quarta-feira, 16 de julho de 2008

"Ser e tempo", de Heidegger (I)

Os livros de filosofia costumam carregar a fama de serem difíceis. Nós, o público leigo, costumamos pensar neles como longas digressões sobre coisas muito abstrusas numa linguagem que as torna ainda mais inacessíveis. Embora essa imagem, na maioria das vezes, seja falsa, sendo apenas o caso de que não damos a esses livros a chance devida para nos seduzirem e nos aprisionarem, no caso de "Ser e tempo", de Heidegger, aquele estereótipo do texto truncado, que nos causa dor de cabeça e desespero durante a leitura, não está longe da verdade. Heidegger era um gênio, sem dúvida, com idéias revolucionárias e robustas, mas não era um autor particularmente preocupado em fazer-se entender fora do círculo de filósofos profissionais que conviviam com ele. Por isso, sua linguagem, excessivamente abstrata e parcamente ilustrativa, representa um obstáculo real na tarefa de acesso à sua filosofia. Gostaria, se possível, de prestar aqui uma humilde contribuição a essa tarefa, introduzindo de maneira mais palatável algumas de suas idéias principais.

"Ser e tempo" aborda de maneira original uma das mais antigas questões da filosofia: a questão do ser. Vou, inicialmente, dizer do que se trata essa questão, que, embora seja bastante abstrata, depois de compreendida se revela fundamental.

No nosso dia-a-dia, falamos de muitas coisas que existem. Falamos de coisas que têm existência objetiva, como cidades, ruas, casas, carros, roupas, relógios, mesas, cadeiras, telefones celulares etc. Falamos também de pessoas, de homens, de mulheres, de brancos, de negros, de crianças, de adultos, de jovens, de idosos etc. Falamos também de relações, de perto, de longe, de maior, de menor, de mais belo, de mais rápido, de mais barato etc. Falamos ainda de coisas cuja existência é subjetiva, como pensamentos, sentimentos, lembranças, imaginações, sonhos, ilusões de ótica etc. Falamos, finalmente, de coisas cuja existência é cultural, como valor da moeda, movimento da bolsa de valores, conhecimento, arte, religião, prestígio, honra, virtudes etc. São infinitas coisas de muitos tipos diferentes, mas que têm em comum o fato de que podemos falar delas como coisas que existem ou não existem.

Essa "existência" é o fenômeno que a filosofia chama de "ser". As coisas que "são" são as coisas que "existem", as que "não são", as que "não existem". Porém, que significa existir e não existir? Ou, como agora vamos falar, que significa ser ou não ser? (Aqui talvez lhe venha à mente a famosa fala da personagem Hamlet, na peça homônima de Shakespeare: "Ser ou não ser: eis a questão", mas o príncipe da Dinamarca se perguntava sobre se era melhor continuar vivendo ou dar fim à sua vida, e não sobre a questão do ser no sentido filosófico que estamos abordando.)

Para uma mesa, por exemplo, ser significa ocupar certo lugar no espaço e no tempo(ser como ser, em geral, alguma coisa no mundo) e ter certas propriedades comuns a todas as mesas (ser como ser, em especial, uma mesa). Mas essa definição de ser não serviria, por exemplo, para um pensamento, ou para uma relação. O pensamento existe na subjetividade do pensador, enquanto a relação existe na percepção de quem a contempla. A coisa pode ficar ainda mais difícil se falarmos de memórias, de ilusões, de miragens, de sonhos etc.

Tomemos a frase seguinte: "Unicórnios não existem". O que significa dizer que tais seres "não existem"? (Aqui convém distinguir entre não existir enquanto entidade concreta e não existir enquanto conceito, pois os unicórnios, enquanto conceito, existem, do contrário a frase "Unicórnios não existem" não poderia ser formulada. Também convém distinguir entre existir enquanto entidade concreta no mundo real e existir enquanto entidade concreta num mundo fictício, porque, num conto de fadas, por exemplo, um unicórnio pode perfeitamente existir não apenas enquanto conceito, mas também enquanto entidade concreta, como, por exemplo, o animal em que a mocinha monta para fugir de seus perseguidores.) Significa que nunca ninguém viu um unicórnio? Ora, mas nunca ninguém viu o ar, ou a gravidade, ou a raiz quadrada de dois, e todas essas coisas existem. (Embora aqui seja aconselhável chamar a atenção para o fato de que o ar, a gravidade e raiz de dois são coisas cujas propriedades não implicam a possibilidade de serem vistas, enquanto unicórnios, se existissem com as propriedades que se atribuem a eles, certamente teriam que poder ser vistos. Por isso, nunca se ter visto um unicórnio tem uma relevância diferente de nunca se ter visto coisas, como o ar, a gravidade e a raiz de dois, cuja natureza inclui a característica de não serem visíveis.) Significa que não há entidades concretas que preencham as condições para serem reconhecidas como unicórnios, quer dizer, que não há nenhum cavalo com um chifre frontal? Talvez, mas essa explicação contém a expressão "não há", que é apenas uma variante de "não existe", que é exatamente o que queremos explicar.

Passando de unicórnios para coisas mais sérias: Os átomos, eles existem? Bem, existem teorias sobre os átomos, modelos de sua estrutura, funcionamento, relação entre si. Existem milhares de teorias e pesquisas que pressupõem a existência desses átomos e milhares de aparelhos tecnológicos que funcionam a partir dessa suposição. Mas os átomos não são objeto de percepção, como as hemáceas e os leucócitos, que podem ser vistos ao microscópio. Como se poderia provar que eles não são apenas entidades hipotéticas, cuja pressuposição de existência nunca foi refutada por um teste empírico? Como se poderia provar que, além de serem supostos como existentes em teorias que são empiricamente bem-sucedidas, eles realmente existem? Bem, isso depende da resposta que se tenha para a questão do que signficam "ser" e "não ser".

Heidegger diz que a tradição filosófica dos gregos em diante sempre identificou o ser com a presença no mundo. Assim, segundo tal tradição, ser era estar presente no mundo e não ser era não estar presente no mundo. Segundo Heidegger, isso é um erro, porque, se se entende por "presença" a possibilidade de ocupar lugar no espaço e no tempo, toma como resposta geral sobre a questão do ser uma resposta que pode servir, quando muito, para o ser dos objetos materiais, para o ser, por exemplo, de mesas e cadeiras. Ora, tomar como referencial do que é o ser a descrição do ser de objetos materiais é generalizar para todos os outros entes ("entes" são as coisas que são, que existem) o tipo de ser característico de certos entes em particular.

Não que se possa determinar o que é o ser sem levar em conta os entes dos quais se fala em especial, ou seja, sem levar em conta se se fala do ser das mesas, de idéias, de relações, de pessoas, de abstrações etc. Heidegger acreditava que a resposta da questão do ser só pode ser obtida mediante o exame do ser dos entes, e, portanto, é preciso, sim, começar por algum ente ou tipo de ente em especial. Mas não via razão para começar pelos objetos materiais como os entes que acima de tudo deveriam ser examinados. Heidegger acreditava que, na tentativa de responder à questão do ser, se deveria examinar em primeiro lugar aquele ente que é o único que se pergunta sobre o ser, ou seja, o homem.

Aqui vale a pena chamar atenção para um ponto polêmico de interpretação das idéias de Heidegger. Heidegger não se refere explicitamente ao homem, e sim ao "Dasein", termo alemão que, embora signifique simplesmente "existência", é geralmente traduzido como "Ser-aí", porque isso facilita a posterior compreensão dos jogos conceituais que Heidegger faz com o "da" (aí) e o "sein" (ser). Pois bem, o Ser-aí é, segundo Heidegger, aquele ente capaz de se perguntar sobre o ser, aquele ente que se põe como intérprete privilegiado do ser dos outros entes. Ora, o mais natural seria identificar de cara esse ente com o homem. Contudo, uma respeitável tradição de intérpretes considera essa identificação precipitada, ou porque considera que as propriedades que Heidegger atribui ao Ser-aí pertenceriam a todo e qualquer ente que se fizesse a pergunta sobre o ser, e não apenas ao homem; ou porque interpreta que, acima do homem individual, é muito mais às coletividades, às tradições culturais, que Heidegger atribui o estatuto de Ser-aí. Em que pese essa considerável objeção, seguirei minha exposição me referindo ao Ser-aí como sendo o homem individual (essa interpretação que faço costuma ser chamada de "interpretação existencialista" do pensamento de Heidegger).

Portanto, Heidegger acreditava que, na tentativa de responder à questão do ser, se deveria examinar em primeiro lugar aquele ente que é o único que se pergunta sobre o ser, ou seja, o homem. Isso equivale a, na relação entre sujeito conhecedor e objeto conhecido, em vez de se perguntar pelo ser daquele ente que só pode ser objeto, se perguntar pelo ser daquele ente que pode ser tanto objeto quanto sujeito. Em vez de partir das coisas para determinar o ser de todos os entes, inclusive o homem, Heidegger propunha partir do homem para determinar o ser de todos os entes, inclusive as coisas.

(CONTINUA)

Atualização em 07/02/2012: A continuação agora está disponível aqui.

45 comentários:

Ricardo Dib Taxi disse...

Caro Professor, mais uma vez fico muito feliz de ler as suas sempre claras explicações. Agradeço certamente em nome de todos.
Todavia, ao ler sua explanação, surgiu pra mim várias dúvidas as quais nem cabe citar aqui porque são muitas.
Todavia, ao ler trechos de um livro de Ernildo Stein (compreensão e finitude), me pareceu que o modo de explicação fenomenológica Heideggeriano se afastaria da relação sujeito-objeto pois essa é uma pressuposição que não encontra razão.
Ele fala também do fato do ser se projetar no futuro, de modo que antes de pensar a "realidade", deveriamos olhar num sentido de "possibilidade", pela projeção etc.. enfim.. estou percebendo que a complexidade de Heidegger não é a complexidade a que estou acostumado pois parece que ele dança com as palavras, se movendo em um caminho "quase místico" em sua busca pelo sentido do ser... embora eu pouco possa falar disso.
Vou deixar aqui um link de um pequeno video dele no youtube, embora haja um documentário de 6 partes fantástico em inglês sobre ele.
http://www.youtube.com/watch?v=C4d-J_t_dEo

André Coelho disse...

Ricardo, obrigado pela visita e pelo comentário. Espero que você tenha apreciado essa primeira postagem. Haverá outras (já devo colocar uma segunda hoje ou amanhã) em que algumas das questões que você levantou serão esclarecidas. De fato, Heidegger rejeita a maneira tradicional de conceber a relação entre sujeito e objeto e de fato ele concebe o ser do Ser-aí como um ser que se projeta no tempo. Mas esses são pontos que abordarei nas postagens subseqüentes. Queria que, se possível, você já fizesse algumas daquelas "várias dúvidas as quais nem cabe citar aqui porque são muitas", para já nos adiantarmos em relação a elas.

Abraço!

Namir disse...

André,não o conheço pessoalmente, mas a sua fama o precede. Sou da área jurídica e gosto de filosofia. Acompanho os seus comentários com grande interesse, são muito coerentes, esclarecedores e instigantes (sem serem superficiais). Possibilitam que aprendamos um pouco sobre filosofia, principalmente, quando a correria do dia-a-dia não nos permite debruçar sobre os assuntos que gostamos. Realmente, os livros de filosofia não são fáceis, às vezes desanimadores, por isso as suas lições, sempre claras, são um convite. Diante da sua primeira explicação sobre "Ser e tempo", não pude me manter apenas como uma leitora anônima. Confesso, quando estava começando a melhor parte da explicação, o texto acabou, e fiquei ansiosa pelos próximos "capítulos". Parabéns pelo blog.

André Coelho disse...

Cara Namir, obrigado pelo elogio, que me serve de estímulo a seguir postando nesse blog. Queria que você explicasse por que disse que minha fama me precede, rsrs, e de que tipo de fama se trata. Gostaria que você se tornasse uma assídua leitora e comentadora. Um abraço!

sil disse...

É a primeira vez que permito-me dialogar neste blog. Espero econtrar comentário sobre meu comentário sobre o pessimismo.
Credito que a atenção dada pelas pessoas ao tema e a concordância que expressam aos comentários pessimistas, é devido à própria identificação com essa maneira doentia de ver o mundo, demonstrando descrédito na própria capacidade e no ser humano.

André Coelho disse...

Sil, obrigado pela visita ao blog e por ter tomado a iniciativa de comentar uma potagem. Acho que apenas com essa participação ativa dos leitores é que o blog adquire forma verdadeiramente filosófica e alcança seu propósito maior de proporcionar um espaço de discussão para temas desse tipo. Quanto ao seu comentário, você disse que as pessoas costumam reagir às teorias pessimistas com inicial concordância ou entusiasmo porque concordam com elas, se identificam com aquela maneira de ver o mundo. Se entendi o que você quis dizer, as pessoas, nesse caso, já seriam pessimistas antes mesmo das teorias, sendo, pois, o contato com essas idéias apenas o momento de expressar ou trazer à tona essas crenças prévias. De minha parte, tenho dúvidas sobre o quanto as pessoas são mesmo pessimistas. Acho que a maioria delas não o é. Mas, supondo que você tenha razão quanto a esse ponto, nos diga, então, qual a razão por que você acredita que as pessoas sejam pessimistas? em que momentos e de que formas esse pessismismo se expressa? E por que, enfim, as teorias pessimistas contradizem o senso comum, já que, se é como você diz, faria mais sentido que o senso comum fosse ele mesmo pessimista?

Nádia disse...

O pessimismo é o devir ontológico. Intuindo a essência humana e as relações do homem com o mundo, é impossível não depreender que o "lance de dados" sempre desfavorece o melhor resultado. Nesse sentido, o homem, ciente das forças que o cercam desfavoravelmente derreia suas forças. Para melhor entender, basta observar, em um exemplo simples, o tempo e o esforço para a construção de um monumento arquitetônico e comparar com o tempo necessário para desconstruí-lo. De onde se conclui: por em desordem é bem mais fácil do que por em ordem, e isso é desanimador. A natureza nos ensina que suas leis favorecem o caos, a desordem, a entropia... A filosofia e as elucubrações humanas mais íntimas também são reflexos de uma analítica postura humana diante das lições da natureza. O pessimismo resulta de um profundo grau de análise e de um senso probabilístico imanente aos grandes questionadores da existência humana. Schopenheuer, v.g, não criou a morte, não inventou a angústia e nem abriu a caixa de Pandora: ele apenas observou e descreveu com inalterabilidade anímica as sinuosidades do mundo. Ser pessimista é ser minimamente estatístico e observador. Ser otimista é confiar que um lance de dados poderá, de per si, abolir o acaso.

André Coelho disse...

Nádia, quando postei sobre o pessimismo, pensava primeiramente no contexto humano, mas, como você elevou o questionamento ao nível ontológico, me sinto no dever de comentar a respeito. Quer-me parecer que Caos e Cosmos estão sempre juntos e que a balança não pende assim tanto para o primeiro. Ao mesmo tempo em que o universo é entrópico, é também seletivo, de modo que suas configurações mais bem sucedidas sobrevivem e se repetem no futuro. Do contrário, não chegaríamos a um planeta organizado, com um ecossistema realimentante e com vida inteligente. Se você pensar que, num universo governado por forças cegas, surgiram seres capazes de amar, de apreciar a arte e de conceber a imortalidade, verá que as razões em favor do otimismo também têm peso significativo.

Nádia disse...

[...]seres capazes de amar, de apreciar a arte e de conceber a imortalidade[...]. Pois lhe digo que, se estes sentimentos humanos existem, é apenas como contraste para seus antagônicos. Quem é esse ser de que falas? Seria o homem? Reflitamos então sobre o mundo em que habitamos... Então?

Tania disse...

Caro professor: é a primeira vez que visito este blog. Adorei! Porém, estou frustrada procurando a continuação do texto sobre Heidegger. Não tenho muita destreza com computadores e, por isso mesmo, creio, não estou conseguindo acessar a sequência de texto sobre Heidegger. Afinal, ela existe? Se não, lhe pediria para falarmos um pouco mais sobre ele - que está "dando um nó no meu juízo" rsrssss Grata Tania Viana

André Coelho disse...

Tania, acabou não tendo a prometida segunda postagem. Que tal você escrever suas questões e assim a gente vai construindo junto essa postagem?

Atena disse...

Caro professor:
Inibi-me, um pouco, o fato de não pode tecer comentários mais elaborados, uma vez que estou apenas iniciando meus estudos sobre Heidegger.Encontro-me, ainda, perdida meio às "reais" diferenças entre "ente" e "ser" e "ser-ai". Falamos muito do "ente"! Pensei haver captado a mensagem, mas perdí-me novamente na sequência da leitura. Dou-lhe um exemplo transcrevendo esta frase da "Nota do Tradutor": "O pensamento originário que retorna ao fundamento da metafísica somente pode fazê-lo porque superou o objetivismo da metafísica que confundiu o ser com o ente e não pensa o próprio ser. Este somente pode ser pensado quando se parte da transcendentalidade do ser-aí, isto é,quando se leva em consideração aquela dimensão em que misteriosamente o ser se revela no ser-aí"..."Na dimensão que se abre com o encontro do homem com o ser pode surgir a metafísica"...
Perdoe a minha ignorância, mas o homem não é o "ser"?
Fico-lhe antecipadamente grata pela generosidade de partilhar comigo seu saber.

André Coelho disse...

Cara Atena, não se preocupe, tudo de que você precisa é de algumas noções simples de metafísica tradicional, depois das quais aquelas frases soarão menos herméticas. Então, vamos a elas, a partir de questões:

1) Ser e ente

"Ser" é uma condição ou atributo (a condição ou atributo de existir), enquanto "ente" é certo possuidor dessa condição ou atributo (alguma coisa ou pessoa que existe). Falar de ser e ente é como falar de maciez e uma superfície macia (essa superfície é dotada de maciez, mas não é a maciez, que é uma qualidade abstrata, e não uma coisa), ou falar de cor e um objeto colorido(esse objeto é dotado de cor, mas não é a cor, que é uma qualidade abstrata, e não uma coisa): o ente tem o atributo ou condição de ser, mas não é o ser, que é um atributo ou condição abstrata. As coisas que existem (que são) são os entes, enquanto o ser é esse atributo ou condição de existir (de ser) que todas elas têm em comum. Uma cadeira, por exemplo, é um ente, mas não é um ser, muito menos "o" ser. O ser é algo que está presente na cadeira, na mesa, no cachorro, no ser, algo que os torna entes.

2) Ente e Ser-aí

Entre as coisas que são, isto é, entre os entes, há dois tipos que Heidegger distingue:

a) Os que são no sentido de ocuparem um lugar no mundo e de terem certas características que não foram escolhidas nem produzidas por eles próprios (para esses continuarem a ser, precisam continuar a ter essas mesmas características ao longo do tempo, de modo que, para esses, o tempo é adversário do ser - quer dizer, o tempo é um obstáculo a ser vencido, aquele que torna difícil continuar a ser, como no caso de uma cadeira que, conforme o tempo passa, envelhece, perde cor, dureza, função, até deixar de ser uma cadeira);

b) Os que são no sentido de produzirem suas próprias condições de existência e de estarem constantemente acertos a serem de outra maneira, como um projeto sempre incacabdo, em eterna construção e reconstrução (para esses continuarem a ser, não devem permanecer os mesmos, e sim tornarem-se outros, novos, seguir em novas direções e adquirir novas caracteristicas, determinadas por eles mesmos, de modo que, para esses, o tempo é o ser - quer dizer, em vez de adversário do ser, é uma condição do ser, é aquilo que permite que esse ente seja, já que ele só pode ser tornando-se realização de seu próprio projeto e, portanto, num processo que depende do tempo e se desenvolve no tempo). Os entes desse último tipo são o ser-aí, ou os homens.

3) Confundir o ser com o ente

Para Heidegger, o erro da metafísica tradicional, de Platão e Aristóteles em diante, foi "confundir o ser com o ente", quer dizer, tomar o ser dos entes-objetos como se fosse o ser por excelência, o paradigma do que significa o ser. Heidegger achava que, ao contrário, esse primado ontológico (quer dizer, essa condição de ser o possuidor por execelência do ser) cabia ao ser-aí, isto é, ao ser que se faz a si mesmo, ao ser que é eterna possibilidade em aberto e eterna realização de seu próprio projeto. Essa abertura, essa autoprojeção, essa autodeterminação, enfim, os atributos básicos do ser-aí, esses sim permitem ver o que signifca o ser.

Espero ter ajudado.

Atena disse...

Caro professor.
O senhor poderá ter uma idéia, mas jamais poderá imaginar a minha alegria esta manhã, cedinho, ao olhar e ver na tela do computador sua resposta.
É certo! Nunca estudei metafísica,porém, com sua resposta clara e objetiva me ajudou; ajudou e muito! Continuarei a minha leitura e,agora,melhor alicerçada pelas suas claras explicações. Serei ainda mais feliz, se o senhor me permitir voltar (de tempos em tempos) a lhe incomodar com minhas "inquietudes heideggerianas".rsrsss
Um grande abraço!
Atena

Anônimo disse...

Ola eu sou a patricia.
Estou a fazer um trabalho para a escola sobre o sentido da existencia de heidegger. Mas tou um pouco atrapalhada. Gostava que me desse algumas dicas sobre o sentido do ser para heidegger. O sentido da vida...

obrigada e espero pela resposta!!

Atena disse...

Cara Patrícia.
Quanta tristeza; quanto me dói ter que declarar a você a minha quase total(ainda) ignorância em relação a Heidegger!. Estou iniciando um mestrado em filosofia cujo tema para este semestre é maître Eckhart X Heidegger. Entretanto, ainda não abordamos Heidegger e nos ocupamos, primeiramete, da mística de maître Eckhart - ídolo de Heidegger. Tenho, como você, pedido ajuda aqui e ali para melhor entender Heidegger; pretendo, mesmo, fazer minha dissertação sobre ele. Heidegger é minha atual paixão.
Aqui mesmo, neste blog, recebi informações que me foram de grande ajuda. Faça, você, agora, o seu questionamento - coloque uma pergunta e o professor responde. Estes primeiros momentos são "o fio da meada" e, evidentemente, de fundamental importância para a compreensão do todo.
Aguardo notícias suas.
Bj
Atena

Patrícia disse...

Primeiramente obrigada por ter respondido. Confesso que fiquei um pouco confusa com a sua resposta, pois a obra que foi comentada no seu blog foi precisamente "ser e tempo" e nesta obra e onde heidegger se colaca com a questao do ser e do sentido da existencia da vida. Por isso, pensei que você me poderia ajudar. Muito Obrigado pela a atençao.

Anônimo disse...

Professor:
A única coisa errada no seu texto é o senhor não ter dado continuidade a tarefa. Cadê o resto? Fale, por favor, da questão da "técnica". E também da obra de Heidegger depois da "virada", e da relação do filósofo com a poesia. Obrigado, pelo já feito!

Ricardo Mineiro disse...

Nossa bacana, muito legal.
Bem evidente em sua explicações.
Meu caro "usted" está de parabéns.

Anna JuhH disse...

Professor André Coelho, me chamo Anna Julia Weber, tenho 17 anos, sou uma aluna do 3° ano do Ensino Médio e preciso apresentar um TCC para as minhas aulas de filosofia. Me interesso muuuito por filosofia e confesso que às vezes até me estranho por minha maneira de pensar e vontade de agir, pois minha indgnação com relação à situação do mundo e dos seres humanos é muito grande. Devo escolher um tema para fazer a minha monografia e apresentar meu TCC. Tinha pensado em falar sobre o "ser humano e sua desumanização" para Heidegger, e, de alguma maneira, chamar a atenção e conscientizar as pessoas para a situação e boa inflência do homem que poderia mudar totalmente o rumo do nosso planeta e principalmente da nossa sociedade.
Gostei muito do seu blog e sua postagem. É a primeira vez que o visito.
Gostaria que me ajudasse a entender melhor o pensamento de Ser humano para Hidegger e, se fosse possível, alguma opinião sobre o tema.

Agradeço muuuuuito pela atenção e pela paciência ao ler meu comentário.

Obrigada
Um abraço.

Anna Julia Weber

André Coelho disse...

Cara Ana Júlia Weber, favor me escreva (andrescoelho@uol.com.br) fornecendo o seu e-mail e seu contato para msn. Vamos conversar sobre seu projeto de TCC e terei prazer de ajudá-la como puder. Um beijo!

Anônimo disse...

PROFESSOR ANDRÉ, FAÇO LICENCIATURA EM FILOSOFIA PELA UNIVERSIDADE DO ESTADO DO AMAPÁ E ESTOU JUNTAMENTE COM MEU GRUPO DE 4 AMIGAS TENTANDO ENTENDER SOBRE "O SER E O TEMPO" PARA HEIDEGGER. APÓS ESSE ENTENDIMENTO TEMOS QUE ACHAR UM AUTOR QUE CONTRAPÕE AS IDEAIS DE HEIDEGGER. QUANDO LI SEU TEXTO, MUITOS QUESTIONAMENTOS FORAM RESOLVIDOS.

Anônimo disse...

Caro Professor, sou estudante de Psicologia. No momento estamos estudando Heidegger na materia de Fenomenologia. Venho atravez deste lhe agradecer pelas explicações sobre esse texto de leitura complexa. Seriamos gratos se houvesse a continuação da explicação sobre o texto, pois ajudaria numa compreensão mais rapida dos conceitos desse grande filosofo.

Jennifer disse...

Caro professor ,fiquei muito feliz ao ler este artigo pois estou estudando heidegger e ao fazer a leitura do livro obtive diversas dúvidas algumas explanadas neste artigo ,parabenizo pela execelente explicação.
Sei que esta publicação é um pouco antiga mais gostaria de lhe pedir a continuidade do artigo ou se não uma breve abordagem da angústtia por heidegger.

um grande abraço!

Carlos Carneiro disse...

Caro Andre, estou no sétimo semestre de filosofia(UESC) e estudo uma disciplina com O Ser e tempo, li as suas explicação e gostei, porém sinto necessidade de entender Deus na questão do ser, no referido livro. Gostaria de saber o que você a dizer sobre o assunto.

André Coelho disse...

O lugar de Deus em Heidegger? Bom, nenhum, eu acho. Mas especifique melhor a sua questão.

Obrigado por visitar o blog e deixar um comentário. Volte sempre!

André Coelho disse...

Caros leitores dessa postagem, alguns dos quais me pediram mais que uma vez uma continuação para ela: Agora (3 anos e meio depois!!!) a continuação está disponível aqui nessa nova postagem:

http://aquitemfilosofiasim.blogspot.com/2012/02/ser-e-tempo-de-heidegger-ii-o-dasein.html

Espero que gostem. Abraços!

Jones Barreto disse...

André, muito interessante suas colocações a respeito da obra Ser e Tempo. Sou estudante de Psicologia e estudo a abordagem existencial-fenomenológica e estou iniciando a leitura da parte I deste livro de Heidegger. Ainda não comecei a lê-lo, mas suas considerações me fez começar a entender algumas questões. Muito bom! Um abraço.

André Coelho disse...

Obrigado, fico contente em ter ajudado.

E. C. disse...

Caro André Coelho, ainda que meu comentário não seja pertinente à essa maravilhosa postagem (que, na verdade, me trouxe aqui)sinto valer a pena perguntar:este é um blog ou um ato de amor?

Edmundo Carôso

E. C. disse...

André, este é um espaço maravilhoso. Principalmente para quem descobriu um amor tardio pela filosofia. Heidegger me trouxe aqui; daqui pra frente será você. Seu blog é um ato de amor para aqueles que, como eu,escrevem sobre o que não sabem e fustigam aquilo que não veem.

Edmundo Carôso

André Coelho disse...

Obrigado, Edmundo. Espero que volte sempre!

saraty disse...

olá, sera que alguém pode me dizer o que heidegger denomina ''pre-sensa'' ? grato.

Dr. Agnaldo Lima disse...

A Filosofia para mim é melhor que a Religião, embora se discuta que aquela gerou ou fundamentou esta. Entretanto, os filósofos deveriam recorrer a uma linguagem mais clara sobre os temas filosóficos, como o senhor o fez. Lembro-me, pois, quando comprei o livro "Ser e Tempo" de Heidegger, assim que comecei a lê-lo fiquei aborrecido, porque queria justamente que certos aspectos fossem ditos com mais naturalidade, para que compreendéssemos com mais facilidade, como fez o senhor aqui. Muito obrigado!

André Coelho disse...

Obrigado, Agnaldo. Mas lembre-se que sou apenas o intérprete aqui, o criador das ideias é Heidegger, por isso, não desista de "Ser e Tempo", apenas suporte a leitura dele com leituras paralelas, de ajuda na compreensão. No final, dará para fazer as pazes com o texto, por obscuro que ele seja.

Anônimo disse...

quais seriam as característica do ser na filosofia de Heidegger?

Pedro Lisboa disse...

"Heidegger era um gênio, sem dúvida, com idéias revolucionárias e robustas, mas não era um autor particularmente preocupado em fazer-se entender fora do círculo de filósofos profissionais que conviviam com ele." Ser e Tempo foi uma obra amplamente lida na Alemanha após sua publicação... Isso não seria um sinal de que Ser e Tempo foi escrito para ser compreendido de muitas formas? As vezes eu acho que tenho que ser alemão pra entender Ser e Tempo. rsrs Gostei do seu Blog. Mas não sei se ele está atualizado ou as postagens são muito antigas, pois não vejo o ano das postagens.
Estou pensando em fazer minha monografia sobre Ser e Tempo... você me ajudaria? Posso me comunicar com você por e-mail? Abraços.

Tainá Gamelheiro disse...

Muito obrigada pela ajuda. Muito bom seu texto, torna bem mais claro o texto.

Anônimo disse...

Fala André Coelho!em uma de suas postagem disse:
"O lugar de Deus em Heidegger? Bom, nenhum, eu acho". Eu gostaria de compartilhar com um pequeno comentário: Qual o lugar de Deus em Heidegger? a resposta a esta questão é: Deus é um "ente" entre muitos outros "entes". Se pensarmos numa perspectiva cristã iriamos dizer que Deus seria o próprio "ser", mas não é. Deus é um ente que se relaciona com outros entes. Mas deus é um "ente" um pouco mais melhorado, um Ente superior aos demais, mas não é o responsável pela abertura do "ser", poderia dizer que Deus é uma coisa, um objeto dado ao mundo dos entes, e que é um objeto de estudo da ciência positiva chamada "teologia".
Visitei seu blog hoje a busca de um resumo sobre ser e tempo, mas gostei.

samuel disse...

BOA NOITE CARO MESTRE ANDRÉ COELHO,
GOSTARIA DE PARABENIZAR PELO BLOG,
E TAMBÉM PODER LER ESTE COMENTÁRIO SOBRE, "SER E TEMPO" DE HEIDEGGER, FIQUEI MUITO INTERESSADO, POIS NESTA MESMA NOITE TIVE UMA AULA, COM O MEU PROFESSOR, DE HISTORIA DA FILOSOFIA
COMTENPORâNEA, MAS AS CONCLUSÕES FINAIS, FICARAM MAIS ESCLARECEDORAS DEPOIS QUE LI O SEU BLOG. SOU ACADÊMICO DE FILOSOFIA, NA UFMS, EM CAMPO GRANDE-MS. DAVI SAMUEL

Anônimo disse...

Professor: Seu artigo foi grande importância, para mim pois me ajudou a entender um pouco sobre esse grande filosofo do Século XIX, chamado Heidegger. Gostaria de pedir que o senhor escreve artigos sobre: Hegel,Nietzsche e Sart, pois tenho muita dificuldade para entender esses filósofos, se for atendido ficarei grato; haja visto que sua maneira de escrever possibilita entender a complexidade do pensamento dos referidos filósofos. Sou professor de História e dou aula de filosofia por não ter formação na área tenho muita dificuldade com esses pensadores.

Anônimo disse...

Só se pode Ser quando se aceita a morte. Não existe outra forma de viver para Ser.

Josiel disse...

Olá professor, boa noite. Fico muito feliz em deparar-me com seus textos, inclusive este. Faço pesquisa sobre a Relação Sujeito-Objeto em Heidegger e a princípio você me ajudou muito a entender esse jogo de palavras que encontrei em Ser e Tempo. Não faço graduação, sou apenas um estudante do ensino técnico federal, mas tenho perspectivas de assim como o senhor trabalhar com filosofia do direito.
Meus cumprimentos!

L.R.J. Wagner disse...

E como o senhor explicaria o sentido positivo da destruição da historia da ontologia envolvendo a analítica do Dasein?

Anônimo disse...

Qual a relação entre o conceito de "DAISEN" de Heidegger com o conceito de "ALÉM DO HOMEM" de Nietzche?