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Mostrando postagens de Dezembro, 2010

Sobre a Ética a Nicômaco 1094a 1-2: Minha posição

Dando continuidade à postagem anterior. Bem, propus a questão e agora venho dar minha opinião. 1) É preciso primeiro distinguir o que significa dizer que uma ação está "voltada para um fim". Bem, há primeiro um sentido muito trivial disso: Uma ação está voltada para um fim se for possível encontrar algum tipo de fato, estado ou situação que antes da ação está ausente e depois dela está presente e que, em razão de algum proveito, utilidade ou valor intrínseco, representaria um bom motivo para executar aquela ação. Nesse sentido, Aristóteles está certo: toda ação está voltada para um fim, porque não teríamos nenhum bom motivo para realizar uma ação se não supuséssemos que alguma coisa estará melhor depois de agirmos do que estava antes. 2) Contudo, há um segundo sentido, menos trivial, em que uma ação pode estar "voltada para um fim". Quando uma ação é tal que não apenas dela resulta certo fato, estado ou situação, mas também: a) o motivo da ação é

Sobre a Ética a Nicômaco 1094a 1-2

"Toda arte e toda investigação, bem como toda ação e toda deliberação, parece visar a algum bem: por isso se disse com razão que o bem é aquilo a que todas as coisas visam". Assim começa a Ética a Nicômaco, o principal dos escritos que Aristóteles dedicou ao tema da ética. Com essa frase, Aristóteles anuncia um programa de pesquisa. Ele investigará as atividades humanas como buscas de fins, considerados como bens. Ele está dizendo que a estrutura da ação humana racional é teleológica: Fazemos certas coisas para alcançarmos certos fins. E está dizendo que o motivo pelo qual buscamos tais fins é que eles nos parecem ser bens. "Fim" e "bem", assim, seriam categorias centrais para a explicação da ação humana. Mas será que Aristóteles está certo? Sempre que fazemos algo é para alcançar um fim com isso? Essa abordagem daria conta, por exemplo, do cumprimento de regras, das demonstrações de afeto, da apreciação da arte, do ritual religioso, da ação puramente habi

O Que Afinal Quer Dizer Ter um Dever Moral?

Vamos supor que no passado João emprestou a Pedro o livro "O Estrangeiro", de Albert Camus. Vamos supor também que já se passou certo tempo desde então e agora João pede a Pedro que devolva o seu livro. Nessa situação, estaríamos inclinados a dizer que Pedro deve devolver o livro "O Estrangeiro" para João. Ora, mas essa seria a conclusão qualquer que fossem as identidades de João e Pedro, de modo que podemos substituir seus nomes por simples variáveis de pessoas, por exemplo, A e B. Então, diríamos que B deve devolver o livro "O Estrangeiro" para A. Contudo, notamos agora que essa seria a conclusão também qualquer que fosse o livro em questão, ou mesmo se, em vez de um livro, se tratasse de outro objeto, como um carro, uma casa, uma caneta ou uma quantia em dinheiro, de modo que podemos substituir a descrição do objeto por uma variável de coisa, por exemplo, X. Diríamos, agora, que B deve devolver X para A. Ainda não é o bastante. Se compararmos a fórmul

A Teoria das Ideias ou das Formas: Uma Tentativa de Reabilitar Platão

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Toda exposição do pensamento de Platão precisa passar necessariamente pela exposição da chamada teoria das ideias ou das formas. Segundo essa teoria, as coisas que pertencem ao mundo sensível, isto é, o mundo a que temos acesso através dos sentidos, seriam apenas cópias imperfeitas de ideias ou formas que habitam um mundo inteligível, isto é, acessível apenas ao intelecto. Essa ideia ou forma (eidos) de cada coisa equivaleria ao seu conceito (logos) e poderia ser descoberta mediante a dialética: um método de busca da verdade em que, por via de perguntas e respostas, se chega ao conhecimento das coisas que são para além de toda a aparência. Esse método estaria ilustrado nos célebres diálogos em que Sócrates pergunta a alguém o que é tal coisa - a piedade, a amizade, o conhecimento, a justiça etc. -, refuta sistematicamente as tentativas dessa pessoa de responder à questão recorrendo aos juízos do senso comum e inicia, mediante um jogo de perguntas e respostas, a construção do conceito d

O que é a Beleza?

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Nessa postagem pretendo abordar introdutoriamente o tema da beleza de um ponto de vista filosófico. Começo mostrando por que não vale a pena perguntar o que é "a beleza", mas sim apenas o que significa dizer que um objeto é belo, ou, melhor ainda, o que torna um objeto belo distinto de um objeto não belo (1). Em seguida, exploro uma primeira possibilidade de resposta, a saber, que o objeto belo seja objetivamente distinto do objeto não belo, ou seja, que haja no objeto belo alguma propriedade particular que falta ao objeto não belo, explicando, na sequência, por que essa resposta não é satisfatória (2). Depois, exploro a possibilidade de que o objeto belo seja objetivamente igual ao objeto não belo, mas que o sujeito experimente o objeto belo como distinto do não belo devido a cirscunstâncias puramente subjetivas, mostrando, logo em seguida, por que essa também não é uma resposta satisfatória (3). Finalmente, introduzo a possibilidade de que o objeto belo seja intersubjetiva

Indicação de Leitura

Arte e Literatura: Analisando um Quadro: "Impression: Soleil Levant" O Blog se chama "Arte e Literatura" e se propõe a dividir com os simples mortais que se interessam pelos domínios estéticos algumas informações e conhecimentos básicos que permitam entender melhor o universo e as obras de cada arte particular. Vale a pena consultar o Blog, inclusive porque a criadora dele, que conheço pessoalmente e que se tornou autodidaticamente uma das maiores conhecedoras de arte que eu já vi, está precisando de um incentivo em visitas e comentários para começar a publicar mais e mais constantemente na sua própria página. Então, vamos dar uma forcinha a essa causa, fazer uma visita à página e, se possível, deixar recados nos comentários pedindo mais postagens de arte. Afinal, estar fazendo doutorado na Sorbonne não é desculpa para não alimentar o Blog constantemente, não é? Abraços a todos!

Indicação de Leitura

Sobre o mundo e etc.: O Paraense: um hipócrita

Aula: "Motives and Morality", parte do curso "Justice: What's the Right Thing to Do?", de Michael Sandel

Estou pensando em legendar esse vídeo, quando tiver um tempinho. Por enquanto fica disponível apenas para aqueles que tiverem uma boa compreensão de inglês: Watch it on Academic Earth

Sistemas Jurídicos: Common Law vs. Civil Law

Chama-se common law ao direito elaborado por juízes mediante decisões que se tornam vinculantes para casos análogos posteriores (precedentes). Chama-se civil law ao direito elaborado por legisladores ou membros do poder executivo na forma de leis, decretos, regulamentos etc. Os sistemas que dão primazia ao precedente sobre a lei chamam-se common law systems , enquanto os sistemas que dão primazia à lei sobre o precedente chamam-se civil law systems . Mas ambos os tipos de sistema jurídico contêm sempre tanto common law quanto civil law . Assim, os princípios e práticas próprias do common law e do civil law estão presentes em qualquer sistema e são aplicadas sempre que se esteja lidando com precendentes ou com leis. Dessa forma, antes de entender as diferenças entre sistemas que dão primazia a um ou a outro, é preciso antes entender a diferença entre trabalhar com precedentes e trabalhar com leis. As principais diferenças entre os dois podem ser listadas assim: 1. Precedentes são

Crítica da Razão Pura: Uma Visão Simplificada (1)

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Introdução Com sua primeira edição publicada em 1781 e segunda edição em 1787, a Crítica da Razão Pura ( Kritik der reinen Vernunft ) consta facilmente de duas listas: a lista das obras mais importantes e influentes da história do pensamento ocidental; e a lista das obras mais abstrusas e difíceis de serem lidas e compreendidas por quem não esteja temendamente familiarizado com a linguagem de seu autor. Este último é o filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804), que reconhecidamente não era tão brilhante em estilo literário quanto era em profundidade, rigor e perspicácia filosófica. Essa combinação na mesma obra entre extrema relevância e extrema obscuridade é um convite para uma postagem de apresentação e de introdução às suas ideias principais. Não tenho aqui a pretensão de mostrar que o que Kant disse em quase 700 páginas pode ser dito facilmente em 7 parágrafos claros e elegantes, mas apenas a boa intenção de fazer com que tais parágrafos sirvam de primeiro olhar sobre o conteú