terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

"Ser e tempo", de Heidegger (II): O Dasein (Ser-aí)


(Essa postagem dá seguimento a uma postagem antiga do Blog sobre Ser e Tempo, que você pode ler aqui. Escrevi-a em resposta a muitos pedidos para dar continuidade àquela abordagem da obra de Heidegger, mas, devo alertar, essa postagem é mais algo assim como um esboço, um panorama superficial, apenas para que o leitor do Blog não fique sem uma primeira introdução ao assunto. Espero que seja de alguma utilidade mesmo assim)

Segundo Heidegger, em Ser e Tempo, a pergunta sobre o ser não deve se basear no ser daquele ente que são as coisas, que consiste em simples presença no mundo, mas sim no ser daquele ente que é o homem, o único ente capaz de fazer-se a pergunta sobre o ser. O ser do homem não consiste numa simples presença no mundo, e sim num Ser-aí (Dasein), o qual pode ser definido a partir dos seguintes elementos:

- Trata-se um projeto indefinido, autodirigido e perpetuamente inacabado: O homem, ao contrário de uma faca, uma cadeira ou uma casa, não tem essência, no sentido de um conjunto pré-definido de propriedades e atributos que ele deve adquirir ou conservar para aí sim ser de fato um homem. O homem tem existência, no sentido de que está constantemente definindo que tipo de coisa ele é.  O que ele é ele mesmo é que define. E essa definição é sempre projeção. Trata-se antes do que se quer ser e como chegar até lá. E não existe linha de chegada. Todo ponto final é ponto de partida de uma nova projeção. O homem está condenado a ser esse “espaço vazio” que pode conter e buscar qualquer projeção, mas jamais pode se deixar definir ou aprisionar inteiramente por ela. Mas essa projeção está sujeita a três condições (que são também limites), quais sejam:

i) O Ser-aí é um ser-no-mundo: A primeira condição (e também o limite) dessa projeção é a facticidade, quer dizer, aquele conjunto de circunstâncias que fazem com que um homem em particular projete certas coisas, e não outras, e seja capaz de alcançar certas projeções, e não outras. A facticidade (essa possibilitação, direcionalidade e limitação que o mundo em volta do homem exerce sobre suas projeções) se dá porque ele é um ser-no-mundo. Para Heidegger, não há que falar em homem em abstrato, fora de uma situação mundana específica. Ser homem é estar numa situação mundana em particular (nisso consiste sua “mundanidade”), situação a partir da qual certas projeções são possíveis (mundanidade como condição), mas a partir da qual também certas projeções se tornam impossíveis (mundanidade como limite). Para usar um exemplo simples de que parte da definição do homem é sua mundanidade, pense em como ser homem no Antigo Egito e ser homem no mundo atual são coisas distintas: não são ambos versões diferentes de um ser-homem em abstrato (o qual seria inclusive inconcebível), e sim duas coisas distintas, o ser-homem-no-Antigo-Egito e o ser-homem-no-mundo-atual. Para usar um exemplo simples de como a facticidade afeta as projeções, basta ver como o projeto de ser um ativista político influente não seria possível no Antigo Egito, enquanto o projeto de ser Faraó não seria possível hoje.

ii) O Ser-aí é um ser-com-os-outros: A segunda condição (e também o limite) dessa projeção é o mundo-da-vida, quer dizer, aquela rede de crenças, valores e afetos compartilhados pelos homens que vivem em certo meio social, rede que serve ao mesmo tempo de matéria-prima das projeções e de limite para elas. O homem é um ser social, não no sentido essencial de que ele quer ou precisa viver em sociedade, e sim no sentido existencial de que a definição de em que consiste seu Ser-aí se alimenta (como continuidade, renovação ou oposição) de uma massa de imagens e motivos que já existem antes dele e no qual cada homem se vê mergulhado ao fazer parte de um mundo social. Até mesmo a projeção de ser um eremita isolado só se torna possível a partir de certo mundo-da-vida no qual é possível pensar a figura do eremita como uma figura dotada de sentido. O “espaço vazio” do ser do homem precisa ser preenchido com sentidos, e sentidos são construídos, interpretados, mantidos e transformados socialmente. Esse mundo-da-vida como condição e limite existencial do homem é o ponto de partida da noção de “tradição” no mais famoso seguidor de Heidegger, Hans-Georg Gadamer. (Outro ponto importante, que vou apenas apontar aqui sem desenvolver, é o contraste entre a instrumentalidade das coisas, derivada do ser-no-mundo, e a não instrumentalidade dos outros, derivada do ser-com-os-outros, que, para Heidegger, tem não apenas as relevantes consequências éticas que Kant já havia apontado, mas também consequências existenciais para o tipo de projeto que é possível num mundo que se enfrenta em concurso com outros.)

iii) O Ser-aí é um ser-para-a-morte: A terceira condição (e também o limite) dessa projeção é a finitude temporal que se impõe a partir da consciência e certeza de que se vai morrer um dia. O perpétuo projetar não é eterno projetar: é constante por toda a vida, mas dura apenas enquanto durar esta última. A morte em si é só mais um elemento da facticidade, mas a consciência e certeza da morte é outra coisa completamente distinta. Sem consciência e certeza da morte, não existiria urgência nem de projetar nem de realizar os projetos projetados. Tal urgência só se mantém, além disso, porque a consciência e certeza da morte não implica consciência e certeza da data da morte. Pode-se ser jovem e morrer amanhã, ou ser velho e viver mais vinte anos. A consciência e certeza de uma morte certa em data incerta é que pressiona todo o período de vida a ser constantemente realização de um projeto. Existe, é claro, na chamada “civilização” uma série de mecanismos para inibir essa força opressora da morte, mas o ser-para-a-morte do homem, mesmo quando este está entorpecido por falsas certezas de completude e por temporários esquecimentos de sua mortalidade inevitável, nunca deixa de irromper de tempos em tempos na forma da experiência existencialmente liberadora da angústia. A angústia reconecta o homem com seu ser-para-a-morte e faz com que se relembre da sua incontornável condição de Ser-aí.

O desenvolvimento pormenorizado dessa “analítica existencial”, ou seja, dessa enumeração e revelação das condições (e limites) do Ser-aí do homem, enquanto ente que se faz a pergunta sobre o ser, é o que permite a Heidegger inverter o sentido tradicional da relação entre Ser e Tempo (a relação que dá nome ao livro). Se, na tradição ocidental, sob impulso de Parmênides e a partir do cânone de Platão, o tempo, como promotor do devir (o vir-a-ser, a mudança) havia sido sempre pensado como aquilo que é contrário ao ser (pois o ser, inspirado no ser dos entes que são as coisas, é aquilo que não muda, sempre permanece igual e idêntico a si próprio), agora, a partir da reflexão de Ser e Tempo, era possível visualizar o tempo como a condição sem a qual não existe o ser, desde que este seja entendido a partir do ser do ente que se pergunta sobre o ser, isto é, a partir do ser do homem, o Ser-aí. Só no tempo é que o Ser-aí pode se projetar, só no tempo é que pode se enfrentar com o mundo em busca de seu projeto projetado, só no tempo, e na consciência do tempo e certeza da morte, é que pode reencontrar o sentido de seu Ser-aí para além de toda ilusão ou esquecimento. O tempo deixa de ser o temido inimigo do ser e passa a ser – de agora em diante – seu aliado necessário.

31 comentários:

isabella disse...

estava lendo o livro ser e tempo e dei de cara com a confusa maneira de heidegger descrever seus pensamentos, e corri atrás de algum lugar que pudesse me passar suas idéias de uma maneira um puco mais objetiva, e você conseguiu! estava empacada com a questão do ser-aí e o ser-com, mas agora esclareceu tudo :3 parabéns pela capacidade de raciocínio e reflexão! Gostei muito de que li, bem esclarecedor :D

André Coelho disse...

Obrigado, a intenção era essa mesmo, introduzir sem complexidade, dar um panorama inicial para quem está querendo se aproximar dessa obra tão difícil. Abraço!

Anônimo disse...

Excelente texto!

André Coelho disse...

Obrigado. Volte sempre!

Baiguar disse...

André meu camarada, muito boa sua explanação do texto e de seu entendimento e discernimento a respeito do que a obra de Martin Heidegger proporciona a seus leitores. Sou estudante de filosofia pela UEFS e tenho uma excelente professora que "destrincha" Heidegger como ninguém. Mas você foi um dos poucos que, com entusiasmo e domínio, conseguiu passar essa segurança no entendimento do texto e obra do genia filósofo alemão. Invejo seus alunos. Um abraço e sucesso.

André Coelho disse...

Nossa, Baiguar, agradeço muito pelo elogio, especialmente vindo de alguém que teve oportunidade de ter aulas com uma verdadeira especialista. Minha intenção foi mais modesta, foi apenas de apresentar em versão sumária algumas ideias importantes da obra, de modo que todos que lessem a postagem pudessem ter alguma ideia do que encontrariam no texto em si. Mas isso, claro, não dispensa a consulta a verdadeiros especialistas, como deve ser a sua professora. Obrigado pela visita e volta sempre.

vitcard disse...

Muito bem resumido, foi de uma grande ajuda par aum trabalho que realizei. Obrigado e parabéns!!

Fellipe Madeira disse...

Excelente texto introdutório do pensamento de Heidegger. Abraço

Anônimo disse...

Excelente texto! eu estava justamente procurando um texto que me permitisse entender melhor o pensamento de Heidegger e não estava conseguindo achar. Você explicou tudo muito bem!

Anônimo disse...

Parabéns! poucos conseguem compreender tão profundamente o significado da filosofia heiderggeriana, e bem menos ainda apresentá-la com a clareza que você nos legou...
Muito obrigada.

André Coelho disse...

Compreender profundamente eu não digo. Toda vez que vejo escritos, palestras e vídeos de Hubert Dreyfus falando sobre o autor fico ao mesmo tempo encantado com as possibilidades de Ser e Tempo e envergonhado de ter uma postagem em meu blog dedicada à obra sem ter aquele grau de profundidade filosófica. Contudo, brevidade, clareza e visão de conjunto era o que eu estava buscando mais com essa publicação e, em alguma medida, consegui.

Andressa A. disse...

Muito bom o texto. Estou estudando para o vestibular e precisava de noções básicas e rápidas sobre a teoria de Heidegger. Me ajudou muitíssimo, obrigada! :)

André Coelho disse...

Agora fiquei curioso: Há algum vestibular que cobre Heidegger como conteúdo obrigatório do programa de filosofia, é isso?

Andressa A. disse...

Mais ou menos... O vestibular (na verdade, a 3ª fase do Sistema de Avaliação Seriado - SAS) da Universidade Estadual de Goiás (UEG) incluiu o Existencialismo no conteúdo de Filosofia deste ano e citou (no edital) Heidegger como um dos nomes a serem estudados para a prova, como conteúdo obrigatório.

Adriana Reis. disse...

Putzzz li e reli e só agora entendi... UFRRJ. Obrigada!

Alemão Barra mansa disse...

Parabéns, estou cursando história pelo Cederj, e estava com muita dificuldade em entender a filosofia de Heidegger, com sua ajuda, agora ficou mais bem mais fácil compreende-lo. Nas palavras de March Bloch "vc sabe falar, no mesmo tom, aos doutos e aos estudantes" Parabéns.

Anônimo disse...

André, adorei o seu texto. Explica de forma simples a complexidade em volta da leitura de Heidegger. Muita obrigada. Me ajudou bastante. =)

Manú.

Thiago Rodrigues disse...

Muito bom! Esclarecedor... Realmente é uma obra difícil de ler e compreender... Abraços!

Anônimo disse...

Não vi diferença entre ser-no-mundo e ser-com-os-outros. A tal rede de crenças, valores e afetos compartilhados (ser-com-os-outros) é condição e limite do ser-aí tanto quanto os exemplos dados na parte do ser-no-mundo. Na verdade, ser-com-os-outros é apenas um caso particular de ser-no-mundo, porque "os outros" estão no mundo, penso eu. Ademais, ser-para-a-morte também. Porque só percebemos a finitude da vida porque aprendemos culturalmente. E, aliás, para certas religiões esta vida é apenas um estágio de uma vida eterna, de modo que a ideia neste 3o tópico não me convenceu. O que o senhor acha? Outra coisa: o que Heidegger diria sobre a ideia de Aristóteles de que o ser é a substância, ou seja, aquilo que tem uma causa formal, uma material, uma eficiente e uma causa final? A teoria dele, pela sua explicação, não parece negar essa "fórmula geral" do Aristóteles.

Anônimo disse...

Outra -- sou o mesmo cara de cima: E Heidegger responde o que é o ser, afinal de contas? E por que só o homem existe? Parece-me circular: "quem existe é quem pergunta sobre a existência; o homem se pergunta sobre a existência, logo, ele existe". Ora, a resposta dele está na própria premissa que ele escolhe. Um cachorro e Marte não existem? Seriam apenas "criações" de nós, humanos, que existimos -- ou do ser-aí, vá la? Por que? Apenas porque não perguntam sobre a própria existência? "Ser" então é perguntar sobre a existência? De onde ele tirou isso? Parece-me um pressuposto. É essa a grande conclusão de Heidegger, seu próprio pressuposto? Ou a sua grande conclusão é que a realidade humana é limitada pelo contexto ou pela cultura? Sim estou sendo irônico. Obrigado.

Anônimo disse...

Ótimo. esclarecedor.
Dani.

Grácio Reis disse...

Kant lá
que canto eu cá
Hiedeggernianamente falando.

Gracio Reis

André Coelho disse...

Anônimo das 15h12 e das 07h48: Talvez você possa dizer que ser no mundo, com os outros e para a morte são todos, no fim das contas, aspectos da facticidade do ser, isto é, do fato de ele estar no mundo sob condições que limitam e orientam suas projeções. Isto não estaria errado, penso eu. Mas ainda assim valeria a pena distinguir entre eles porque um ser extramundano não teria nenhum deles, um ser mundano, mas solitário e imortal, só teria o ser no mundo e um ser mundano e cultural, mas imortal, só teria o ser no mundo e o ser com os outros. Então, como são elementos distintos no pacote da facticidade, com consequências distintas para o modo de ser do Dasein, eles merecem ser listados separadamente. Sobre o ser como substância, de Aristóteles, Heidegger pensa, em primeiro lugar, que ela não é uma resposta sobre o que é o ser, e sim uma resposta sobre as condições de existência dos entes (e de alguns em particular); e pensa, em segundo lugar, que comete o erro de tomar como modelo do ser o ser dos entes inanimados como objetos e corpos - na medida em que deixa de fora da definição do ser os atributos que definem o ser do Dasein, a abordagem aristotélica não pode ser considerada satisfatória.

Quanto ao aparente pressuposto arbitrário de considerar ser apenas aquilo que se pergunta sobre o ser, trata-se de um equívoco de interpretação: a prioridade do Dasein não serve para determinar quais entes são, e sim em que consiste o ser dos entes. Ele escolhe o ente dotado do mais rico tipo de ser (o que chega a fazer-se a pergunta sobre o ser), não porque negue qualquer ser aos outros entes, mas porque rejeita que estes outros entes tenham um tipo de ser que sirva de modelo para entender o mais rico. Trata-se de usar o mais rico para compreender todos, inclusive os mais pobres, por contraste. Então, fique tranquilo, que o ser do cachorro e de Marte continuam assegurados.

Heitor disse...

Na primeira postagem você escreveu que ser é existir, que o que é existe. Porém em Ser e Tempo Heidegger coloca que a existência pertence somente ao dasein. Devo presumir que ele emprega o termo existência com outra conotação? E ainda, gostaria de saber se as coisas metafísicas como alegria, justiça, coragem ou coisas imaginárias são
Agradeço desde já pela atenção.

André Coelho disse...

Sim, é precisamente o que você presumiu. Quando, mais adiante, Heidegger já tiver dito que o que até então se chamou de "ser" era no fim das contas apenas "presença" (Präsenz = ocupação de lugar no tempo e espaço), ele reservará o termo "existência" (Dasein = ser-aí, estar situado na facticidade do mundo e projetar-se a partir e contra ela) para o tipo de "ser" do ente que se faz a pergunta sobre o ser. Além disso, sim, estados de espírito como alegria e entes imaginários como unicórnios também "são", embora cada um num sentido diferente. Há requisitos que algo precisa preencher para ser um estado de espírito ou um ente imaginário, requisitos diversos da "presença" (no sentido de "presença", eles não "seriam") e da "existência" (no sentido de Dasein, eles também não "seriam"). Mas eles "são" enquanto modos de ser e de relacionar-se do Dasein.

Heitor disse...

Para Heidegger a vida do homem enquanto Dasein se inicia na concepção ou só quando ele adquire consciência do mundo ao seu redor? E ela acaba quando o mesmo morre, ou seja ele deixa de "existir"?

André Coelho disse...

Heitor, vamos continuar esta conversa por email? Escreva para mim: andrescoelho@uol.com.br

Heitor disse...

Certo.

Edilson Jonas disse...

o que e o ser e o que e o tempo segundo heidegger?

Anônimo disse...

muito esclarecedor.

Anônimo disse...

tem como alguem me explicar na linguagem do dia a dia ?