segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Resposta do Valdenor e Pedido de Esclarecimentos Prévio à Minha Nova Resposta

Hoje, segunda-feira, dia 30, o Valdenor Júnior me brindou com uma resposta à minha tréplica, que pode ser lida no blog dele a partir deste link.

Como era de se esperar, a resposta é muito bem escrita e articulada, mas, apesar disso, talvez porque tenha um ponto de vista tão radicalmente diferente do meu interlocutor, fiquei com várias dúvidas que, antes de escrever a minha resposta, gostaria que fossem esclarecidas. Do contrário, desperdiçarei uma postagem toda enchendo-a de perguntas que poderiam desde já serem respondidas, deixando mais claro o material com que devo me engajar de fato ao escrever o próximo texto. Eis os pontos em que precisaria de esclarecimento sobre o que exatamente você, Valdenor, quer dizer ou sustentar a respeito em cada caso:

(1) Sobre razões pragmáticas para confiar na ciência: Se o motivo pelo qual confiamos no saber naturalista obtido por meio do método experimental é, no fundo, o sucesso preditivo e explicativo, então, isso levanta três questões concernentes ao naturalismo em ética e política: 1) O que exatamente você quer dizer com sucesso preditivo e explicativo em disciplinas como a ética e a política, que são normativas? Se queremos falar das coisas como elas devem ser, o que exatamente será previsto e explicado pelo naturalismo nestes campos? 2) Tomando a mesma via do pragmatismo, esta abordagem nos permite legitimar certas práticas (inclusive as ciências) em função de seus fins e resultados, mas o que é, no caso das práticas de tipo cognitivo, que limita estes fins e resultados a serem os de predição e explicação? Autoesclarecimento de nossos pressupostos e autocompreensão de nossas práticas e tradições do ponto de vista do sujeito não científico não poderiam contar também como fins e resultados dotados de valor cognitivo? E, se sim, o saber que visa estes fins e fornece estes resultados não seria também dotado de valor cognitivo? Por que apenas um tipo de fim cognitivo deveria ser preferido? E 3) Quais foram até agora os êxitos preditivos e explicativos que o saber naturalista em ética e política já alcançou e que nos encheriam de confiança, em sentido pragmático, para investir na expansão deste projeto? O naturalismo já descobriu como se torna o ser humano mais virtuoso, como se elimina o crime numa sociedade complexa, como se alcança a tolerância entre as religiões etc.? Se não isso, então, quais foram os êxitos preditivos e explicativos? Ou o naturalismo em ética e política ainda está capitalizando a partir do êxito preditivo e explicativo das ciências naturais e fazendo promessas (ou pelo menos levantando esperanças) de atingir resultados semelhantes nos domínios humanos e normativos?

(2) Sobre o saber empírico que não é científico: A ideia de que, já que os filósofos analíticos se apoiam no conhecimento comum compartilhado pelos participantes de uma comunidade de fala sobre certos conceitos, nuances e distinções, poderia ser uma boa ideia fazer um estudo de tipo naturalista sobre o que os indivíduos comuns de fato pensam sobre tais conceitos, nuances e distinções sofre de certos problemas. Ela parece ignorar a distinção entre intuições brutas (do tipo que se tem no cotidiano, sem maior reflexão a respeito) e intuições qualificadas mediante análise (do tipo que o filósofo fornece a partir da consideração de exemplos, contrastes, contraexemplos, cenários hipotéticos etc.); existe, claro, a pretensão de que o indivíduo comum seria capaz de concordar com estas intuições qualificadas, mas apenas se tivesse compreendido bem e levado em conta todos os passos de raciocínio que o filósofo perfez e levantou; não é claro como um estudo naturalista sobre como o indivíduo comum pensa a respeito de conceitos, nuances e distinções poderia ir além do nível das intuições brutas sem que os indivíduos investigados fossem devidamente instruídos sobre todos os aspectos que deveriam levar em conta e, se o fossem, parece que só poderiam sê-lo se expostos a um esclarecimento conceitual que já tivesse sido feito previamente por meio de métodos não naturalistas. Tampouco faz sentido supor que uma filosofia da linguagem comum como a de Hart deveria tomar de empréstimo a compreensão de certos conceitos tal como se construiu evolutivamente na espécie, porque, por exemplo, supondo que a psicologia cognitiva fosse capaz de identificar certa compreensão X de “regra” como a que se desenvolveu de modo dominante na espécie, não seria surpreendente se X, no entanto, se mostrasse totalmente frágil quando submetida a análise conceitual cuidadosa, sendo incapaz de resistir mesmo aos mais primários contraexemplos e críticas. Neste exemplo, como um estudo naturalista do que o indivíduo comum pensa a respeito de regras poderia ser de algum valor para uma exame filosófico sobre regras?

(3) Sobre os desafios: Gostaria de persuadi-lo a tomar com mais cuidado pelo menos os dois primeiros desafios que listei, e para tanto vou esclarecê-los melhor abaixo.

- Sobre a distinção entre conceitual e empírico: Qual é o argumento com que se prova que em ética e política as questões essenciais de tipo conceitual (o que é justiça? o que é virtude? o que conta como uma ação correta? sobre o que são os enunciados morais? podem conceitos normativos ser reduzidos a descrições empíricas? etc. etc.) podem ser respondidas a partir de uma investigação empírica? Eu entendo que as questões conceituais da ética e da política possam se beneficiar de levar em conta o conhecimento empírico relevante, mas não entendo como elas poderiam ser respondidas de modo empírico. Por favor, explique-me.

- Sobre a distinção entre normativo e empírico: Qual é o argumento com que se prova que em ética e política as questões essenciais de tipo normativo (qual o regime mais justo? em que sentido a vida de virtude pode ser preferível à de prazer, de honra e de riqueza? qual o valor das intenções para a qualificação da ação correta? e das consequências? por que é errado punir um inocente? deveríamos punir os criminosos e, se sim, com que justificativa? e com que critério? é mentir em algum caso aceitável? etc. etc.) podem ser respondidas a partir de uma investigação empírica? E aqui eu adiciono: Podem ser respondidas de modo tal que não distorça o tipo de questão que se está perguntando, pois uma coisa é saber se um sistema penal é eficiente, outra é saber se é justo, uma coisa é saber quantas mulheres morrem em procedimentos ilegais de aborto nos países que os proíbem, outra é saber se o aborto deveria ser permitido, uma coisa é saber se é mais eficaz permitir ou proibir as drogas, outra é saber se permiti-las ou proibi-las é legítimo etc. Em cada um destes pares, o conhecimento empírico ilustrado pelo primeiro membro do par é relevante, mas não por si só decisivo para a decisão da questão ilustrada pelo segundo membro do mesmo par. Então, novamente: Eu entendo que as questões normativas da ética e da política possam se beneficiar de levar em conta o conhecimento empírico relevante, mas não entendo como elas poderiam ser respondidas de modo empírico. Por favor, explique-me.

Evidentemente, estes são apenas os pontos que me levantaram dúvidas a respeito da posição que você, Valdenor, está realmente defendendo em nossa discussão. Há vários outros pontos com que fiquei insatisfeito no seu texto e em relação aos quais gostaria de tentar uma resposta à altura em minha próxima postagem. Mas preciso primeiro, e com mais urgência, que os pontos acima sejam esclarecidos.

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