. Como não sabia mais a senha de minha conta nas contas do Google. Tive que redefini-la. Mais uma vez informo meu e-mail felipe-calabria e estou no Face, meu nome é Luiz Felipe Calabria Villar Lima
Grato,
Fico no aguardo do seu contato!
Felipe Calabria