Postagens

Mostrando postagens com o rótulo Aristóteles

Mérito: Que Significa Merecer Mais ou Menos?

Quando é que a ação correta tem maior "mérito"? Quando ela é feita espontaneamente, por uma pessoa cuja alma ama naturalmente o que é bom e não sente a menor inclinação de fazer o contrário? Ou quando é feita à custa de muito sacrifício, por férrea convicção racional, enfrentando resistências subjetivas e fortíssimas inclinações em contrário? Estas duas hipóteses de resposta, que chamarei, para facilitar, de hipótese-A (de Aristóteles, devido à distinção que ele traça entre o homem virtuoso e o homem que é meramente continente) e hipótese-K (de Kant, devido aos célebres exemplos das ações cumpridas apenas por dever na Fundamentação da Metafísica dos Costumes) só poderão ser examinadas à luz da determinação prévia do que significa ter mérito. A primeira questão a responder, assim, é o que entendemos por ter mérito. O termo "mérito" vem do verbo "merecer" e indica a situação em que algo ou alguém merece algo. Usado no contexto moral, "mérito" ger...

Sobre a Ética a Nicômaco 1094a 1-2: Minha posição

Dando continuidade à postagem anterior. Bem, propus a questão e agora venho dar minha opinião. 1) É preciso primeiro distinguir o que significa dizer que uma ação está "voltada para um fim". Bem, há primeiro um sentido muito trivial disso: Uma ação está voltada para um fim se for possível encontrar algum tipo de fato, estado ou situação que antes da ação está ausente e depois dela está presente e que, em razão de algum proveito, utilidade ou valor intrínseco, representaria um bom motivo para executar aquela ação. Nesse sentido, Aristóteles está certo: toda ação está voltada para um fim, porque não teríamos nenhum bom motivo para realizar uma ação se não supuséssemos que alguma coisa estará melhor depois de agirmos do que estava antes. 2) Contudo, há um segundo sentido, menos trivial, em que uma ação pode estar "voltada para um fim". Quando uma ação é tal que não apenas dela resulta certo fato, estado ou situação, mas também: a) o motivo da ação é ...

Sobre a Ética a Nicômaco 1094a 1-2

"Toda arte e toda investigação, bem como toda ação e toda deliberação, parece visar a algum bem: por isso se disse com razão que o bem é aquilo a que todas as coisas visam". Assim começa a Ética a Nicômaco, o principal dos escritos que Aristóteles dedicou ao tema da ética. Com essa frase, Aristóteles anuncia um programa de pesquisa. Ele investigará as atividades humanas como buscas de fins, considerados como bens. Ele está dizendo que a estrutura da ação humana racional é teleológica: Fazemos certas coisas para alcançarmos certos fins. E está dizendo que o motivo pelo qual buscamos tais fins é que eles nos parecem ser bens. "Fim" e "bem", assim, seriam categorias centrais para a explicação da ação humana. Mas será que Aristóteles está certo? Sempre que fazemos algo é para alcançar um fim com isso? Essa abordagem daria conta, por exemplo, do cumprimento de regras, das demonstrações de afeto, da apreciação da arte, do ritual religioso, da ação puramente habi...

Ética Aristotélica: O Básico do Básico da "Ética a Nicômaco"

Toda atividade visa a algum fim, que é visto como um bem pelo agente. Contudo, as atividades têm fins que servem de meios para os fins de outras atividades, o que implica que os bens dessas são maiores e mais excelentes. Deve haver, assim, uma atividade tal que o bem a que ela visa não serve de meio para nenhum outro e serve de fim para todos os outros. Essa atividade é a política, porque o bem da pólis é o bem mais excelente de todos. Resta determinar apenas no que consiste esse bem mais excelente, que é finalidade última de todos os demais. Esse bem é a felicidade (eudaimonia). Afinal, ela é boa em si mesma, não é buscada em vista de outra coisa e todas as outras coisas são buscadas em vista dela. Tal felicidade, contudo, não consiste num sentimento subjetivo, mas numa situação objetiva em que se pode dizer que o tipo de vida que certa pessoa vive é o melhor dentre todos os tipos de vida para o ser humano, ou seja, é uma vida plenamente realizada ou a vida boa (eu zên). Por certo, a ...