quinta-feira, 13 de abril de 2017

Dicas para leitura de textos acadêmicos

Ao ler um texto acadêmico, há sempre quatro perguntas que você deve se fazer:

(1) Que problema o autor está tentando resolver?

(2) De que modo o autor pensa ter resolvido o problema?

(3) Com quem e contra quem o autor está discutindo o tema?

(4) Até que ponto o autor tem razão na formulação que fez do problema e na solução que propôs para ele?

As questões (1) e (2) são de interpretação do texto: sem boas respostas a elas, você não entendeu o que leu. O ensino médio e superior, embora enfatizem a importância da interpretação de texto, não preparam você para responder a estas duas perguntas. Eles se concentram em preparar você para repetir o que o texto disse, mais ou menos da forma e na ordem em que ele disse. Esta é uma habilidade de memorização, mas não de compreensão. Boa parte da dificuldade que os alunos têm em formular problemas e hipóteses em suas respectivas pesquisas vêm do fato de que não leram os textos que estudaram até então em função da chave pergunta/resposta. Perguntar-se, após ler o texto: “Que problema o texto tenta resolver?”, “Que solução oferece para o problema?”, “Com que argumentos sustenta esta solução?” é a melhor maneira de se libertar da estrutura e do estilo particular com que o texto está escrito e passar à compreensão genuína de seu conteúdo.

Já as questões (3) e (4) são de avaliação crítica do texto: sem uma boa resposta a elas, você não sabe que valor tem o texto, nem que razões tem para aceitá-lo ou recusá-lo, nem como ele se destaca ou é preferível em relação a outros textos sobre o mesmo tema, nem qual é a sua própria posição sobre a questão após ter lido o texto. Novamente, o ensino médio e superior não prepararam você para isso. A abordagem da maioria das disciplinas e dos professores não é baseada em comparação e avaliação à luz de razões, e sim em assimilação e reprodução de certos conteúdos, geralmente conclusões finais. E saber que tal pessoa defende tal coisa, enquanto tal outra defende tal outra está longe de ser suficiente. A questão é saber com base em que razões fazem isso, se os pressupostos de que partem são necessários ou pelo menos razoáveis, se as hipóteses empíricas são comprovadas ou pelo menos verossímeis, se as posições normativas são corretas ou pelo menos aceitáveis, se os sacrifícios que exigem são necessários ou pelo menos justificados etc.

Lidar com textos é mover-se num espaço de razões: Se você não souber quais razões estão em jogo nem até que ponto são boas ou más, você não está no universo textual, e sim ainda no pré-textual; não no sentido de que você não consegue ler o texto, mas no sentido de que não consegue colocar-se no mesmo nível em que se move o texto. Todo texto acadêmico é um convite para pensar junto, para pensar contra e para pensar melhor. É preciso que você aceite o convite e se coloque à altura dele. E neste ponto, para incrementar seu sentido crítico, vale a pena usar uma versão adaptada do falseacionismo popperiano: Se assumirmos que é característica de um bom texto ser capaz de resistir às melhores objeções, então, só saberemos se um texto é realmente bom na medida em que o submetermos às nossas melhores objeções.

Essa é uma dica importante, mas recomendo também esta outra: Geralmente, no afã de soar convincente, um autor acaba omitindo outras preocupações relevantes, tratando as teses alheias de modo hiper-simplificado e se servindo de algum expediente argumentativo para enfraquecer previamente toda crítica contra si. Neste caso, é preciso exercitar não apenas a crítica, mas também uma suspeita constante e certo faro para trapaças: “Será que era mesmo só isso que tinha que ser levado em conta? Será que não há outras preocupações relevantes e razoáveis que foram deixadas de fora?”, “Será que essas alternativas entre as quais ele fez uma escolha eram as únicas possíveis? Será que ele não está forçando um falso dilema neste ponto?”, “Será que esta foi uma versão justa das ideias do autor que foi atacado? Haveria uma talvez mais caridosa que resistisse à crítica que foi feita?”, “Será que os defensores das teses que o autor descartou não poderiam levantar boas contra-objeções? Quais contra-objeções eu mesmo levantaria se estivesse na posição de um destes autores? E como o autor lido poderia responder a elas?” etc.

É apenas desta forma que podemos passar da condição de leitores passivos para a de leitores ativos: Sendo capazes de reconstruir a tese e os argumentos do texto, em vez de apenas repetir suas ideias na mesma sequência; sendo capazes de avaliar o texto à luz das melhores razões e da comparação com outros, em vez de apenas assimilar quaisquer que tenham sido as ideias do texto (ou rejeitá-las por simples discordância intuitiva, o que, em matéria de falta de boas razões, dá no mesmo). Estas são capacidades indispensáveis para tirar o melhor proveito de sua experiência acadêmica na graduação e na pós-graduação.

Nenhum comentário: