quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Série: Argumentos Ridículos que Você Deve Evitar e Combater (1)

"Por que não acreditar em Deus (na alma, no amor, na lei moral etc.)? Apenas porque ninguém nunca viu? Mas o ar (a gravidade, a eletricidade, o átomo) também ninguém nunca viu, e nem por isso dizemos que não existe."

Esse argumento é ridículo pelos seguintes motivos:

1) Compara a existência de seres não físicos com a existência de fenômenos físicos. O fato de não se poder ver Deus, a alma, o amor, a lei moral deriva da própria natureza desses seres, enquanto o fato de não se poder ver o ar, a gravidade, a eletricidade, o átomo deriva das limitações da visão humana. Se a acuidade do olho humano fosse maior ou a interação entre a luz e a visão fossem diferentes, seria possível ver todos os fenômenos físicos do segundo grupo, enquanto os seres não físicos do primeiro grupo não poderiam ser vistos sob hipótese alguma.

2) Abriga o seguinte raciocínio tosco: Se há fenômenos que não podemos ver, mas em cuja existência acreditamos, isso é um bom motivo para dar crédito a hipóteses sobre outros seres que também não podemos ver. Esse argumento é totalmente falacioso. Converte o fato de não podermos ver certos seres em motivo para acreditarmos que eles existem, o que é simplesmente absurdo. Se for entendido em sentido mais fraco, como dizendo apenas que não os vermos não é motivo suficiente para descartarmos sua existência, então está dizendo o óbvio, dada a natureza desses seres, ao que já nos referimos no item anterior.

3) Acaba contribuindo para o contrário do que você quer provar. Se, para provar que existem seres que não vemos, você precisa recorrer a fenômenos físicos invisíveis, você está com isso reforçando a ideia de que os únicos seres de cuja existência podemos ter certeza são os físicos. Ou seja, para argumentar, você está recorrendo ao preconceito fisicalista que o seu argumento quer em tese refutar. É como querer argumentar pela igualdade entre homens e mulheres e dizer "Não se deve deixar de contratar mulheres, pois elas são tão produtivas quanto os homens", o que, embora sendo verdade, é irrelevante a partir do momento em que você tenha assumido que é justo dar iguais oportunidades a ambos os sexos, conclusão que deveria ser independente de qualquer mensuração de produtividade.

4) Ignora que a existência de fenômenos físicos invisíveis se baseia na constatação de fenômenos visíveis que não seriam explicáveis sem a suposição de fenômenos invisíveis que os causam. Assim, por exemplo, a queda dos corpos, a atração de partículas, as órbitas dos planetas etc. são todos fenômenos visíveis que só podem ter uma explicação coerente e unitária por meio da suposição de uma lei de gravidade. Mas o mesmo não acontece com seres invisíveis como Deus, a alma, o amor, a lei moral etc., que não são indispensáveis para a explicação de nenhum fenômeno físico visível, exatamente porque, não sendo seres físicos, não são capazes de causalidade física. No espírito do item anterior, você estará na verdade argumentando contra a sua causa, pois comparará os seres invisíveis cuja existência você defende com fenômenos físicos invisíveis cuja existência pode ser indiretamente testada e comprovada, criando para você mesmo um ônus de prova a mais e dando um belo contra-argumento ao adversário. 

5) Há um argumento muito mais eficaz, que é dizer o seguinte: "Quando falamos de 'existência', geralmente nos referimos à 'existência' de objetos físicos e visíveis, como uma mesa, uma casa ou um cachorro; para essas coisas, 'existir' é ocuparem um lugar no mundo, serem captáveis pelos sentidos etc.; mas restringir a isso o sentido de 'existência' é um preconceito fisicalista, porque na verdade há várias outras coisas que 'existem' de outras maneiras: relações 'existem' na percepção (maior, menor), na apreciação (mais belo, mais feio) ou no raciocínio (mais coerente, menos coerente); números e figuras geométricas 'existem' apenas como ideias matemáticas; nosso passado 'existe' como lembrança, nosso futuro, como imaginação; assim, para cada tipo de coisa que estivermos considerando, devemos julgá-lo segundo o tipo de 'existência' que lhe é apropriado, em vez de impor a todos o tipo de existência próprio apenas de um domínio particular de objetos". Esse argumento (que não prova que Deus, a alma, o amor, a lei moral etc. existem, mas apenas que serem ou não visíveis não é o critério apropriado para julgar de sua existência) atinge o mesmo propósito, sendo, contudo, irretocável e extremamente difícil de ser refutado.

4 comentários:

Édissa disse...

Gostei da proposta de fazer uma série de posts sobre argumentos ridículos. Esse primeiro foi interessante, espero os próximos!

André Coelho disse...

Obrigado, Édissa. Essas postagens pelo menos direcionam positivamente a minha revolta ao ouvir esse tipo de barbaridade. Se quiser, pode dar sugestões também. A biodiversidade de argumentos ridículos é muito ampla, então ideias certamente não vão faltar.

Anderson Alves disse...

Muito boa postagem! Aliás, penso que um sério agravante do argumentos ridículos, encontra-se, na pressuposição de verdade inquestionável na qual o interlocutor se utiliza, de forma que, se o argumento ridículo fosse, apenas, um elemento de retórica não refletida, seria menos absurdo e menos grave.
Porém, os absurdos estão tão arraigados ao senso comum, que refutá-los parece absurdo ao interlocutor que lança mão de tais, quando na verdade, o absurdo está em utilizá-los em uma discussão séria.
Portanto, os argumentos ridículos, são absurdos ao quadrado, 1- Porque suas bases de analogia são insólitas e superficiais, 2- As pessoas realmente acreditam que aquilo é um argumento convincente e sobretudo, inquestionável.

Acho que uma extensão pertinente do post, caberia a como parecem sedutores os argumentos ridículos, do ponto de vista neurológico, se eles existem até hoje, algo de especial deve ter ajudado a seleção natural a preservá-lo, o quanto das religiões tem contribuição nisso?

Abçs!

Vitor Marcellino disse...

Belo post. As Teorias da Argumentação são descohecida pela maior parte dos discentes do curso de direito, mesmo o argumento sendo a espada do advogado.
Muito bom mesmo.
Parabéns.